<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Retrógrada ✧: ✧ Cartografia do Desafeto ✧]]></title><description><![CDATA[Notas de campo sobre amor, desencontros e outros fenômenos urbanos. Tô tentando provar um ponto: não existe amor em SP.]]></description><link>https://retrograda.substack.com/s/cartografia-do-desafeto</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!q8SY!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd3b72cac-bd13-45f3-9725-b90c46cb15cd_1280x1280.png</url><title>Retrógrada ✧: ✧ Cartografia do Desafeto ✧</title><link>https://retrograda.substack.com/s/cartografia-do-desafeto</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Thu, 09 Jul 2026 04:16:47 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://retrograda.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[venus edain]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[retrograda@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[retrograda@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[venus edain ✧]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[venus edain ✧]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[retrograda@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[retrograda@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[venus edain ✧]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Cartografia do Desafeto #3]]></title><description><![CDATA[Em lovebombing n&#227;o se cai, se surfa]]></description><link>https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-3</link><guid isPermaLink="false">https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-3</guid><dc:creator><![CDATA[venus edain ✧]]></dc:creator><pubDate>Thu, 02 Jul 2026 15:18:08 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/32ff0d6c-c1ea-42c0-9c7a-4724cd32e62d_700x700.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><div class="callout-block" data-callout="true"><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">lovebombing<br>/&#712;l&#652;v&#716;b&#594;m&#618;&#331;/</span></strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> &#8212; </span><em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">l&#226;v-b&#243;m-bin</span></em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"><br></span><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">substantivo masculino</span></strong><br>T&#233;cnica de manipula&#231;&#227;o emocional baseada no envio massivo de elogios exagerados, promessas prematuras, planos de viagem feitos por algu&#233;m que provavelmente ainda n&#227;o lavou a pr&#243;pria roupa de cama e declara&#231;&#245;es absolutamente desproporcionais ao tempo de conviv&#234;ncia entre duas pessoas que, at&#233; mais ou menos semana passada, sequer sabiam da exist&#234;ncia uma da outra.</p><p>Do ingl&#234;s <em>love</em>, amor, e <em>bombing</em>, bombardeio. No Brasil, manifesta-se no ato de transformar uma pessoa rec&#233;m-conhecida &#8212; muitas vezes uma alma de segunda m&#227;o encontrada <s>numa ca&#231;amba</s> num aplicativo de relacionamento &#8212; no suposto amor da sua vida com a mesma responsabilidade de quem compra uma geladeira parcelada em doze vezes numa loja desconhecida da internet porque viu um v&#237;deo no TikTok Shop, mesmo estando com a fatura do cart&#227;o de cr&#233;dito atrasada e o nome quase indo parar no Serasa.</p></div><div><hr></div><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Por que algumas bandeiras vermelhas s&#227;o t&#227;o bonitas tremulando ao vento que ignor&#225;-las parece quase falta de educa&#231;&#227;o?</span></strong></p><p>Existe, eu acho, uma categoria muito espec&#237;fica de desastre afetivo que n&#227;o chega na nossa vida vestida exatamente de desastre. Ela n&#227;o aparece com uma placa luminosa dizendo &#8220;perigo&#8221;, n&#227;o manda curr&#237;culo avisando <em>&#8220;se liga, eu tenho tend&#234;ncias manipuladoras&#8221;</em>, n&#227;o coloca na bio do Instagram <em>&#8220;fa&#231;o promessas intensas demais porque n&#227;o sei sustentar intimidade real por mais de tr&#234;s semanas&#8221;.</em></p><p>N&#227;o. Esse tipo de desastre costuma chegar perfumado, articulado, atento, convenientemente interessado em todos os detalhes da sua vida e, acima de tudo, muito disposto a fazer voc&#234; acreditar que, depois de anos conversando com homens que respondem <em>&#8220;eae oque ta fazendo ???&#8221;</em> para uma frase de sete linhas, finalmente encontrou algu&#233;m capaz de conjugar um verbo, fazer uma pergunta e demonstrar interesse sem parecer que est&#225; sendo torturado pelo Estado.</p><p>Foi sobre isso que comecei a pensar depois de uma conversa absolutamente aleat&#243;ria com um conhecido. E aqui fa&#231;o quest&#227;o de usar a palavra <em>conhecido</em>, porque &#8220;amigo&#8221; seria &#237;ntimo demais, &#8220;colega&#8221; seria profissional demais e <em>&#8220;pessoa que de alguma forma foi parar no meu Instagram e permaneceu orbitando minha vida digital&#8221;</em> seria preciso demais para caber numa frase sem parecer um laudo.</p><p>Para ser honesta, eu nem lembro exatamente de onde esse homem saiu. Se eu tivesse que apostar, diria que provavelmente foi algum match antigo de algum aplicativo de relacionamento; daqueles em que a conversa at&#233; come&#231;a, talvez renda meia d&#250;zia de mensagens, mas morre em algum lugar entre a falta de qu&#237;mica, a falta de assunto ou o momento em que voc&#234; abre o perfil da pessoa mais atentamente e percebe, com uma tristeza discreta, que ela simplesmente n&#227;o faz o seu tipo. E tudo bem. Nem todo mundo que cruza a nossa vida precisa beijar nossa boca ou virar amor, trauma ou contato bloqueado.</p><p>O ponto curioso &#233; que esse conhecido, de algum jeito, continuou ali. Olhando meus stories, acompanhando meus surtos p&#250;blicos, testemunhando minhas observa&#231;&#245;es sociol&#243;gicas sobre homens e mulheres, aplicativos e outras manifesta&#231;&#245;es do fim da civiliza&#231;&#227;o ocidental.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">E veja s&#243; como a escrita abre portas, ou pelo menos janelas por onde pessoas improv&#225;veis come&#231;am a gritar opini&#245;es interessantes:</span></strong> ele gostou da minha escrita. Mais especificamente, gostou da minha acidez, do meu cinismo e da minha aparentemente inesgot&#225;vel disposi&#231;&#227;o em transformar desgra&#231;a afetiva (a minha e a de voc&#234;s) em material de pesquisa. Virou leitor inscrito da newsletter. E, como se o universo tivesse decidido me lembrar que nenhuma intera&#231;&#227;o digital &#233; realmente in&#250;til quando voc&#234; tem uma coluna para alimentar, a hist&#243;ria desta edi&#231;&#227;o nasceu justamente dele.</p><p><em><strong>Esta &#233; a edi&#231;&#227;o n&#186; 3 de Cartografia do Desafeto: <span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">em lovebombing n&#227;o se cai, se surfa.</span></strong></em></p><p>Leia a edi&#231;&#227;o anterior aqui:</p><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;0501492e-33c1-4c39-b909-7fae3755fe8f&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;Disclaimer: se voc&#234; est&#225; lendo esta edi&#231;&#227;o pela sua caixa de entrada, sugiro que abra o post no navegador ou no app do Substack. O post t&#225; bem longo e ultrapassou o limite do gmail (eu falo pra caralho, desculpa. Mas esse post t&#225; muito bom e prometo que vai te render um bom entretenimento e altas risadas).&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;sm&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;Cartografia do Desafeto #2&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:328100842,&quot;name&quot;:&quot;venus edain &#10023;&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;&#10022; And I couldn't help but wonder...&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fb217ac1-f81b-4312-8059-fea5377b44b3_1440x1440.webp&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-06-25T15:28:33.354Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/bd49400b-3d54-4186-9d2d-e4fb860c2ebc_736x981.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-2&quot;,&quot;section_name&quot;:&quot;&#10023; Cartografia do Desafeto &#10023;&quot;,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:203153450,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:13,&quot;comment_count&quot;:22,&quot;publication_id&quot;:4486627,&quot;publication_name&quot;:&quot;Retr&#243;grada &#10023;&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!q8SY!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd3b72cac-bd13-45f3-9725-b90c46cb15cd_1280x1280.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><div><hr></div><div class="pullquote"><h6><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Disclaimer &#8212; antes que algum advogado ou ex-date emocionalmente abalado apare&#231;a na minha porta (ou na minha DM) enchendo o saco:</span></strong></h6><h6><strong>Com exce&#231;&#227;o do meu nome, todos os outros nomes presentes nesta edi&#231;&#227;o s&#227;o fict&#237;cios. Alguns detalhes tamb&#233;m foram alterados para proteger a identidade das pessoas envolvidas</strong>.</h6><h6>As hist&#243;rias, no entanto, s&#227;o reais. Foram enviadas por leitores, amigos e sobreviventes da experi&#234;ncia moderna de tentar conhecer algu&#233;m sem sofrer uma s&#237;ncope no processo.</h6><h6>Nenhuma dessas pessoas recebeu compensa&#231;&#227;o financeira por seus depoimentos. O pagamento foi exclusivamente emocional e consistiu na oportunidade de expor suas desventuras amorosas para uma plateia de desconhecidos na internet racharem o bico.</h6><h6>Caso voc&#234; se reconhe&#231;a em alguma destas hist&#243;rias, siga o seguinte procedimento:</h6><h6>Primeiramente, mantenha a calma. Voc&#234; n&#227;o &#233; t&#227;o importante assim <em><s>(por mais que voc&#234; seja ot&#225;rio o suficiente pra fazer lovebombing nos outros, voc&#234; n&#227;o &#233; a &#250;ltima bolacha do pacote)</s></em><s>.</s> Ningu&#233;m vai saber que a hist&#243;ria foi com voc&#234;. Existem milh&#245;es de pessoas no mundo.</h6><h6>Em segundo lugar, repense. Estatisticamente, &#233; perfeitamente poss&#237;vel que exista mais de uma mulher adulta que acha de bom tom apresentar um conversante de app de namoro para o pai bolsonarista.</h6><h6><em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Se persistirem os sintomas de burrice, insist&#234;ncia e/ou toxicidade cr&#244;nica, o block poder&#225; ser aplicado e um psic&#243;logo dever&#225; ser consultado.</span></em></h6></div><h2><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Defini&#231;&#227;o da Metodologia</span></h2><p>Fernando, 24 anos.</p><p>Tudo come&#231;ou quando est&#225;vamos conversando no Insta e Fernando soltou, com a naturalidade perigosa de quem talvez estivesse prestes a dizer uma grande besteira ou uma grande verdade, a seguinte p&#233;rola: </p><p>&#8212; &#201; igual meu amigo fala... quando o assunto &#233; <em>lovebombing</em>, a gente n&#227;o cai, a gente aproveita.</p><p>Eu, obviamente, parei diante daquela fala e olhei para a c&#226;mera imagin&#225;ria do recinto, tal qual Fleabag<strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></span></strong>.</p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/cdbda945-d142-450f-aeb4-060a7fe745df_690x690.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Phoebe Waller-Bridge em Fleabag (2016).&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/cdbda945-d142-450f-aeb4-060a7fe745df_690x690.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><p><strong><span data-color="#ea318c" style="color: rgb(234, 49, 140);">Tem uma coisa muito particular que acontece quando um homem decide formular uma tese sobre comportamento afetivo: ou ele vai dizer a maior merda colossal j&#225; pronunciada na Hist&#243;ria com a autoconfian&#231;a de um fil&#243;sofo rec&#233;m-sa&#237;do de um podcast de calvos, ou ele vai acidentalmente encostar numa verdade t&#227;o inconvenientemente nua e crua que a gente precisa fingir que n&#227;o ficou </span></strong><em><strong><span data-color="#ea318c" style="color: rgb(234, 49, 140);">t&#227;o</span></strong></em><strong><span data-color="#ea318c" style="color: rgb(234, 49, 140);"> interessada pra n&#227;o dar muni&#231;&#227;o demais pro ego deles.</span></strong> E eu, como boa jornalista investigativa do caos, pesquisadora de campo do desastre amoroso e fiscal n&#227;o remunerada da falta de vergonha na cara alheia, precisava entender de qual dos dois casos se tratava.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://retrograda.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://retrograda.substack.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p>Minha primeira rea&#231;&#227;o, confesso, foi a desconfian&#231;a. Falei para mim mesma: &#8220;l&#225; vem&#8221;. Porque, convenhamos, existe uma linha muito fina entre <em>&#8220;n&#227;o se deixe manipular por demonstra&#231;&#245;es exageradas de afeto&#8221;</em> e <em>&#8220;use pessoas que fingem ser emocionalmente dispon&#237;veis at&#233; enjoar&#8221;</em>, e eu n&#227;o estava exatamente disposta a inaugurar nesta coluna a Escola Financeira do Cora&#231;&#227;o de Pote, onde todo mundo se explora mutuamente em nome da liberdade afetiva e depois chama isso de maturidade.</p><p>Mas a&#237; Fernando explicou melhor. E, para minha surpresa &#8212; e talvez para o preju&#237;zo da minha tese mis&#226;ndrica de que homens raramente devem ser autorizados a discursar sem supervis&#227;o &#8212;, o que ele disse fazia, sim, algum sentido.</p><p>&#8212; Ent&#227;o meu nome na sua hist&#243;ria vai ser Fernando? &#8212; nosso amigo declarou, sorridente. &#8212; Obrigado! Posso fingir que meu sobrenome &#233; <em>Pessoa</em> tamb&#233;m?</p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Hahahaha! </span></strong></em></p><p>&#8212; N&#227;o.</p><p>A ideia, no fundo, n&#227;o era transformar lovebombing em algo inofensivo. Tamb&#233;m n&#227;o era defender que a gente deveria sair por a&#237; colecionando surtos alheios como quem junta cart&#227;o fidelidade de restaurante por quilo. A quest&#227;o era outra: se algu&#233;m quer se enfiar na sua vida sem mais nem menos prometendo intensidade, namoro, futuro, viagem para a praia, apresenta&#231;&#227;o para a fam&#237;lia, exclusividade emocional e um amor t&#227;o grande que aparentemente dispensa conviv&#234;ncia, tempo e comprova&#231;&#227;o emp&#237;rica de que a coexist&#234;ncia ser&#225; toler&#225;vel para o dito casal, talvez a pergunta n&#227;o seja apenas &#8220;como n&#227;o cair?&#8221;. Talvez a pergunta seja: <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">em que momento exatamente a gente confundiu receber aten&#231;&#227;o com assinar um contrato vital&#237;cio de credulidade?</span></strong></p><p>Em que momento uma massagem no ego virou uma hipoteca emocional? Em que momento um elogio bem dado passou a exigir que a gente entregasse a chave da pr&#243;pria casa, o CPF, o hist&#243;rico de traumas e a esperan&#231;a inteira embrulhada para presente?</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Existe uma clara diferen&#231;a entre cair e surfar. </span></strong><em><strong>Cair</strong></em> &#233; acreditar que a onda &#233; um tsunami. &#201; olhar para tr&#234;s dias de mensagens intensas e concluir que aquilo &#233; uma casa, uma promessa, uma prova, uma revela&#231;&#227;o divina enviada para compensar todas as suas decep&#231;&#245;es amorosas anteriores. Cair &#233; tentar nadar na espuma.</p><p><em><strong>Surfar,</strong></em> por outro lado, &#233; reconhecer a onda como <em>onda</em>: bonita, forte, tempor&#225;ria, perigosa se voc&#234; esquecer que tem correnteza. Surfar &#233; aproveitar o vento no cabelo sem necessariamente vender seu apartamento para ir morar na praia e viver disso todo santo dia. &#201; aceitar o elogio sem converter o ser humano em profecia. &#201; deixar que algu&#233;m te ache incr&#237;vel sem imediatamente concluir que essa pessoa merece acesso irrestrito &#224; sua vulnerabilidade mais profunda, ao seu calend&#225;rio, ao seu cora&#231;&#227;o e, em casos mais graves, ao seu Spotify Blend<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>.</p><p>Ent&#227;o decidi devolver a pergunta pra voc&#234;s, porque esta coluna, no fim das contas, se tornou exatamente isso: um laborat&#243;rio afetivo meio anti&#233;tico, onde todo mundo chega com uma hist&#243;ria absurda e sai, no m&#237;nimo, com uma hip&#243;tese pior.</p><p>Se gente filha da puta vai prometer intensidade de qualquer maneira; se o mercado afetivo virou mesmo essa feira livre emocional em que todo mundo grita <em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">oferta imperd&#237;vel</span></strong></em> at&#233; voc&#234; chegar perto o bastante para descobrir que a fruta est&#225; podre; se o lovebombing se tornou uma esp&#233;cie de trilha sonora cafona da intimidade moderna, ser&#225; que a &#250;nica postura poss&#237;vel &#233; fugir?</p><p>Ou ser&#225; que, com a devida dist&#226;ncia, uma quantidade saud&#225;vel de cinismo e a consci&#234;ncia firme de que gente empolgada tamb&#233;m pode ser s&#243; gente carente com vocabul&#225;rio, d&#225; para aproveitar a massagem no ego enquanto dura?</p><div><hr></div><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/428f5e98-76f4-4558-8eab-5772ae12f070_735x752.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;\&quot;Rest Energy\&quot; (1980), de Marina Abramovic e Ulay.&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/428f5e98-76f4-4558-8eab-5772ae12f070_735x752.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><h2><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Caso desta edi&#231;&#227;o: A noiva de sete dias</span></h2><p>Fernando baixou o Hinge. Como se Tinder, Bumble, Boo, Badoo, Inner Circle e a porra da frota inteira dos Transformers<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a> j&#225; n&#227;o fossem suficientes para nos ensinar, com requintes de crueldade, que talvez o problema nunca tenha sido exatamente o aplicativo, mas as pessoas que resolveram transformar esses ambientes digitais numa esp&#233;cie de feira agropecu&#225;ria da car&#234;ncia humana. Ainda assim, na sede por um card&#225;pio ligeiramente diferente de desconhecidos emocionalmente problem&#225;ticos, Fernando pensou: <em>&#8220;hm, por que n&#227;o?&#8221;</em>, e baixou mais um aplicativo.</p><p>Foi o maior erro que ele cometeu? Talvez. Pode ser. N&#227;o sei. Eu nem vou afirmar com absoluta certeza que foi ali que eu e ele demos match algum dia, porque minha mem&#243;ria &#233; uma reparti&#231;&#227;o p&#250;blica em greve e, sinceramente, o importante aqui &#233; que o querido nos rendeu pauta. E, numa coluna como esta, render pauta &#233; quase uma forma de servi&#231;o comunit&#225;rio.</p><p>De toda forma, foi no Hinge que Fernando conheceu uma garota que, por motivos &#243;bvios de preserva&#231;&#227;o de identidade, aqui vamos chamar de <strong>Gabriela</strong>.</p><p>Gabriela tamb&#233;m tinha 24 anos. Era bonita, tinha uma bio interessante e trabalhava com TI, assim como ele. At&#233; a&#237;, &#243;timo. Dois adultos jovens, duas carreiras minimamente compat&#237;veis, um aplicativo tentando fingir que n&#227;o &#233; apenas o Tinder com uma tipografia mais comportada e uma mensalidade bem mais salgada. Nada de novo sob o sol radioativo dos relacionamentos modernos.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Mas Gabriela n&#227;o era apenas bonita. Ela tamb&#233;m tinha assunto.</span></strong> E, num mundo em que muitos homens e mulheres parecem acreditar que &#8220;e a&#237;&#8221; seguido de &#8220;sumiu&#8221; constitui uma conversa, isso j&#225; era quase uma qualifica&#231;&#227;o acad&#234;mica.</p><p>Gabriela gostava de artes, hist&#243;ria, cultura. Tinha interesses em comum com Fernando, engajava na conversa, respondia r&#225;pido, fazia perguntas, sustentava o papo. Um milagre. Um acontecimento. Uma apari&#231;&#227;o mariana<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a> em formato de match. E, ao mesmo tempo, tamb&#233;m era interessante pelas diferen&#231;as: Fernando, apesar de ateu, sempre teve curiosidade por diferentes cren&#231;as, religi&#245;es e culturas, enquanto Gabriela falava sobre a pr&#243;pria espiritualidade com encanto.</p><p>Ela era do candombl&#233;. E eu, como umbandista, entendo perfeitamente o impacto disso. Existe algo muito &#237;ntimo em falar sobre a nossa f&#233; para algu&#233;m que escuta de verdade; algu&#233;m que n&#227;o transforma tudo em piadinha imbecil de <em>&#8220;chuta que &#233; macumba&#8221;,</em> que n&#227;o confunde religi&#227;o de matriz africana com fantasia de TikTok e que n&#227;o nos olha como se estiv&#233;ssemos prestes a sacrificar uma galinha no meio do Starbucks. A nossa cren&#231;a &#233; linda, vasta, profunda, cheia de mundo. Quando a gente encontra paz naquilo que acredita e encontra algu&#233;m disposto a ouvir sem preconceito, isso conta. Conta muito.</p><p>Ent&#227;o havia qu&#237;mica. Pelo menos pela tela, havia. A conversa flu&#237;a, os interesses se cruzavam, a curiosidade era m&#250;tua, aquela eletricidade inicial come&#231;ou a se formar. At&#233; a&#237;, nada particularmente criminoso.</p><p>O problema come&#231;ou quando, depois da primeira semana de conversa, j&#225; entrando na segunda, Gabriela aparentemente decidiu que estava na hora de acelerar o carro emocional numa avenida sem freio, sem cinto e sem qualquer autoriza&#231;&#227;o do DETRAN do bom senso. A garota sequer sabia o sobrenome de Fernando e j&#225; estava soltando coisas como: <em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#8220;ai, que droga, t&#244; gostando de voc&#234;&#8221;.</span></em></p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Hein?!</span></strong></em></p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#212;, gatinha. Vamos respirar?</span></strong></em></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-3/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-3/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p>Olha s&#243;, querido leitor, eu entendo. S&#233;rio. Eu entendo mais do que gostaria. Sou mulher, sou rom&#226;ntica contra a minha pr&#243;pria vontade, escrevo sobre amor com o entusiasmo de quem deveria estar fazendo mais terapia em vez de transformando tudo em newsletter, e sei muito bem o que significa esse <em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#8220;ai, que droga&#8221;</span></strong></em> dito em tom choroso antes de confessar que est&#225; gostando de algu&#233;m.</p><p>Isso n&#227;o &#233; uma frase. &#201; um boletim de ocorr&#234;ncia emocional. Quando uma mulher fala <em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#8220;ai, que saco, t&#244; gostando de voc&#234;&#8221;,</span></strong></em> ela n&#227;o est&#225; apenas comunicando interesse; ela est&#225; anunciando que acaba de perceber que perdeu uma parte importante do controle da pr&#243;pria vida e que, dependendo do homem envolvido, talvez precise come&#231;ar a fazer alongamento para o tombo. <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Quando o assunto &#233; homem, gostar de algu&#233;m frequentemente vem acompanhado daquela vontade muito espec&#237;fica de olhar no espelho e dizer: </span></strong><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#8220;sua vadia burra. De novo? S&#233;rio mesmo? Depois de tudo o que passamos?&#8221;.</span></strong></em></p><p>A diferen&#231;a &#233; que, nesse caso, Gabriela mal conhecia Fernando.</p><p>E aqui digo isso com todo o respeito do mundo ao nosso colaborador desta edi&#231;&#227;o: beijo, Fernando, obrigada pela pauta, mas vamos todos manter os p&#233;s no ch&#227;o. <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">O que havia ali para gostar tanto assim? </span></strong>Uma boa conversa? Interesses em comum? Respostas r&#225;pidas? Uma bio simp&#225;tica? Um homem de TI capaz de falar sobre hist&#243;ria sem transformar a conversa num TED Talk<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a> insuport&#225;vel? &#211;timo. Maravilhoso. Promissor, at&#233;. Mas entre <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#8220;promissor&#8221;</span></strong> e <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#8220;ai, meu Deus, estou gostando de voc&#234;&#8221;</span></strong> existe uma dist&#226;ncia razo&#225;vel, uma avenida inteira, talvez uma ponte estaiada, e Gabriela atravessou tudo isso correndo como se estivesse atrasada para a pr&#243;pria cerim&#244;nia de casamento.</p><div><hr></div><p style="text-align: center;"><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#127925; M&#250;sica da Vez:</span></strong></p><iframe class="spotify-wrap" data-attrs="{&quot;image&quot;:&quot;https://i.scdn.co/image/ab67616d0000b273e662ee7aaed07bedec85e564&quot;,&quot;title&quot;:&quot;Exagerado&quot;,&quot;subtitle&quot;:&quot;Cazuza&quot;,&quot;description&quot;:&quot;&quot;,&quot;url&quot;:&quot;https://open.spotify.com/track/4d0DpU7Odiv0ztvX2GxJlk&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;noScroll&quot;:false}" src="https://open.spotify.com/embed/track/4d0DpU7Odiv0ztvX2GxJlk" frameborder="0" gesture="media" allowfullscreen="true" allow="encrypted-media" loading="lazy" data-component-name="Spotify2ToDOM"></iframe><h5>Toda pesquisa precisa de uma trilha sonora.</h5><h5>A cada edi&#231;&#227;o de Cartografia do Desafeto, uma nova m&#250;sica ser&#225; adicionada &#224; playlist oficial da investiga&#231;&#227;o.</h5><h5>Quando (ou se) esta pesquisa terminar, teremos duas coisas: evid&#234;ncias suficientes para provar minha tese e uma playlist excelente.</h5><p style="text-align: center;"><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#127925; Confira a playlist aqui:</span></strong></p><iframe class="spotify-wrap playlist" data-attrs="{&quot;image&quot;:&quot;https://image-cdn-fa.spotifycdn.com/image/ab67706c0000da846fcd2f2c85ab49ba7e5ee449&quot;,&quot;title&quot;:&quot;Cartografia do Desafeto&quot;,&quot;subtitle&quot;:&quot;By venus edain&quot;,&quot;description&quot;:&quot;Playlist&quot;,&quot;url&quot;:&quot;https://open.spotify.com/playlist/2IayD1ZQoaw9mR8qOPPZel&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;noScroll&quot;:false}" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/2IayD1ZQoaw9mR8qOPPZel" frameborder="0" gesture="media" allowfullscreen="true" allow="encrypted-media" loading="lazy" data-component-name="Spotify2ToDOM"></iframe><div><hr></div><p>Naquela segunda semana de conversa, Gabriela tamb&#233;m come&#231;ou a revelar vulnerabilidades importantes. Contou que estava come&#231;ando a se encontrar na religi&#227;o, que estava tentando sair do arm&#225;rio e lidar com a descoberta de ser uma mulher bissexual, que vinha de uma fam&#237;lia extremamente conservadora e r&#237;gida, que nunca tinha namorado antes e que o pai era bolsonarista<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a>.</p><p>Aqui a narrativa, que j&#225; estava levemente preocupante, ganha um personagem secund&#225;rio absolutamente inesperado: <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">o pai de Gabriela.</span></strong> </p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">O coroa, aparentemente munido de tempo livre, senso de propriedade sobre a filha adulta e uma conta ativa no Instagram, come&#231;ou a zanzar pelo perfil de Fernando. </span></strong>Primeiro visualizou um story. Depois curtiu um post. De repente, j&#225; estava praticamente fazendo est&#225;gio n&#227;o remunerado como fiscal de genro em potencial, sem nenhum pudor em deixar claro que estava, sim, <em>stalkeando</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="#footnote-7" target="_self">7</a><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> </span></strong>o rapaz porque n&#227;o queria que a filha &#8220;se envolvesse com qualquer um&#8221;.</p><p>Fernando, ao relatar essa parte, at&#233; tentou fazer uma interven&#231;&#227;o em sua pr&#243;pria defesa. Algo na linha:</p><p>&#8212; Venus, olha bem pra mim. Olha para o meu perfil. Qual foi, eu pare&#231;o o Thiago Leifert<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-8" href="#footnote-8" target="_self">8</a> do TI!</p><p>Sim, eu entendo o argumento. Fernando n&#227;o parece exatamente um vil&#227;o de novela mexicana, um mafioso de 365 Dias<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-9" href="#footnote-9" target="_self">9</a><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> </span></strong>ou um cara de moletom encostado num beco escuro esperando voc&#234; passar com a bolsa. <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Mas homem &#233; homem, e homem consegue ser uma merda em praticamente qualquer embalagem, do engravatado ao alternativo, do nerd ao empres&#225;rio, do </span></strong><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#8220;sou um esquerdomacho desconstru&#237;do&#8221;</span></strong></em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> ao </span></strong><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#8220;sou um Faria Limer</span></strong></em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-10" href="#footnote-10" target="_self">10</a><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> </span></strong><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">que odeia r&#243;tulos&#8221;</span></strong></em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">.</span></strong> Ent&#227;o, em tese, eu at&#233; entenderia a paranoia de um pai querendo proteger a filha. Entenderia melhor, claro, se essa mesma filha adulta n&#227;o estivesse literalmente na porra de um aplicativo de relacionamento.</p><p>Para uma fam&#237;lia t&#227;o conservadora, at&#233; que eles pareciam bastante liberais quando convinha. Ou ser&#225; que Gabriela mentiu sobre a origem da conversa com Fernando? Ser&#225; que disse que o conheceu num grupo de estudos sobre hist&#243;ria da Am&#233;rica Latina, numa roda de conversa sobre espiritualidade, numa fila de mercado, numa livraria, numa manifesta&#231;&#227;o cultural respeit&#225;vel, em qualquer lugar menos num card&#225;pio digital de solteiros com prompts engra&#231;adinhos? Nunca saberemos.</p><p>Mas existe algo engra&#231;ado &#8212; e por engra&#231;ado quero dizer profundamente irritante &#8212; na elasticidade moral de certas fam&#237;lias conservadoras. No discurso p&#250;blico, &#233; Deus, p&#225;tria e fam&#237;lia. No privado, &#233; controle, hipocrisia, vigil&#226;ncia, desejo reprimido e uma curiosidade quase pornogr&#225;fica pela vida alheia. &#192;s vezes, inclusive, <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Deus, p&#225;tria, fam&#237;lia e amante</span></strong>. E, em muitos casos, nem sempre a amante do &#8220;h&#233;tero&#8221; &#233; mulher. Mas isso &#233; pauta para outra coluna aqui nesta newsletter, e eu ainda pretendo viver tempo suficiente para escrever sobre ela.</p><p>N&#227;o me entendam mal: eu sei que um pai bolsonarista pode ser uma quest&#227;o. Sei que fam&#237;lia &#233; complicado. Sei que <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">amar algu&#233;m da pr&#243;pria fam&#237;lia e discordar violentamente da forma como essa pessoa enxerga o mundo pode ser uma experi&#234;ncia emocionalmente exaustiva.</span></strong> Meu pr&#243;prio pai, em 2018, votou no Bolsonaro e, por &#243;dio ao PT e ao Lula, passou um per&#237;odo defendendo o ineleg&#237;vel com a convic&#231;&#227;o pat&#233;tica de quem acha que est&#225; salvando a na&#231;&#227;o enquanto apenas passa vergonha na internet.</p><p>Para mim, foi relativamente f&#225;cil olhar para isso e pensar: <em>&#8220;meu pai e todo mundo da minha fam&#237;lia que defende essa merda s&#227;o um bando de imbecis e eu n&#227;o compactuo com isso&#8221;.</em> Mas tamb&#233;m foi f&#225;cil porque meu pai sempre foi ausente. A aus&#234;ncia, nesse caso, virou quase uma b&#234;n&#231;&#227;o log&#237;stica para mim. &#201; muito mais simples n&#227;o se envergonhar o tempo inteiro de algu&#233;m quando essa pessoa n&#227;o est&#225; t&#227;o presente assim na sua vida.</p><p>No caso de Gabriela, por&#233;m, parecia diferente. O pai parecia presente. Presente at&#233; demais. Presente no Instagram de Fernando, nos stories de Fernando, nas curtidas de Fernando, na vigil&#226;ncia paterna de uma rela&#231;&#227;o que ainda nem era rela&#231;&#227;o.</p><p>Eu at&#233; tenho empatia por isso como contexto. Crescer numa fam&#237;lia r&#237;gida, conservadora, controladora e ainda tentar descobrir a pr&#243;pria espiritualidade, a pr&#243;pria sexualidade<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-11" href="#footnote-11" target="_self">11</a>, a pr&#243;pria autonomia e a pr&#243;pria vida amorosa deve ser uma experi&#234;ncia foda. S&#243; que <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">empatia n&#227;o &#233; alvar&#225; para transformar um quase desconhecido em candidato oficial a genro antes do primeiro date.</span></strong> </p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f6f3ee74-f9e5-490d-839a-3d8e9432fe67_736x920.png&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Fleabag (2016).&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/png&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f6f3ee74-f9e5-490d-839a-3d8e9432fe67_736x920.png&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div><hr></div><h2><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">De conversantes a casal divorciado</span></h2><p>Tem uma coisa muito simples que pessoas adultas costumam fazer quando est&#227;o conhecendo algu&#233;m: elas <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">n&#227;o </span></strong>apresentam essa pessoa para a fam&#237;lia &#8212; nem direta, nem indiretamente, nem por meio de uma investiga&#231;&#227;o semi-criminal no Instagram &#8212; antes de existir qualquer inten&#231;&#227;o minimamente concreta de avan&#231;ar a rela&#231;&#227;o.</p><p>Fernando, segundo ele, deixou muito claro desde o in&#237;cio que estava naquela vibe de <em>&#8220;quero conhecer gente nova e ver onde isso d&#225;&#8221;. </em>Eu n&#227;o julgo, porque essa &#233; exatamente a minha vibe hoje. N&#227;o estou desesperada atr&#225;s de marido ou esposa, n&#227;o estou fazendo processo seletivo para pai/m&#227;e dos meus futuros gatos, n&#227;o estou entrando em aplicativo com planilha de compatibilidade astrol&#243;gica, mas tamb&#233;m n&#227;o sou uma criatura sem crit&#233;rio querendo sexo r&#225;pido com desconhecidos que mal sabem escrever &#8220;voc&#234;&#8221; sem parecer que est&#227;o tendo um AVC ortogr&#225;fico.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Eu quero conhecer gente nova.</span></strong> Isso significa que, se a pessoa for atraente o suficiente e o papo for bom o suficiente, podemos sair, beber alguma coisa, trocar uns beijos, talvez dar uns pegas mais quentes e, se o interesse sobreviver ao primeiro encontro, quem sabe avan&#231;ar para algo com um pouco mais de pimenta, dend&#234; e reincid&#234;ncia no segundo date. E se, por acaso, no meio dessa bagun&#231;a, algu&#233;m for interessante o bastante para despertar sentimentos em mim, tudo bem tamb&#233;m. Pode acontecer. <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Mas &#8220;ver no que d&#225;&#8221; significa exatamente isso: ver no que d&#225;.</span></strong> N&#227;o significa <em>&#8220;vamos fingir casualidade enquanto um de n&#243;s j&#225; est&#225; escolhendo a m&#250;sica da entrada na cerim&#244;nia&#8221;.</em></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-3?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Compartilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-3?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share"><span>Compartilhar</span></a></p><p>Gabriela, aparentemente, concordou com essa proposta. Disse que estava na mesma. </p><p>O problema &#233; que suas atitudes n&#227;o acompanharam o pr&#243;prio discurso.</p><p>Ela dizia que estava gostando demais de Fernando. Falava que ele era incr&#237;vel, maravilhoso, inteligente, diferente. Dizia que os dois tinham uma qu&#237;mica impressionante, que parecia coisa de outro mundo, que nunca tinha conhecido algu&#233;m como Fernando, que ele era exatamente o tipo dela. Falava sobre os pr&#243;ximos encontros &#8212; no plural &#8212; como se eles j&#225; tivessem uma agenda rom&#226;ntica prevista pelos pr&#243;ximos trimestres, sendo que os dois ainda nem tinham tido o primeiro date. E Fernando, que n&#227;o &#233; exatamente um imbecil rec&#233;m-nascido largado no mundo sem supervis&#227;o (assim espero), percebeu o exagero e tentou dar uma acalmada na gata.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Mas tamb&#233;m n&#227;o vamos fingir que ele cortou a gra&#231;a de forma muito contundente, n&#233;, Fernando?</span></strong> Vamos ser honestos neste tribunal afetivo de quinta categoria: ele agradeceu, achou fofo, tentou reduzir a velocidade, mas tamb&#233;m deixou a massagem no ego acontecendo &#8212; e, claro, n&#227;o ia perder a oportunidade trocar uns belos amassos com a gatinha que estava dando bola para ele.</p><p>Mas quem poderia culp&#225;-lo totalmente? Depois de tanto aplicativo povoado por gente que parece responder mensagem sob amea&#231;a, receber elogio demais pode mesmo parecer uma experi&#234;ncia extracorp&#243;rea.</p><p>Ainda assim, havia ali um desequil&#237;brio evidente.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Gabriela nunca tinha namorado.</span></strong> Ela tamb&#233;m dizia que nunca tinha se sentido assim por ningu&#233;m antes. A garota parecia estar vivendo, com 24 anos, aquela primeira paix&#227;o adolescente que deveria ter acontecido aos 15, quando todo mundo ainda est&#225; autorizado a ser dramaticamente insuport&#225;vel porque o c&#233;rebro nem terminou de cozinhar. Mas <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">uma coisa &#233; ser inexperiente; outra &#233; transformar um homem que voc&#234; conhece h&#225; menos de duas semanas em revela&#231;&#227;o divina, sinal espiritual, protagonista de fanfic e poss&#237;vel apresenta&#231;&#227;o para a fam&#237;lia conservadora.</span></strong></p><p>Se eu me sentisse assim por algu&#233;m depois de menos de duas semanas de conversa, provavelmente chamaria uma ambul&#226;ncia, faria um exame toxicol&#243;gico ou pediria para algu&#233;m conferir se eu n&#227;o estava entrando em fal&#234;ncia m&#250;ltipla dos &#243;rg&#227;os. Porque <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">intensidade desse n&#237;vel, nesse prazo, n&#227;o &#233; romance; &#233; sintoma.</span></strong> Pode ser car&#234;ncia, fantasia, proje&#231;&#227;o, ansiedade, deslumbramento, desespero, qualquer coisa. </p><p>Mas <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">amor?</span></strong></p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Amor </span></strong></em>mesmo? Aquele amor que precisa de conviv&#234;ncia, tempo, conflito, pequenas decep&#231;&#245;es, reconhecimento m&#250;tuo e a descoberta lenta de quem a pessoa &#233; quando n&#227;o est&#225; tentando te impressionar?</p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/50d39f93-92f0-4a78-8ed0-b66c5ac2a91d_736x736.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Quando eu digo que gosto de ser algemada, n&#227;o &#233; bem *disso* que eu t&#244; falando.&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/50d39f93-92f0-4a78-8ed0-b66c5ac2a91d_736x736.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><p>N&#227;o. Isso n&#227;o era amor. Era uma campanha agressiva de aquisi&#231;&#227;o emocional com or&#231;amento alto e planejamento de reten&#231;&#227;o inexistente.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Ent&#227;o chegou o primeiro date.</span></strong></p><p>Pessoalmente, a qu&#237;mica n&#227;o morreu. Pelo contr&#225;rio. O encontro foi &#243;timo. Eles foram ao MASP<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-12" href="#footnote-12" target="_self">12</a> ver uma exposi&#231;&#227;o relacionada a um grupo de ativistas chilenos em torno da arte no per&#237;odo da ditadura de Pinochet<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-13" href="#footnote-13" target="_self">13</a>. Veja bem: isso, por si s&#243;, j&#225; &#233; um encontro muito melhor do que 90% das propostas feitas por homens em aplicativos, que costumam oscilar entre &#8220;<em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">vem aqui em casa&#8221;</span></strong></em> e <em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#8220;vamos tomar uma cerveja em algum boteco sujo e barulhento onde eu possa falar de mim ou de algum jogador de futebol por tr&#234;s horas&#8221;</span></strong></em>. Fernando e Gabriela, amantes de hist&#243;ria, se encontraram ali, entre obras, pol&#237;tica, mem&#243;ria, arte, olhares, sorrisos e milhares de elogios apaixonados de Gabriela direcionados a um Fernando cujo ego, naquele momento, devia estar recebendo uma drenagem linf&#225;tica <s>espiritual</s>.</p><p><em>Opa, espiritual n&#227;o. Foi mal, Fernando. Esqueci que voc&#234; &#233; ateu.</em> Prossigamos.</p><p>Como se o roteiro j&#225; n&#227;o estivesse suficientemente carregado de sinais contradit&#243;rios, <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Fernando e Gabriela se beijaram</span></strong><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-14" href="#footnote-14" target="_self">14</a><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">.</span></strong></p><p>Pois bem, querido leitor. Aparentemente n&#227;o bastava nossa (des)querida Gabi ter falado sobre qu&#237;mica de outro mundo, pr&#243;ximos encontros no plural e sentimentos intensos demais para uma rela&#231;&#227;o que ainda mal tinha CPF cadastrado; era preciso tamb&#233;m selar a experi&#234;ncia com um beijo no museu, entre panfletos sobre a ditadura chilena, arte pol&#237;tica e o tipo de tens&#227;o rom&#226;ntica que faz qualquer pessoa minimamente carente pensar: <em>&#8220;hm, talvez exista algo aqui&#8221;. </em>O que, convenhamos, &#233; exatamente o tipo de pensamento que antecede boa parte das maiores humilha&#231;&#245;es documentadas pela civiliza&#231;&#227;o moderna.</p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Ah, que conex&#227;o linda. Que encontro promissor. </span></strong></em>Que narrativa aparentemente bem encaminhada. Que maravilhoso seria se esta coluna n&#227;o existisse justamente para documentar o momento exato em que a realidade pega uma cadeira e arremessa na nossa cabe&#231;a.</p><p>Dias depois do encontro, Gabriela sumiu da vida de Fernando.</p><p>Eu sei o que voc&#234; est&#225; pensando, caro leitor. Tamb&#233;m senti o d&#233;j&#224;-vu. Talvez porque a edi&#231;&#227;o anterior desta coluna tenha sido justamente sobre <em>ghosting</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-15" href="#footnote-15" target="_self">15</a>. Talvez porque <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">lovebombing e ghosting frequentemente andem de m&#227;os dadas, como um casal t&#243;xico combinando fantasia de Halloween.</span></strong> Primeiro a pessoa te cobre de elogios, planos, intensidade e frases que parecem retiradas de um romance ruim traduzido por IA; depois, no primeiro contato com a concretude da vida real, desaparece como se tivesse sido abduzida por uma seita ou pelo pr&#243;prio medo de sustentar as merdas que disse.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Gente insegura costuma ser intensa demais no come&#231;o e covarde demais no desenrolar.</span></strong> Intensidade, sozinha, &#233; f&#225;cil. Dif&#237;cil &#233; consist&#234;ncia. Dif&#237;cil &#233; responsabilidade. Dif&#237;cil &#233; olhar para algu&#233;m que voc&#234; inflamou emocionalmente e admitir que talvez tenha exagerado, que talvez tenha confundido car&#234;ncia com conex&#227;o, que talvez tenha vendido um produto que n&#227;o tinha em estoque.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-3/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-3/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p>Mas o sumi&#231;o nem foi a parte mais impressionante.</p><p>Uma semana depois do date &#8212; e fa&#231;o quest&#227;o de escrever por extenso, para que todos possamos contemplar a arquitetura do absurdo: <em>sete dias</em> depois do date &#8212; <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Fernando abriu o Instagram e viu Gabriela postando foto de alian&#231;a.</span></strong></p><p>E n&#227;o, n&#227;o era uma piada interna. N&#227;o era uma trend. N&#227;o era ela assumindo um relacionamento fict&#237;cio com Fernando em del&#237;rio p&#243;s-MASP. <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Era Gabriela assumindo namoro s&#233;rio com outro cara.</span></strong> Foto, declara&#231;&#227;o amorosa, emoji de alian&#231;a na bio, arroba do pr&#237;ncipe prometido, todo o pacote completo da heteronormatividade perform&#225;tica em modo an&#250;ncio oficial.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Sete dias.</span></strong><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-16" href="#footnote-16" target="_self">16</a></p><p>A mesma mulher que, h&#225; pouco tempo atr&#225;s, estava dizendo para Fernando que nunca tinha sentido aquilo por ningu&#233;m, que ele era diferente, que ele era incr&#237;vel, que a qu&#237;mica dos dois era coisa de outro mundo, agora estava de alian&#231;a com outro homem no Instagram.</p><p>Essa hist&#243;ria tem uma beleza quase matem&#225;tica em sua pr&#243;pria desgra&#231;a. Em algum ponto entre<em> &#8220;ai, que droga, t&#244; gostando de voc&#234;&#8221;</em> e <em>&#8220;@fulano &#233; o amor da minha vidaa &lt;3 [emoji de alian&#231;a na bio]&#8221;</em>, Gabriela conseguiu n&#227;o apenas trocar de protagonista, mas tamb&#233;m lan&#231;ar uma nova temporada inteira da pr&#243;pria vida afetiva sem aviso pr&#233;vio, sem transi&#231;&#227;o narrativa e sem qualquer respeito pela intelig&#234;ncia do p&#250;blico.</p><p>Fernando, incr&#233;dulo &#8212; e imagino que com a express&#227;o facial de quem acabou de ser atropelado por um caminh&#227;o de mudan&#231;a emocional &#8212;, mandou uma mensagem no WhatsApp de Gabriela desejando parab&#233;ns pelo namoro. Depois, bloqueou a garota em absolutamente todas as redes sociais. Uma atitude correta, higi&#234;nica, <em><s>espiritualmente</s> </em>necess&#225;ria. Espero, inclusive, que tenha bloqueado o pai bolsonarista tamb&#233;m, porque se tem uma coisa que ningu&#233;m merece &#233; virar ex-quase-genro de uma fam&#237;lia que voc&#234; nem chegou a conhecer. Pelo menos agora o sogro que fiscaliza Instagram e provavelmente canta para pneu &#233; problema de outro rapaz. <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Que Deus, os orix&#225;s e o algoritmo tenham piedade dele.</span></strong></p><p>A cereja do bolo, por&#233;m, veio depois: mesmo semanas ap&#243;s a grande declara&#231;&#227;o amorosa p&#250;blica, monog&#226;mica, alianc&#237;stica e cem por cento verdadeira ao seu novo pr&#237;ncipe prometido, <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">o perfil de Gabriela continuava ativo no Hinge. </span></strong>O match dela ainda estava l&#225;, intacto, encarando Fernando como uma prova material do crime afetivo.</p><p>Talvez isso seja o detalhe mais revelador de toda a hist&#243;ria. N&#227;o estamos falando apenas de uma pessoa que se emocionou cedo demais, se assustou e fugiu. Tamb&#233;m n&#227;o estamos falando apenas de uma garota inexperiente que confundiu a primeira descarga de dopamina com destino. Estamos falando de algu&#233;m que parecia circular entre possibilidades rom&#226;nticas como quem deixa v&#225;rias abas abertas no navegador: Fernando na guia um, namorado oficial na guia dois, Hinge rodando em segundo plano e o pai stalkeando poss&#237;veis candidatos como se fosse gerente de compliance da fam&#237;lia tradicional brasileira.</p><div><hr></div><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a0e5a48d-cc0e-4fbc-b45f-45f2a4ed9699_736x638.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;E eu n&#227;o pude deixar de me perguntar...&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a0e5a48d-cc0e-4fbc-b45f-45f2a4ed9699_736x638.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><h2><em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">And I couldn&#8217;t help but wonder&#8230;</span></em></h2><p><strong>Ser&#225; que Gabriela vai casar com o pr&#237;ncipe prometido, ter dois filhos, um cachorro e uma bela casa nos Hamptons? </strong>Provavelmente n&#227;o. At&#233; porque estamos no Brasil e, com essa economia, mal d&#225; para financiar um sof&#225; sem vender um rim.</p><p>Ser&#225; que ela realmente ama esse outro cara? Acho bem dif&#237;cil. Talvez.</p><p>Ser&#225; que amava Fernando? Com certeza n&#227;o.</p><p>Ser&#225; que amava a ideia de estar apaixonada, de ser desejada, de viver uma narrativa intensa, de finalmente habitar o papel de mulher escolhida, desejada, assumida, vista? <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">A&#237;, sim, come&#231;amos a chegar em algum lugar.</span></strong></p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Esse &#233; o ponto mais perverso do lovebombing: muitas vezes, ele nem nasce de uma estrat&#233;gia consciente de manipula&#231;&#227;o.</span></strong> &#192;s vezes nasce de uma pessoa t&#227;o carente, t&#227;o confusa, t&#227;o desesperada por sentir alguma coisa que acaba usando o outro como tela de proje&#231;&#227;o. A pessoa n&#227;o se apaixona por voc&#234;; ela se apaixona pelo roteiro que escreveu com o seu rosto no elenco. Voc&#234; vira suporte, s&#237;mbolo, personagem, desculpa. E quando a realidade come&#231;a a exigir presen&#231;a &#8212; um encontro, um corpo, uma continuidade, uma escolha &#8212; ela foge para a pr&#243;xima fantasia dispon&#237;vel. O que era destino na ter&#231;a vira constrangimento na sexta. O que era <em>&#8220;nunca senti isso antes&#8221; </em>vira <em>&#8220;estou namorando outro&#8221;</em> no domingo seguinte.</p><p>No fim, Fernandinho n&#227;o <em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">caiu </span></strong></em>exatamente. Nosso camarada Fernandinho <em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">surfou</span></strong></em>. Surfou nos elogios, no encantamento, na qu&#237;mica, o date no museu, na boca de Gabriela e na sensa&#231;&#227;o deliciosa de ser visto por algu&#233;m aparentemente interessante. </p><p>Mas a onda quebrou r&#225;pido. E, quando quebrou, n&#227;o deixou amor, n&#227;o deixou promessa, n&#227;o deixou nem uma conversa decente. Deixou apenas um match ativo no Hinge, um pai que acampa em porta de quartel que provavelmente j&#225; estava pronto para investigar o pr&#243;ximo candidato e uma pergunta inc&#244;moda: <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">quantas pessoas est&#227;o por a&#237; dizendo </span></strong><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#8220;nunca senti isso antes&#8221;</span></strong></em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> quando, na verdade, o que nunca sentiram foi a obriga&#231;&#227;o de sustentar o que dizem?</span></strong></p><p>Talvez Gabriela n&#227;o fosse uma vil&#227;. Talvez fosse s&#243; uma pessoa inexperiente, confusa, emocionalmente afobada e perigosamente encantada pela pr&#243;pria capacidade de fabricar intensidade. Mas, se existe uma coisa que esta coluna tem me ensinado, &#233; que <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">nem todo mundo precisa ser vil&#227;o para causar estrago. &#192;s vezes basta ser covarde, carente e ter acesso &#224; internet</span></strong>.</p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e7460719-4c1a-4707-911f-ed163218a189_736x414.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Eu queria muito esquecer que essa cena sat&#226;nica existe em Sex and the City.&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e7460719-4c1a-4707-911f-ed163218a189_736x414.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div><hr></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://retrograda.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">N&#227;o t&#244; com criatividade pra fazer uma chamada de Marketing foda aqui dessa vez. Ent&#227;o se voc&#234; leu at&#233; o final, bota seu e-mail a&#237; embaixo e assina minha newsletter. Ou n&#227;o, tanto faz. Tamb&#233;m n&#227;o posso te obrigar, n&#233;?</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><div><hr></div><h3><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#129514; </span><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Status da Pesquisa</span></strong></h3><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Hip&#243;tese atual:</span></strong> N&#227;o existe amor em S&#227;o Paulo. </em></p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Evid&#234;ncias coletadas:</span></strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> </span>Muitas &#8212; sustentadas por matches emocionados e declara&#231;&#245;es prematuras.</em></p><p><em><strong><span data-color="#ea318c" style="color: rgb(234, 49, 140);">Evid&#234;ncias contr&#225;rias:</span></strong> A princesa que beijou Fernando no MASP e, aparentemente, encontrou seu pr&#237;ncipe encantado logo em seguida. Recomendo, inclusive, que as interessadas procurem Fernando: beijou, namorou. N&#227;o com ele, claro, mas namorou.</em></p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">N&#237;vel de confian&#231;a da pesquisadora:</span></strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> </span>Em recupera&#231;&#227;o. Depois do decl&#237;nio vertiginoso da &#250;ltima edi&#231;&#227;o, &#233; revigorante lembrar que a desgra&#231;a afetiva tamb&#233;m acontece na vida dos outros, o que torna a an&#225;lise muito mais confort&#225;vel, cient&#237;fica e <s>espiritualmente</s> menos humilhante.</em></p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">N&#237;vel de acidez:</span></strong> Baixo. Eu poderia ter sido mais cruel, admito. Mas o que posso fazer se minha especialidade ol&#237;mpica &#233; falar mal de homem e, desta vez, quem cometeu o crime de guerra emocional foi uma mulher? Paci&#234;ncia. Nem todo experimento oferece as condi&#231;&#245;es ideais de laborat&#243;rio.</em></p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Risco de vi&#233;s emocional:</span></strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> </span>Baixo a moderado &#8212; a pesquisadora n&#227;o foi v&#237;tima direta do ocorrido, mas demonstrou solidariedade seletiva ao ego massageado de Fernando e certa alegria indecorosa diante da fofoca.</em></p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Pr&#243;ximo passo da pesquisa:</span></strong> Chamar mais homens h&#233;teros de &#8220;migo&#8221; para que, em seu habitat natural, eles deixem de me enxergar como presa, baixem a guarda e se sintam confort&#225;veis o suficiente para compartilhar suas experi&#234;ncias amorosas desastrosas. Tudo, claro, em nome da ci&#234;ncia, da literatura e da manuten&#231;&#227;o desta coluna.</em></p><p><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#129514; </span><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Na pr&#243;xima edi&#231;&#227;o:</span></strong> Em que momento exatamente uma alian&#231;a deixou de ser um s&#237;mbolo de compromisso e passou a funcionar, para algumas pessoas, como um acess&#243;rio meramente decorativo? Bem, eu tenho uma pergunta melhor: se todo mundo sabe que &#8220;meu relacionamento j&#225; acabou faz tempo&#8221; costuma ser apenas o &#8220;oi, sumida&#8221; dos canalhas com contrato vigente, por que ainda existe gente disposta a assinar o termo de participa&#231;&#227;o nessa palha&#231;ada? Em outras palavras, o pr&#243;ximo experimento ser&#225; <em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">um guia de campo: adult&#233;rio para iniciantes.</span></strong></em></p><p></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>S&#233;rie brit&#226;nica criada e protagonizada por Phoebe Waller-Bridge, tamb&#233;m conhecida como uma das maiores obras j&#225; feitas sobre autossabotagem, desejo, luto, culpa, sarcasmo e mulheres que fingem estar lidando muito bem com a pr&#243;pria vida enquanto est&#227;o, na verdade, emocionalmente penduradas por um fio dental. &#201; o tipo de s&#233;rie que faz voc&#234; rir, querer morrer, se identificar e depois fingir que n&#227;o se identificou tanto assim porque ainda tem um m&#237;nimo de orgulho.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Recurso do Spotify que cria uma playlist compartilhada entre duas pessoas com base no gosto musical de ambas. Tamb&#233;m conhecido como aquele momento perigoso em que voc&#234; permite que algu&#233;m tenha acesso simb&#243;lico demais &#224; sua intimidade e, de repente, est&#225; analisando compatibilidade afetiva porque os dois ouviram a mesma m&#250;sica da Mitski.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Franquia de filmes, desenhos, brinquedos e del&#237;rios met&#225;licos envolvendo rob&#244;s gigantes que viram carros, caminh&#245;es, avi&#245;es e, aparentemente, qualquer outra coisa que d&#234; para vender em forma de boneco articulado. Nesta coluna, aparece como refer&#234;ncia ao fato de que j&#225; existem tantos aplicativos de relacionamento que daqui a pouco vamos precisar de um guia de montagem da Hasbro para entender em qual plataforma exatamente estamos sendo humilhados.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Fen&#244;meno religioso no qual a Virgem Maria supostamente aparece para algu&#233;m, geralmente trazendo mensagens espirituais, alertas ou revela&#231;&#245;es. Nesta coluna, por&#233;m, a express&#227;o aparece num sentido muito menos sagrado e muito mais pat&#233;tico: para descrever um acontecimento t&#227;o raro, inesperado e improv&#225;vel que quase d&#225; vontade de acender uma vela &#8212; como encontrar algu&#233;m em aplicativo de relacionamento que sabe conversar.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>Palestras curtas, geralmente apresentadas por pessoas que parecem extremamente convencidas de que descobriram alguma verdade revolucion&#225;ria sobre produtividade, felicidade, lideran&#231;a, vulnerabilidade, inova&#231;&#227;o ou qualquer outro substantivo abstrato capaz de virar slide com fundo branco e fonte sem serifa. No contexto desta coluna,<em> &#8220;virar um TED Talk&#8221;</em> significa transformar uma conversa que deveria ser minimamente normal numa palestra insuport&#225;vel sobre si mesmo &#8212; fen&#244;meno muito comum em dates com homens h&#233;teros que fizeram uma viagem para o Chile em 2018 e desde ent&#227;o acreditam ter algo a ensinar sobre geopol&#237;tica latino-americana. Na pr&#243;xima edi&#231;&#227;o, esse termo aparecer&#225; novamente. E, como sou uma palha&#231;a criativa, a nota de rodap&#233; explicativa vai ser um texto completamente diferente,</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>Caso voc&#234; viva numa caverna, tenha acabado de acordar de um coma ou tenha sido criado por cogumelos em uma floresta sem acesso &#224; internet, bolsonarista &#233; o nome dado ao apoiador de Jair Bolsonaro, ex-presidente brasileiro e fen&#244;meno pol&#237;tico respons&#225;vel por fazer muita gente descobrir, da pior maneira poss&#237;vel, que alguns familiares talvez devessem ter continuado calados no churrasco. Em termos afetivos, um pai bolsonarista costuma representar uma combina&#231;&#227;o delicada de conservadorismo, fiscaliza&#231;&#227;o moral da vida alheia, defesa hist&#233;rica da fam&#237;lia tradicional e uma impressionante capacidade de passar vergonha com convic&#231;&#227;o.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="#footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><p>Verbo contempor&#226;neo derivado do ingl&#234;s <em>stalk</em>, utilizado para descrever o ato de investigar a vida de algu&#233;m nas redes sociais com um n&#237;vel de comprometimento que, em outras &#233;pocas, talvez exigisse um distintivo, um mandado judicial ou uma interna&#231;&#227;o breve. Pode envolver olhar stories, fu&#231;ar curtidas antigas, descobrir ex, fam&#237;lia, emprego, signo, cidade natal, inclina&#231;&#227;o pol&#237;tica e, em casos mais graves, o nome da m&#227;e da pessoa antes mesmo do primeiro date. Em tese, todo mundo condena. Na pr&#225;tica, todo mundo j&#225; fez. Quem diz que nunca fez t&#225; mentindo ou &#233; ruim de internet.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-8" href="#footnote-anchor-8" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">8</a><div class="footnote-content"><p>Apresentador brasileiro frequentemente associado, no imagin&#225;rio popular, &#224;quele arqu&#233;tipo muito espec&#237;fico do homem com &#8220;cara de sapat&#234;nis&#8221;: meio coxinha, meio genro aprovado por tia, meio gerente de ag&#234;ncia banc&#225;ria que chama todo mundo de &#8220;meu querido&#8221; e provavelmente nunca atravessou fora da faixa de pedestre. Nesta coluna, a refer&#234;ncia aparece menos sobre o Thiago Leifert em si e mais sobre uma est&#233;tica: a do homem que n&#227;o parece exatamente um perigo p&#250;blico, um membro da Yakuza ou um marginal de Osasco, mas sim algu&#233;m que, no m&#225;ximo, poderia causar dano psicol&#243;gico nos outros ao explicar por vinte minutos por que prefere cerveja artesanal.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-9" href="#footnote-anchor-9" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">9</a><div class="footnote-content"><p>Filme da Netflix conhecido por transformar sequestro, m&#225;fia, obsess&#227;o, abuso, erotismo duvidoso e di&#225;logos que parecem escritos por um abacate podre em uma franquia de sucesso inexplic&#225;vel. A obra romantiza um tipo de homem que, na vida real, n&#227;o seria &#8220;intenso&#8221;, &#8220;dominante&#8221; ou &#8220;misterioso&#8221;, mas sim um abusador com abd&#244;men definido e harmoniza&#231;&#227;o facial. Serve, nesta coluna, como refer&#234;ncia cultural para aquele arqu&#233;tipo masculino que acha que ser perigoso &#233; sexy, quando muitas vezes s&#243; est&#225; a duas den&#250;ncias de virar mat&#233;ria de portal.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-10" href="#footnote-anchor-10" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">10</a><div class="footnote-content"><p>Esp&#233;cie urbana encontrada principalmente em regi&#245;es corporativas, bares caros, aplicativos de relacionamento e rodas de conversa onde algu&#233;m inevitavelmente vai mencionar investimento, mercado, <em>equity</em>, <em>growth</em>, <em>crypto, M&amp;A, valuation</em> ou qualquer outra palavra capaz de fazer a alma de uma pessoa normal abandonar o corpo por alguns segundos. O faria limer costuma se comunicar por meio de anglicismos desnecess&#225;rios, tem opini&#245;es fortes sobre produtividade, chama cansa&#231;o de &#8220;burnout&#8221; quando &#233; dele e de &#8220;falta de resili&#234;ncia&#8221; quando &#233; dos outros, e frequentemente acredita que estar de colete acolchoado e trabalhar no Itaim configura personalidade.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-11" href="#footnote-anchor-11" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">11</a><div class="footnote-content"><p>Aqui preciso abrir um par&#234;ntese porque, enquanto Fernando me contava essa hist&#243;ria, algumas atitudes de Gabriela me lembraram muito certos casos de <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Heterossexualidade_compuls%C3%B3ria">heterossexualidade compuls&#243;ria</a> que j&#225; vi de perto. N&#227;o estou afirmando nada sobre ela, at&#233; porque eu n&#227;o conhe&#231;o Gabriela, n&#227;o ouvi a vers&#227;o dela, n&#227;o sei os detalhes da vida dela e tudo o que tenho &#233; o relato de um terceiro que, convenhamos, tamb&#233;m n&#227;o a conhecia t&#227;o profundamente assim. Mas achei no m&#237;nimo curioso que uma garota de 24 anos, que nunca tinha namorado ningu&#233;m &#8212; mesmo sendo bonita e inteligente e, aparentemente, curiosa e disposta a se relacionar &#8212;, criada numa fam&#237;lia extremamente conservadora e r&#237;gida, entrasse justamente nesse momento de descoberta da pr&#243;pria bissexualidade numa espiral t&#227;o desesperada de valida&#231;&#227;o masculina.</p><p>E n&#227;o digo isso como quem aponta o dedo para uma mulher dizendo &#8220;ah, ent&#227;o ela n&#227;o gosta de homem de verdade&#8221;, porque, pelo amor de Deus, bissexualidade existe &#8212; porra, esta filha da puta que vos escreve &#233; uma mulher bissexual &#8212; e esta coluna n&#227;o &#233; uma audi&#234;ncia p&#250;blica fiscalizada por s&#225;ficas fiscais da Receita Federal do desejo. Digo apenas que <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">existe uma diferen&#231;a entre gostar de homens e precisar provar, para si mesma e para os outros, que gosta de homens.</span></strong> E, em alguns momentos, o comportamento de Gabriela parecia menos <em>&#8220;estou interessada nesse cara&#8221;</em> e mais <em>&#8220;olha aqui, mundo, fam&#237;lia, pai conservador e talvez alguma parte confusa de mim mesma: eu amo um homem, est&#225; vendo? Est&#225; todo mundo vendo?&#8221;.</em></p><p>Talvez seja proje&#231;&#227;o minha. Talvez seja s&#243; coincid&#234;ncia. Talvez Gabriela fosse apenas uma pessoa inexperiente, carente e emocionada com acesso ao Hinge. Mas n&#227;o me surpreenderia se, daqui a dois ou tr&#234;s anos, ela ouvisse <em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Good Luck, Babe!</span></em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> </span>da Chappell Roan num domingo &#224; noite e tivesse uma percep&#231;&#227;o ligeiramente desconfort&#225;vel sobre si mesma.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-12" href="#footnote-anchor-12" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">12</a><div class="footnote-content"><p>Museu de Arte de S&#227;o Paulo Assis Chateaubriand, aquele pr&#233;dio ic&#244;nico da Avenida Paulista que fica suspenso por quatro pilares vermelhos e que, caso voc&#234; n&#227;o seja de S&#227;o Paulo ou seja apenas um <em>uncultured swine</em> com internet, provavelmente j&#225; viu em alguma foto sem saber o nome. &#201; um dos museus mais importantes do Brasil e tamb&#233;m um &#243;timo cen&#225;rio para dates que querem parecer intelectualmente promissores antes de desmoronarem como qualquer outra promessa afetiva feita em app de relacionamento.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-13" href="#footnote-anchor-13" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">13</a><div class="footnote-content"><p>Regime militar comandado por Augusto Pinochet no Chile entre 1973 e 1990, depois do golpe que derrubou o presidente Salvador Allende. Foi um per&#237;odo marcado por persegui&#231;&#227;o pol&#237;tica, censura, tortura, desaparecimentos, assassinatos e por aquele tipo muito espec&#237;fico de horror hist&#243;rico que certos liberais de sapat&#234;nis adoram fingir que foi apenas &#8220;um momento econ&#244;mico complicado, mas necess&#225;rio&#8221;. <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">N&#227;o foi. Foi uma ditadura.</span></strong> E, nesta coluna, aparece porque Fernando e Gabriela escolheram como cen&#225;rio do primeiro encontro uma exposi&#231;&#227;o ligada &#224; arte e ao ativismo chileno nesse per&#237;odo &#8212; o que &#233;, convenhamos, muito mais interessante do que dividir batata frita com um homem chupando o pau do Neymar e explicando o que &#233; um impedimento.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-14" href="#footnote-anchor-14" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">14</a><div class="footnote-content"><p><em>Uuuuiii, Fernando.</em> Conseguiu o que queria, hein, garot&#227;o?</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-15" href="#footnote-anchor-15" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">15</a><div class="footnote-content"><p>Do ingl&#234;s <em>ghost</em>, fantasma; fen&#244;meno afetivo no qual uma pessoa desaparece da sua vida sem aviso, explica&#231;&#227;o, despedida, responsabilidade emocional ou qualquer vest&#237;gio de vergonha na cara. &#201; quando algu&#233;m que estava conversando, flertando, saindo, prometendo ou simplesmente ocupando espa&#231;o demais no seu cotidiano decide evaporar como se tivesse sido abduzido por uma for&#231;a paranormal chamada &#8220;n&#227;o sei lidar com consequ&#234;ncias&#8221;. Esta coluna, inclusive, j&#225; dedicou uma <strong><a href="https://open.substack.com/pub/retrograda/p/cartografia-do-desafeto-2?r=5fcc8a&amp;utm_campaign=post-expanded-share&amp;utm_medium=post%20viewer">edi&#231;&#227;o inteira</a></strong> a essa desgra&#231;a: a <strong><a href="https://open.substack.com/pub/retrograda/p/cartografia-do-desafeto-2?r=5fcc8a&amp;utm_campaign=post-expanded-share&amp;utm_medium=post%20viewer">edi&#231;&#227;o passada</a></strong> foi praticamente uma aut&#243;psia do ghosting, com luvas, bisturi e uma quantidade preocupante de deboche.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-16" href="#footnote-anchor-16" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">16</a><div class="footnote-content"><p>Perdi a oportunidade de nomear essa personagem de <em>Samara</em>, n&#233;?</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Cartografia do Desafeto #2]]></title><description><![CDATA[Quem tem medo do ghosting?]]></description><link>https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-2</link><guid isPermaLink="false">https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-2</guid><dc:creator><![CDATA[venus edain ✧]]></dc:creator><pubDate>Thu, 25 Jun 2026 15:28:33 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/bd49400b-3d54-4186-9d2d-e4fb860c2ebc_736x981.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h5></h5><div><hr></div><div class="callout-block" data-callout="true"><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">ghosting</span></strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"><br></span><em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">g&#244;us-ti-ngui</span></em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"><br></span><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">substantivo masculino.</span></strong></p><p>Ato de desaparecer da vida de algu&#233;m sem aviso, explica&#231;&#227;o ou coragem para escrever uma frase simples como &#8220;n&#227;o quero mais&#8221;. Muito praticado por pessoas que confundem sil&#234;ncio com maturidade, covardia com autocuidado e falta de responsabilidade afetiva com &#8220;n&#227;o devo nada a ningu&#233;m&#8221;.</p><p>Do ingl&#234;s <em>ghost</em>, fantasma. No Brasil, manifesta-se principalmente em aplicativos de relacionamento, conversas mornas de WhatsApp, promessas feitas depois de duas ta&#231;as de vinho e pessoas que dizem &#8220;n&#227;o tenho medo de intensidade&#8221; pouco antes de evaporar feito um encosto com plano de dados.</p></div><div><hr></div><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Ser&#225; que o </span></strong><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">ghosting </span></strong></em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">existe porque as pessoas se tornaram descart&#225;veis? Ou ser&#225; porque algumas pessoas insistem em criar intimidade com estranhos e depois ficam chocadas quando descobrem que desconhecidos agem como &#8212; </span></strong><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">pasme!</span></strong></em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> &#8212; desconhecidos?</span></strong></p><p>Eu com certeza n&#227;o vim aqui para trazer resposta alguma, caro leitor. Mas como boa <s>agente do caos</s> pesquisadora que sou, trago, aqui, mais evid&#234;ncias comprobat&#243;rias &#224; minha tese: <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">n&#227;o existe amor em SP.</span></strong></p><p><em><strong>Esta &#233; a edi&#231;&#227;o n&#186; 2 de Cartografia do Desafeto: <span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">quem tem medo do ghosting?</span></strong></em></p><p><em><strong>Leia a edi&#231;&#227;o anterior aqui: </strong></em></p><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;1b6028a5-40ab-4629-ac43-5e917e15a964&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&#8212; Aeeeee! Boas-vindas ao inferno!&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;sm&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;Cartografia do Desafeto #1&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:328100842,&quot;name&quot;:&quot;venus edain &#10023;&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;&#10022; And I couldn't help but wonder...&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fb217ac1-f81b-4312-8059-fea5377b44b3_1440x1440.webp&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-06-22T18:33:34.965Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/65467111-9365-4dfd-a80c-9e2345789c54_736x414.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-1&quot;,&quot;section_name&quot;:&quot;&#10023; Cartografia do Desafeto &#10023;&quot;,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:203118781,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:1,&quot;comment_count&quot;:0,&quot;publication_id&quot;:4486627,&quot;publication_name&quot;:&quot;Retr&#243;grada &#10023;&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!fxGn!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4038979c-1136-4d56-b9a2-73d267578bc7_1254x1254.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><div class="pullquote"><h6><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Disclaimer &#8212; antes que algum advogado ou ex-date emocionalmente abalado apare&#231;a na minha porta (ou na minha DM) enchendo o saco:</span></strong></h6><h6><strong>Com exce&#231;&#227;o do meu nome, todos os outros nomes presentes nesta edi&#231;&#227;o s&#227;o fict&#237;cios. Alguns detalhes tamb&#233;m foram alterados para proteger a identidade das pessoas envolvidas</strong>.</h6><h6>As hist&#243;rias, no entanto, s&#227;o reais. Foram enviadas por leitoras, amigas e sobreviventes da experi&#234;ncia moderna de tentar conhecer algu&#233;m sem sofrer uma s&#237;ncope no processo.</h6><h6>Nenhuma dessas pessoas recebeu compensa&#231;&#227;o financeira por seus depoimentos. O pagamento foi exclusivamente emocional e consistiu na oportunidade de expor suas desventuras amorosas para uma plateia de desconhecidos na internet racharem o bico.</h6><h6>Caso voc&#234; se reconhe&#231;a em alguma destas hist&#243;rias, siga o seguinte procedimento:</h6><h6>Primeiramente, mantenha a calma. Voc&#234; n&#227;o &#233; t&#227;o importante assim <em><s>(pra falar bem a verdade, se voc&#234; &#233; um dos personagens que receberam ghosting, isso j&#225; era pra estar mais do que claro)</s></em><s>.</s> Ningu&#233;m vai saber que a hist&#243;ria foi com voc&#234;. Existem milh&#245;es de pessoas no mundo.</h6><h6>Em segundo lugar, repense. Estatisticamente, &#233; perfeitamente poss&#237;vel que existam dois ou mais homens emocionalmente despreparados no mundo que deram unfollow e follow novamente no Instagram de uma garota achando que isso configurava uma estrat&#233;gia leg&#237;tima de conquista.</h6><h6><em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Se persistirem os sintomas de burrice, insist&#234;ncia e/ou toxicidade cr&#244;nica, o block poder&#225; ser aplicado e um psic&#243;logo dever&#225; ser consultado.</span></em></h6></div><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/30d51f2b-495b-4cea-b81d-00d07d2dd7db_736x921.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;\&quot;Oh, querida... Eu vejo algo maravilhoso no seu futuro.\&quot; &quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/30d51f2b-495b-4cea-b81d-00d07d2dd7db_736x921.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><h2><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Caso n&#186; 1: A mulher que prometeu a lua (e desapareceu antes do amanhecer)</span></h2><p>A primeira hist&#243;ria desta edi&#231;&#227;o me foi enviada por uma leitora que, para fins jur&#237;dicos, chamaremos de <strong>B&#225;rbara, 28 anos.</strong></p><p>B&#225;rbara cometeu um erro que, infelizmente, acomete milhares de brasileiros todos os anos: <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">ela acreditou em uma mulher bonita.</span></strong></p><p>N&#227;o uma mulher apenas bonita. Isso seria at&#233; administr&#225;vel.</p><p>Estou falando de uma mulher perigosamente linda, gostosa e inteligente. Uma daquelas pessoas que parecem ter sido desenhadas por uma equipe multidisciplinar composta por Deus, um diretor de fotografia da HBO e uma psic&#243;loga especializada em manipula&#231;&#227;o emocional.</p><p>Aqui, vamos cham&#225;-la de <strong>Mariana</strong>.</p><p>Segundo relatos, Mariana possu&#237;a todas as caracter&#237;sticas cl&#225;ssicas do predador afetivo contempor&#226;neo: era linda, esperta, bem articulada e tinha a habilidade de fazer uma pessoa se sentir a &#250;nica criatura viva na superf&#237;cie do planeta durante exatamente o tempo necess&#225;rio para criar um v&#237;nculo emocional irrevers&#237;vel.</p><p>Primeira <em>red flag</em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></span></strong>: Mariana falava muito para quem pouco fazia. Falava de sentimentos, de vulnerabilidade, de conex&#245;es, de autenticidade, de cura e de presen&#231;a. Falava tanto, mas tanto, que em determinado momento B&#225;rbara come&#231;ou a suspeitar que estava vivendo dentro de um epis&#243;dio de um podcast da Dra. Ana Beatriz<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>.</p><p>E como toda boa golpista emocional, Mariana tamb&#233;m possu&#237;a um discurso impec&#225;vel.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#8212; Estou deixando muito claro que n&#227;o quero namorar, gatinha.</span></strong></p><p>Justo, diva. Perfeito. Adulto. Respons&#225;vel. Uma excelente informa&#231;&#227;o.</p><p>Segunda red flag: o problema &#233; que essa frase costumava vir acompanhada de outras p&#233;rolas.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#8212; N&#227;o tenho medo de intensidade, amor.</span></strong></p><p><em>Pera&#237;&#8230; qu&#234;? </em></p><p>Garota, intensidade <em>de qu&#234;</em> exatamente?</p><p>At&#233; onde eu sei, intensidade &#233; um conceito que costuma fazer mais sentido quando existe alguma esp&#233;cie de compromisso, continuidade ou perspectiva de futuro envolvida. <strong>Se voc&#234; n&#227;o quer construir uma casa, para que est&#225; comprando tijolos?</strong></p><p>Terceira red flag: <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Mariana tamb&#233;m dizia odiar a ex.</span></strong></p><p>B&#225;rbara, a esse ponto, j&#225; podia pedir m&#250;sica no Fant&#225;stico.</p><p>Minha opini&#227;o aqui &#233; muito clara, querido leitor. Para mim, quem diz que &#8220;n&#227;o existem regras no amor&#8221; ou &#233; um <em>cuz&#227;o </em>que usa isso como desculpa para tratar os outros como lixo, ou &#233; um adolescente que ainda n&#227;o aprendeu nada sobre a vida e as rela&#231;&#245;es humanas. Existem, sim, regras e leis quase que naturais &#8212; algumas ditas em voz alta, outras nem tanto &#8212; no amor. A primeira &#233; ignorada por muitos, mas n&#227;o deixa de ocorrer e ser um fato: <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">quando uma pessoa menciona insistentemente (e espontaneamente) que odeia a ex com todas as for&#231;as mesmo ap&#243;s um longo per&#237;odo p&#243;s-t&#233;rmino, pode ter certeza de que a ex est&#225; morando naquele apartamento sem pagar aluguel.</span></strong><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a></p><p>A ex de Mariana ainda estava l&#225;, por toda parte: na sala, na cozinha, no quarto, na varanda. O fantasma daquela mulher zanzava por todos os c&#244;modos do triplex que havia alugado mente de nossa (des)querida Mari. E, infelizmente, nossa querida B&#225;rbara ignorou todos os avisos luminosos que piscavam diante dela. Mariana era, afinal, linda, e dizia coisas ainda mais lindas ao p&#233; do ouvido de B&#225;rbara. Prometia rios e mares e fazia cachoeiras descerem pelas pernas de nossa amiga. Eu, mesma, n&#227;o sou ningu&#233;m para julg&#225;-la. Com o batom correto sujando meu pesco&#231;o, os dois dedos corretos rodopiando dentro e o polegar correto pressionando o ponto certo em cima, n&#227;o sei se meu ju&#237;zo me permitiria pensar corretamente tamb&#233;m.</p><p>E porque pessoas lindas, engra&#231;adas e inteligentes conseguem convencer outros seres humanos perfeitamente funcionais a tomar decis&#245;es que normalmente exigiriam autoriza&#231;&#227;o psiqui&#225;trica, os meses passaram. As conversas se aprofundaram, as promessas cresceram, e os gestos aumentaram.</p><p>Mariana come&#231;ou a fazer aquilo que algumas pessoas fazem quando querem todos os benef&#237;cios emocionais de um relacionamento sem assumir qualquer responsabilidade por ele: ela alimentava a esperan&#231;a, alimentava a expectativa, alimentava a intimidade e alimentava a fantasia. Se ela tivesse permanecido mais algumas semanas naquela trajet&#243;ria, provavelmente teria prometido amarrar a lua num barbante e traz&#234;-la pessoalmente para a janela de B&#225;rbara.</p><p>E ent&#227;o aconteceu o que nos trouxe a esta edi&#231;&#227;o da coluna: chocando um total de zero pessoas, <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Mariana desapareceu. </span></strong>N&#227;o necessariamente da forma teatral que Hollywood gosta de retratar &#8212; nenhum corpo foi encontrado, nenhum boletim de ocorr&#234;ncia foi registrado e nenhuma opera&#231;&#227;o de resgate precisou ser acionada.</p><p>Emocionalmente, entretanto, a gata evaporou. Suas promessas vazias viraram fuma&#231;a, suas mensagens viraram neblina e as mem&#243;rias do seu afeto viraram apenas uma breve lembran&#231;a.</p><p>Ela deixou para tr&#225;s uma B&#225;rbara t&#227;o desnorteada que produziu uma quantidade industrial de textos de amor &#8212; ou melhor: textos de <em>&#243;dio</em>, que, como todo mundo sabe, s&#227;o exatamente a mesma coisa usando roupas diferentes. Segundo a pr&#243;pria B&#225;rbara, nenhum deles foi enviado, o que considero uma pena. <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Tenho, para mim, que sofrer sozinha &#233; um ato de generosidade que raramente &#233; devidamente reconhecido pela sociedade.</span></strong></p><p>O curioso &#233; que Mariana provavelmente ainda acredita que foi extremamente honesta. Afinal, ela avisou que n&#227;o queria namorar, n&#233;?</p><p>O que ela aparentemente esqueceu de avisar foi que isso n&#227;o significava que ela n&#227;o iria <em>agir </em>como algu&#233;m que n&#227;o queria namorar. A pobre da B&#225;rbara recebeu de sua ex-ficante o pacote premium completo: <em>lovebombing</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a> + ghosting. Mas essa, caro leitor, &#233; uma epidemia t&#227;o comum que merece <a href="https://open.substack.com/pub/retrograda/p/cartografia-do-desafeto-3?r=5fcc8a&amp;utm_campaign=post-expanded-share&amp;utm_medium=web">uma edi&#231;&#227;o inteira desta investiga&#231;&#227;o</a>. </p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://retrograda.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://retrograda.substack.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><div><hr></div><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e49f0081-0565-4d72-82f1-248257c26e17_736x552.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;\&quot;Me desculpe, eu n&#227;o consigo. N&#227;o me odeie.\&quot; - Carrie Bradshaw no epis&#243;dio 'The Post-It Always Sticks Twice' (S6E7) de Sex and the City.&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e49f0081-0565-4d72-82f1-248257c26e17_736x552.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><h2><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Caso n&#186; 2:  Uma hist&#243;ria fantasma&#8230; de V&#234;nus mesmo</span></h2><p><strong>Venus, 24 anos.</strong></p><p>Sim, caro leitor, &#233; isso mesmo que voc&#234; est&#225; lendo. <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">A segunda hist&#243;ria desta edi&#231;&#227;o &#233; minha.</span></strong></p><p>E antes de cont&#225;-la, acho necess&#225;rio decepcionar algumas pessoas.</p><p>Existe uma coisa curiosa que acontece quando voc&#234; escreve sobre relacionamentos na internet: depois de algum tempo marcando presen&#231;a num espa&#231;o com as suas palavras, os leitores podem come&#231;ar a construir uma vers&#227;o fict&#237;cia sua dentro da pr&#243;pria cabe&#231;a. Uma narradora. Uma personagem. Uma protagonista. <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">E protagonistas, infelizmente, costumam vir acompanhadas de uma expectativa muito chata de coer&#234;ncia moral, como se todas elas tivessem assinado, em cart&#243;rio, um compromisso vital&#237;cio com a lucidez, a responsabilidade afetiva e a santidade.</span></strong></p><p>Pois bem. Eu n&#227;o assinei nada, e nunca falei que era santa.</p><p>Se algum de voc&#234;s chegou at&#233; aqui acreditando que eu era uma esp&#233;cie de hero&#237;na de com&#233;dia rom&#226;ntica, uma observadora imparcial do caos afetivo contempor&#226;neo, uma mulher sempre sensata, sempre justa, sempre educada, sempre do lado moralmente certo da hist&#243;ria, sinto informar que isso diz muito mais sobre a capacidade imaginativa de voc&#234;s do que sobre mim. Sim, &#233; verdade &#8212; eu sou <s>trouxa</s> sens&#237;vel, sou <em><s>delulu</s></em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a> rom&#226;ntica, sou uma pessoa que realmente tenta n&#227;o ser horr&#237;vel no conv&#237;vio social e, no geral, gosto de acreditar que possuo um cora&#231;&#227;o minimamente bom. Mas tamb&#233;m sou contradit&#243;ria, <s>chata</s> exigente, hip&#243;crita e reclamona. E pra piorar, recentemente tenho aprendido uma arte que, durante muitos anos, me foi negada pela r&#237;gida educa&#231;&#227;o oferecida &#224;s boas garotas: <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">a arte de ser ego&#237;sta.</span></strong></p><p>E ser ego&#237;sta, quando voc&#234; passou tempo demais sendo treinada para sorrir, compreender, ceder, explicar, acolher, amparar, responder mensagens que n&#227;o queria responder, passar por cima do seu pr&#243;prio conforto e consentimento e preservar sentimentos que ningu&#233;m parecia t&#227;o preocupado em preservar quando eram os seus, pode se tornar uma experi&#234;ncia perigosamente desregulada. &#201; como entregar uma garrafa de vodka para uma adolescente de quinze anos e esperar que ela fa&#231;a uma degusta&#231;&#227;o respons&#225;vel. A pessoa n&#227;o sabe usar. A pessoa passa do ponto. A pessoa acorda no dia seguinte com ressaca moral e uma vaga lembran&#231;a de ter feito algo que talvez precise discutir na terapia anos mais tarde.</p><p>Isso justifica eu descontar minhas pequenas rebeli&#245;es emocionais em outra pessoa? &#211;bvio que n&#227;o.</p><p>Isso significa que eu me arrependo do que fiz? Tamb&#233;m n&#227;o.</p><p>Mas, pelo menos, estou pagando uma profissional qualificada para ouvir esse tipo de merda com alguma regularidade.</p><p>N&#227;o conto esta hist&#243;ria para que fiquem do meu lado, muito pelo contr&#225;rio. Podem me criticar. Inclusive, considerando a quantidade de julgamentos que distribuo gratuitamente nesta newsletter e nas minhas notas do Substack, seria est&#250;pido da minha parte tentar fugir do tribunal popular agora que a r&#233; sou eu. Conto esta hist&#243;ria porque, se esta edi&#231;&#227;o pretende falar sobre ghosting, seria covarde fingir que eu s&#243; conhe&#231;o o fen&#244;meno da perspectiva de quem foi abandonada no meio da n&#233;voa, olhando para a tela do celular como uma vi&#250;va vitoriana diante do mar.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Eu tamb&#233;m j&#225; fui a n&#233;voa. Eu tamb&#233;m j&#225; fui o fantasma </span></strong><em><strong><s><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">(ui! po&#233;tico, n&#233;?)</span></s></strong></em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">.</span></strong> Eu tamb&#233;m j&#225; olhei para uma conversa, medi o tamanho da minha vontade de continuar ali e simplesmente desapareci.</p><p>Mas, como boa filha da puta que sou, n&#227;o acho que esta minha <em>filha-da-putagem</em> foi um crime de guerra. Eu posso at&#233; ser uma cretina cruel, mas&#8230;</p><p>&#8230;&#233;, sei l&#225;. Esqueci o ponto que eu ia fazer aqui. N&#227;o d&#225; pra falar que n&#227;o quero me justificar e fazer isso logo em seguida. Tamb&#233;m n&#227;o d&#225; pra afirmar que sou sens&#237;vel e rom&#226;ntica e que tenho um cora&#231;&#227;o bom em um momento e depois admitir que sou uma cretina cruel no segundo seguinte, n&#233;?</p><p>Bem, pelo menos eu avisei que sou hip&#243;crita e contradit&#243;ria.</p><p>Minha filha-da-putagem da vez envolve um homem insistente, <s>feio</s> desprovido das caracter&#237;sticas que mais me atraem e <s>baixinho tal qual um </s><em><s>oompa lompa</s></em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a> de baixa estatura. Envolvia um date marcado de &#250;ltima hora, uma janta paga por ele, uma quantidade alarmante de sinais vermelhos que eu ignorei at&#233; perceber que n&#227;o queria estar ali, e covardia da minha parte para n&#227;o comunicar apropriadamente que eu nunca mais queria ver a fu&#231;a dele depois daquela noite desastrosa.</p><p>O nome dele <em>n&#227;o </em>era Marcelo. Mas, para os fins desta investiga&#231;&#227;o cient&#237;fica extremamente s&#233;ria, ser&#225; <strong>Marcelo, 30 anos.</strong></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-2/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-2/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p>Tudo come&#231;ou com outro homem.</p><p>Vamos cham&#225;-lo de <strong>Francisco, 23 anos.</strong></p><p>Eu havia conhecido Francisco no Bumble e, durante uma semana inteira, n&#243;s conversamos muito. Francisco era alto, bonito, atl&#233;tico e, o que para mim sempre foi o verdadeiro golpe baixo: inteligente. Gente inteligente me d&#225; um tes&#227;o desgra&#231;ado, caro leitor. Voc&#234; n&#227;o tem no&#231;&#227;o. </p><p>Veja bem, n&#227;o estou dizendo que ele era o Shawn Mendes<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="#footnote-7" target="_self">7</a> na escala do homem branco padr&#227;o. N&#227;o era exatamente isso. Mas <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">existe um ponto em que beleza deixa de ser uma quest&#227;o de simetria facial ou de gominhos num tanquinho e passa a ser uma quest&#227;o de repert&#243;rio.</span></strong> Um homem/uma mulher que sabe conduzir uma conversa, que entende minimamente o mundo ao seu redor, que n&#227;o responde qualquer tentativa de conversa mais profunda com um<em> &#8220;kkkk top&#8221;</em> e que n&#227;o escreve <em>&#8220;oque&#8221;</em> junto ou <em>&#8220;tudo bem ??&#8221;</em> com espa&#231;o antes de qualquer sinal de pontua&#231;&#227;o j&#225; larga, comigo, com uma vantagem competitiva consider&#225;vel.</p><p>N&#227;o quero dizer que sou a porra da Marilyn vos Savant<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-8" href="#footnote-8" target="_self">8</a>, mas tamb&#233;m <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">n&#227;o vou fingir humildade para agradar gente med&#237;ocre.</span></strong> Eu falo tr&#234;s l&#237;nguas, estou terminando um MBA aos vinte e quatro anos, tenho dois livros publicados e uma coluna inteira na internet dedicada, entre outras coisas, a analisar o comportamento humano como quem observa um acidente de tr&#226;nsito em c&#226;mera lenta. <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Ent&#227;o, com todo respeito, eu tamb&#233;m n&#227;o sou pouca merda.</span></strong> Sou uma mulher inteligente, articulada e profundamente entediada por conversas que parecem ter sido digitadas por algu&#233;m sendo mantido ref&#233;m dentro de um elevador sem sinal.</p><p>Eu preciso ser estimulada intelectualmente. N&#227;o como uma exig&#234;ncia elitista, mas como uma condi&#231;&#227;o b&#225;sica de sobreviv&#234;ncia afetiva. Eu n&#227;o aguento conversar<em> &#8220;oi :)&#8221;, &#8220;oi.&#8221;, &#8220;&#233;&#8230; ent&#227;o&#8230; tudo bem?&#8221;, &#8220;t&#244; bem.&#8221;, &#8220;ah&#8230; t&#244; bem tamb&#233;m&#8230;&#8221;</em> com uma pessoa e fingir que ali existe qualquer possibilidade de desejo. Meu corpo n&#227;o opera dessa forma. <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">O c&#233;rebro &#233;, infelizmente para mim, um &#243;rg&#227;o sexual importante demais para ser ignorado.</span></strong></p><p>Francisco, o nerdzinho gostoso, entendia isso sem parecer estar tentando provar nada. Eu falava de neuroci&#234;ncia, e ele respondia com alguma refer&#234;ncia cient&#237;fica sem transformar a conversa numa palestra insuport&#225;vel de coach de LinkedIn. Ele era inteligente sem ser condescendente, o que, em 2026, deveria ser considerado uma habilidade rara o suficiente para constar no curr&#237;culo de um homem. N&#227;o tentava me corrigir a cada frase, n&#227;o fazia aquele cosplay miser&#225;vel de professor universit&#225;rio em mesa de bar, n&#227;o parecia amea&#231;ado quando eu demonstrava saber muito sobre alguma coisa. Pelo contr&#225;rio: era curioso. Queria me ouvir falar. Complementava. Puxava assunto. E, para piorar uma situa&#231;&#227;o que j&#225; caminhava perigosamente para a minha completa desgra&#231;a, ainda tinha uma voz deliciosamente grave.</p><p>Eu j&#225; estava imaginando coisas com aquela voz. E n&#227;o eram coisas recomendadas para publica&#231;&#227;o em uma newsletter aberta.</p><p>A conversa era boa, o papo flu&#237;a, e ent&#227;o ele fez algo que, para mim, tem o poder er&#243;tico de um decote bem colocado: teve <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">iniciativa</span></strong>. Disse que estava adorando conversar comigo, que queria me conhecer melhor, e prop&#244;s um encontro com dia, hor&#225;rio, lugar e plano definidos. Sem aquele &#8220;qualquer dia a gente marca&#8221;, sem aquele &#8220;vamo ver&#8221;, sem aquela pregui&#231;a existencial de quem aparentemente quer sair com uma mulher, mas espera que ela fa&#231;a todo o trabalho log&#237;stico, emocional e administrativo para que o encontro aconte&#231;a.</p><p>Francisco chegou com uma proposta objetiva. E eu, obviamente, disse sim.</p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/5bb1b572-1387-4ca8-a594-f1c77c908750_736x920.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;O que eu j&#225; tava querendo fazer com o nerdzinho gostoso.&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/5bb1b572-1387-4ca8-a594-f1c77c908750_736x920.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><p>Fa&#231;o aqui uma pausa para esclarecer algo antes que algum fiscal de din&#226;mica relacional venha me explicar, com a profundidade de um tweet ruim, que homens e mulheres n&#227;o s&#227;o obrigados a performar pap&#233;is espec&#237;ficos dentro de uma rela&#231;&#227;o.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Sim, querido. Eu sei.</span></strong> Estamos em 2026, afinal. Diferentes rela&#231;&#245;es funcionam de formas diferentes, e homem nenhum, nem mulher nenhuma, tem obriga&#231;&#227;o universal de ser a pessoa ativa, dominante ou condutora do rol&#234;. <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Ningu&#233;m tem obriga&#231;&#227;o de tomar iniciativa; dito isso, eu vou continuar escolhendo quem toma. </span></strong>Afinal, <span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">eu tamb&#233;m n&#227;o tenho obriga&#231;&#227;o nenhuma de desejar qualquer din&#226;mica que n&#227;o me excita.</span><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> </span></strong>N&#227;o &#233; uma tese sociol&#243;gica, &#233; uma prefer&#234;ncia. E, por incr&#237;vel que pare&#231;a, mulheres ainda t&#234;m permiss&#227;o para ter uma ou duas dessas sem precisar apresentar defesa em banca acad&#234;mica.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-9" href="#footnote-9" target="_self">9</a></p><p>Enfim, Francisco e eu conversamos a semana inteira, e eu j&#225; estava naquele est&#225;gio idiota em que o meme <em>&#8220;damn, someone stole my bitch&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-10" href="#footnote-10" target="_self">10</a> come&#231;a a passar pela cabe&#231;a com uma frequ&#234;ncia constrangedora.</p><p>Conforme o dia do date se aproximava, o nerd gostoso foi esfriando. Suas respostas come&#231;aram a demorar mais. A energia mudou. Sua presen&#231;a evaporou aos poucos, como se algu&#233;m tivesse diminu&#237;do o volume da conversa sem avisar.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">E eu n&#227;o sou uma ot&#225;ria do caralho.</span></strong></p><p>N&#227;o estava atr&#225;s de marido, n&#227;o tinha prometido fidelidade a um completo estranho do Bumble e, por mais que Francisco fosse interessante, ele ainda era apenas um homem com quem eu conversava havia uma semana. Ele n&#227;o me devia compromisso nenhum. Mas, justamente por isso, <span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">eu</span> tamb&#233;m n&#227;o devia exclusividade alguma a ele. Era &#243;bvio que eu continuaria conversando com outras pessoas, homens e mulheres, porque aplicativos de relacionamento n&#227;o s&#227;o um mosteiro beneditino e eu n&#227;o sou uma freira aguardando o retorno de seu cavaleiro prometido.</p><p>Chegou o dia do encontro.</p><p>De manh&#227;, mandei mensagem perguntando onde exatamente nos encontrar&#237;amos no local combinado. Se seria na frente, se seria l&#225; dentro; uma pergunta absolutamente normal para duas pessoas que, at&#233; onde eu sabia, ainda tinham um date naquela noite. </p><p>Foi ent&#227;o que Francisco, com a pachorra de quem aparentemente s&#243; lembrou que eu existia porque fui conferir a log&#237;stica, me disse que n&#227;o poderia mais ir. Usou uma desculpa envolvendo trabalho, que poderia muito bem ser verdadeira e, se fosse apenas isso, tudo bem. Adultos trabalham. Imprevistos acontecem. <span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">O capitalismo existe para destruir a libido, os sonhos e a musculatura lombar de todos n&#243;s.</span></p><p>O problema veio depois.</p><p>&#8212; <em>Ehh&#8230;</em> mas olha&#8230; &#8212; ele come&#231;ou. Era melhor n&#227;o ter terminado de falar. &#8212; Domingo eu t&#244; livre. No caso, amanh&#227;, n&#233;? A gente pode&#8212;</p><p>&#8212; Amanh&#227; eu n&#227;o posso.</p><p>Sil&#234;ncio.</p><p>&#8212; Ah, pr&#243;xima ter&#231;a d&#225; pra mim, tamb&#233;m. N&#227;o vou trabalhar na pr&#243;xima semana, ent&#227;o se quiser&#8230;</p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Ah, v&#225; tomar no cu!</span></strong></em></p><p>N&#227;o &#233; que remarcar seja um crime &#8212; n&#227;o &#233; &#8212;, mas existe uma diferen&#231;a muito grande entre uma pessoa que desmarca com cuidado, se desculpa de verdade e prop&#245;e imediatamente um novo plano concreto, e uma pessoa que joga duas op&#231;&#245;es vagas no colo da outra como quem oferece migalhas para um pombo na cal&#231;ada. Especialmente quando essa pessoa s&#243; decidiu informar que o encontro n&#227;o aconteceria porque <em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">eu,</span></strong></em> feito uma secret&#225;ria n&#227;o remunerada, fui confirmar o ponto de encontro.</p><p>Como n&#227;o sou uma adolescente de quinze anos de idade, n&#227;o fiz esc&#226;ndalo e tampouco mandei text&#227;o. N&#227;o tentei educar um marmanjo adulto, at&#233; porque tenho coisas melhores para fazer com a minha vida &#8212; como beber caf&#233;, ler meus livros e, de acordo com voc&#234;s, reclamar de homem para uma audi&#234;ncia que secretamente adora ler minhas notas reclamonas no Substack. Apenas respondi que ia ver e depois deixei Francisco falando sozinho no WhatsApp.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">E &#233; aqui que entra Marcelo.</span></strong></p><div><hr></div><p style="text-align: center;"><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#127925; M&#250;sica da Vez:</span></strong></p><iframe class="spotify-wrap" data-attrs="{&quot;image&quot;:&quot;https://i.scdn.co/image/ab67616d0000b2733a8c1d521aae4bd646d1949b&quot;,&quot;title&quot;:&quot;Bad Reputation&quot;,&quot;subtitle&quot;:&quot;Joan Jett &amp; the Blackhearts&quot;,&quot;description&quot;:&quot;&quot;,&quot;url&quot;:&quot;https://open.spotify.com/track/3VwCHFahYwyUSR0Rse4Boo&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;noScroll&quot;:false}" src="https://open.spotify.com/embed/track/3VwCHFahYwyUSR0Rse4Boo" frameborder="0" gesture="media" allowfullscreen="true" allow="encrypted-media" loading="lazy" data-component-name="Spotify2ToDOM"></iframe><h5>Toda pesquisa precisa de uma trilha sonora.</h5><h5>A cada edi&#231;&#227;o de Cartografia do Desafeto, uma nova m&#250;sica ser&#225; adicionada &#224; playlist oficial da investiga&#231;&#227;o.</h5><h5>Quando (ou se) esta pesquisa terminar, teremos duas coisas: evid&#234;ncias suficientes para provar minha tese e uma playlist excelente.</h5><p style="text-align: center;"><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#127925; Confira a playlist aqui:</span></strong></p><iframe class="spotify-wrap playlist" data-attrs="{&quot;image&quot;:&quot;https://image-cdn-ak.spotifycdn.com/image/ab67706c0000da846fcd2f2c85ab49ba7e5ee449&quot;,&quot;title&quot;:&quot;Cartografia do Desafeto&quot;,&quot;subtitle&quot;:&quot;By venus edain&quot;,&quot;description&quot;:&quot;Playlist&quot;,&quot;url&quot;:&quot;https://open.spotify.com/playlist/2IayD1ZQoaw9mR8qOPPZel&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;noScroll&quot;:false}" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/2IayD1ZQoaw9mR8qOPPZel" frameborder="0" gesture="media" allowfullscreen="true" allow="encrypted-media" loading="lazy" data-component-name="Spotify2ToDOM"></iframe><div><hr></div><p>Marcelo era um carinha com quem eu estava conversando havia <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">menos de vinte e quatro horas.</span></strong> Literalmente. N&#243;s t&#237;nhamos dado match e come&#231;ado a conversar na <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">madrugada anterior</span></strong> &#224;quela manh&#227;. Guarde esse detalhe, porque ele ser&#225; importante para fins periciais.</p><p>A conversa com Marcelo, no in&#237;cio, tinha sido agrad&#225;vel. Nada revolucion&#225;rio, nada que me fizesse acreditar novamente na humanidade, mas suficientemente interessante para manter o papo rolando durante a madrugada. Na manh&#227; seguinte, em algum momento, quando convers&#225;vamos sobre dates, r&#237;amos de matches ruins e compartilh&#225;vamos nossas furadas com potenciais ficantes, comentei que eu tinha um encontro marcado naquela noite com outro cara, mas que o sujeito havia desmarcado.</p><p>&#8212; Mas tudo bem &#8212; eu disse, naquele estado espec&#237;fico de conformismo debochado em que voc&#234; ainda est&#225; um pouco irritada, mas j&#225; atravessou a raiva e chegou na fase de transformar a situa&#231;&#227;o em fofoca. &#8212; Eu vou sair com minhas amigas do clube do livro mais tarde de qualquer forma.</p><p>&#8212; E que horas acaba esse clube do livro?</p><p>Ajeitei a postura na cadeira da cozinha e olhei para a tela do celular por alguns segundos a mais do que o necess&#225;rio, tentando decidir se aquela pergunta tinha realmente soado do jeito que parecia ter soado ou se...</p><p>Afinal, ele tinha dito que trabalhava naquele dia. Era s&#225;bado, claro, mas ainda assim.</p><p>&#8212; Deve acabar l&#225; pelas cinco ou seis &#8212; respondi. &#8212; Fim da tarde, come&#231;o da noite, por a&#237;.</p><p>A resposta dele veio r&#225;pido demais.</p><p>&#8212; Ah, &#233;? E quais s&#227;o seus planos pra noite?</p><p><em>Hm&#8230; Olha s&#243;.</em></p><p>Segurei o ar por um segundo, ainda encarando a tela. Eu sabia exatamente a dire&#231;&#227;o que aquilo estava tomando. E sim, uma parte indecente do meu ego estava, agora, achando tudo aquilo bastante divertido.</p><p>&#8212; N&#227;o sei ainda. Talvez eu v&#225; jantar sozinha em algum lugar, se me der vontade. Eu gosto da minha pr&#243;pria companhia. N&#227;o preciso de date pra me diver&#8212;</p><p>&#8212; Ent&#227;o voc&#234; t&#225; dispon&#237;vel hoje &#224; noite?</p><p>Eu n&#227;o sabia ainda, mas esse foi o meu primeiro erro. Foi a&#237; que Marcelo enxergou uma oportunidade.</p><p>A princ&#237;pio, achei at&#233; engra&#231;ado. Ele come&#231;ou com aquele entusiasmo meio improvisado de quem v&#234; uma vaga abrir no estacionamento e decide entrar com tudo antes que o motorista do outro carro perceba.</p><p>&#8212; Que maravilha! Onde voc&#234; vai estar?</p><p>&#8212; Pera&#237;, tem certeza?</p><p>&#8212; Sim! Eu posso ir te ver. Vou adorar, inclusive.</p><p>At&#233; a&#237;, nada demais. O problema &#233; que em poucos minutos a empolga&#231;&#227;o escalou para uma insist&#234;ncia estranha, e ent&#227;o ele soltou a frase que imediatamente fez minha medula acender um alerta vermelho:</p><p>&#8212; Melhor ainda, eu vou te pegar na sua casa.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Amor, n&#227;o.</span></strong></p><p>Eu n&#227;o nasci ontem e definitivamente n&#227;o tenho interesse em virar pauta do Cidade Alerta. N&#227;o existe universo em que eu compartilhe meu endere&#231;o com um homem que conheci h&#225; <em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">horas </span></em>atr&#225;s, por mais simp&#225;tico que ele pare&#231;a ser em mensagens.</p><p>Eu disse apenas que estaria por Pinheiros. Ele n&#227;o precisava saber que eu j&#225; frequentava as redondezas, porque, se <em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">ele </span></strong></em>estava me chamando em cima da hora, <em>eu</em> definitivamente n&#227;o assumiria o trabalho de planejar um date inteiro para facilitar a vida <em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">dele</span></strong></em>.</p><p>Perguntei mais uma vez se ele tinha certeza. Marcelo morava longe. E quando eu digo longe, quero dizer <em>longe </em>mesmo. Do outro lado de S&#227;o Paulo. Longe o suficiente para qualquer cara minimamente racional olhar para o mapa, para o hor&#225;rio, para quantos graus faria &#224; noite na previs&#227;o do Google e pensar: <em>talvez n&#227;o.</em></p><p>Mas ele insistiu. Queria porque queria me ver, disse ele.</p><p>Antes de aceitar, fiz quest&#227;o de deixar uma coisa muito clara: <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">eu n&#227;o ia transar com ele.</span></strong> N&#227;o queria sexo. N&#227;o tenho absolutamente nada contra quem transa no primeiro encontro, mas eu n&#227;o funciono assim. Preciso sentir atra&#231;&#227;o, conversar, entender se existe qu&#237;mica, se existe clima, se existe alguma coisa al&#233;m de dois corpos ocupando a mesma cal&#231;ada. S&#243; depois disso meu corpo decide se vai colaborar com a pauta. Paci&#234;ncia.</p><p>Marcelo disse que tudo bem.</p><p>Depois do encontro com as meninas do clube do livro &#8212; um beijo para o <a href="https://www.instagram.com/alemdatrendclub/">Al&#233;m da Trend Club</a>, inclusive, que est&#227;o me lendo neste exato momento e s&#227;o sobreviventes da literatura e testemunhas indiretas do in&#237;cio desta trag&#233;dia &#8212; fui encontr&#225;-lo no restaurante escolhido: um italiano, num frio da porra, desses em que voc&#234; come&#231;a a se perguntar se realmente precisa viver experi&#234;ncias ou se ficar em casa de pijama teria sido uma escolha melhor.</p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Ugh. O que uma pesquisadora dedicada n&#227;o faz pelo bem da sua tese, n&#227;o &#233; mesmo?</span></strong></em></p><p>Cheguei, e ent&#227;o vi Marcelo.</p><p>N&#227;o sei exatamente como suavizar esta parte sem mentir para voc&#234;s, ent&#227;o vamos apenas aceitar a deseleg&#226;ncia dos fatos: o homem era baixinho e feio. Muito diferente das fotos do aplicativo. E antes que algu&#233;m tente me colocar no tribunal de Haia<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-11" href="#footnote-11" target="_self">11</a> por dizer isso, deixo registrado que n&#227;o estou aqui posando de Gisele B&#252;ndchen. Eu conhe&#231;o meus limites. Sei que existem muitas mulheres no mundo bem mais bonitas do que eu. Mas tamb&#233;m sei que, no &#226;ngulo certo, arrumada, cheirosa e minimamente iluminada por uma boa luz de restaurante, eu sou bonita sim. Posso n&#227;o ser extraordin&#225;ria, e sei que n&#227;o sou celestial. Tamb&#233;m estou bem longe de ser a Kate Moss<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-12" href="#footnote-12" target="_self">12</a>, mas igualmente longe de ser uma participante de <em>Quilos Mortais</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-13" href="#footnote-13" target="_self">13</a>, e o mais importante: sou honesta sobre meu corpo, meu rosto e minha altura nos aplicativos.</p><p>Ent&#227;o, sim, acho que tenho o direito de reclamar quando descubro presencialmente que fui enganada por um conjunto criminoso de fotos antigas e uma declara&#231;&#227;o de altura que claramente pertencia ao campo da fic&#231;&#227;o especulativa. Porque, com todo respeito &#224; literatura fant&#225;stica, aquele homem definitivamente n&#227;o tinha 1,77m como dizia no app. Tinha bem menos. N&#227;o sei em que unidade de medida ele informou aquele n&#250;mero, mas certamente n&#227;o era em cent&#237;metros reconhecidos pelo INMETRO.</p><p>Ainda assim, tentei ser justa.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-14" href="#footnote-14" target="_self">14</a></p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Beleza n&#227;o &#233; tudo. </span></strong>Estatura tamb&#233;m n&#227;o. Existem homens bonitos e altos como um poste com a energia sexual de uma tomada queimada e homens nanicos considerados &#8220;feios&#8221; que, depois de cinco minutos de conversa, ficam inexplicavelmente gostosos. Personalidade faz milagres, querido leitor. Carisma opera ressurrei&#231;&#245;es, acredite. Intelig&#234;ncia j&#225; tirou muita gente do purgat&#243;rio est&#233;tico. Sendo assim, respirei fundo, abandonei temporariamente meus instintos mais cru&#233;is e decidi dar uma chance ao encontro.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">O problema &#233; que Marcelo tamb&#233;m era um banan&#227;o.</span></strong></p><p>Falava baixo, como se estivesse pedindo desculpas por ocupar mat&#233;ria no universo. Eu mal conseguia entender o que ele dizia. Na entrada do restaurante, ele sequer conseguiu dar boa noite para a mo&#231;a da recep&#231;&#227;o e informar uma tarefa administrativa t&#227;o complexa quanto &#8220;mesa para dois&#8221;. Foi uma daquelas cenas pequenas, aparentemente bobas, que dizem mais do que deveriam. Porque, <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">naquele segundo, eu senti uma coisa muito espec&#237;fica morrer dentro de mim: a libido.</span></strong></p><p>Ali, diante daquele homem incapaz de conduzir a pr&#243;pria chegada a um restaurante, fui violentamente transportada &#224;s minhas desventuras com homens que exigem que a mulher assuma o papel de m&#227;e, guia tur&#237;stica, assessora de imprensa, gerente de opera&#231;&#245;es e tutora legal.</p><p>Eu j&#225; vivi tempo demais sendo a adulta funcional das din&#226;micas que participei, tanto com homens quanto com mulheres. J&#225; segurei a m&#227;o de gente frouxa demais para resolver coisas simples. J&#225; fui &#8220;mam&#227;e&#8221; de gente que deveria ter autonomia, postura e alguma capacidade b&#225;sica de existir em p&#250;blico sem parecer uma crian&#231;a perdida no shopping. Ent&#227;o, quando Marcelo demonstrou que nem a recep&#231;&#227;o de um restaurante ele conseguia enfrentar, algo em mim fechou para balan&#231;o.</p><p>Pensei: este ser&#225; um jantar entre amigos. E tudo bem.</p><p>O problema era que nem como amigo o cara funcionava direito.</p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f7def261-9ef2-4b8f-b068-d665839493cd_523x525.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;\&quot;Seja l&#225; o que caralhos eu precise, n&#227;o &#233; *isso*.\&quot;&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f7def261-9ef2-4b8f-b068-d665839493cd_523x525.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><h2><em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Porra, Marcelo!</span></em></h2><p>No restaurante, Marcelo n&#227;o sabia conversar. Ficava olhando para a minha cara com uma express&#227;o que eu n&#227;o consegui decifrar. N&#227;o parecia nervoso de um jeito fofo, tampouco parecia t&#237;mido de um jeito vulner&#225;vel. Parecia apenas&#8230; <em>vazio</em>. <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Uma beterraba inexpressiva. </span></strong>Uma presen&#231;a f&#237;sica sentada do outro lado da mesa sem qualquer contribui&#231;&#227;o aparente para o desenvolvimento da noite. Muito diferente, inclusive, do homem com quem troquei ideia na madrugada anterior e naquela mesma manh&#227;.</p><p>Eu tentei, querido leitor. Juro que tentei.</p><p>Puxei assunto &#8212; e olha que, pessoalmente, sou at&#233; que bem t&#237;mida com quem n&#227;o conhe&#231;o, por incr&#237;vel que possa parecer.</p><p>Fiz perguntas.</p><p>Dei aberturas. Comentei coisas. Dei aqueles pequenos ganchos narrativos que qualquer pessoa minimamente interessada poderia usar para continuar uma conversa. Mas as respostas vinham secas, desengon&#231;adas, curtas. E o pior: <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">ele n&#227;o me fazia uma &#250;nica pergunta de volta. </span></strong>Nenhuma. Nem por educa&#231;&#227;o, nem por fingimento. Nem por reflexo social condicionado.</p><p>Em outro momento da minha vida, eu teria entrado em p&#226;nico diante do sil&#234;ncio e trabalhado dobrado para preencher todos os espa&#231;os vazios da mesa. Teria performado carisma por dois, contado hist&#243;rias, feito piadas, sustentado a noite inteira sozinha porque mulheres s&#227;o ensinadas a salvar situa&#231;&#245;es desconfort&#225;veis para que os homens n&#227;o precisem sentir o peso da pr&#243;pria incapacidade social.</p><p>Entretanto, a terapia, entre outras coisas, me ensinou a temer menos o sil&#234;ncio constrangedor.</p><p>Ent&#227;o, em determinado momento, simplesmente parei.</p><p>Olhei para ele.</p><p>Ele olhou para mim.</p><p>E ficamos ali, os dois, contemplando o abismo que se formava entre uma ta&#231;a de vinho e outra.</p><p>&#8212; Ent&#227;o...? &#8212; tentei duas vezes.</p><p>Nada.</p><p>Nem uma risadinha sem gra&#231;a. Nem uma tentativa. Nem um coment&#225;rio qualquer sobre o card&#225;pio, o clima, a vida, a morte, a alta do aluguel em S&#227;o Paulo ou a decad&#234;ncia moral dos aplicativos de relacionamento.</p><p>Perguntei se estava tudo bem. Ele respondeu apenas&#8230;</p><p>&#8212; T&#225;, t&#225; sim.</p><p>&#211;timo. Se estava tudo bem para ele, quem era eu para discordar?</p><p>Naquele momento, j&#225; preparada para pagar minha janta e nunca mais repetir aquela experi&#234;ncia, fiz meu pedido. Ele fez o dele. Bebi meu vinho. Tentei mais um pouco. Falei de mim por conta pr&#243;pria, j&#225; que o cidad&#227;o aparentemente n&#227;o tinha curiosidade suficiente para perguntar qualquer coisa. E, conforme os minutos passavam, comecei a sentir aquela gratid&#227;o profunda e quase religiosa que s&#243; aparece quando percebemos que um estabelecimento est&#225; prestes a fechar.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-2/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-2/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p>Quando o restaurante come&#231;ou a encerrar a noite, agarrei a oportunidade com a for&#231;a de uma mulher que v&#234; a porta de emerg&#234;ncia durante um inc&#234;ndio. Disse que era melhor irmos embora, que estava tarde, que eu estava cansada e que no dia seguinte trabalharia cedo. Menti, obviamente. Mas, naquele momento, a mentira era, para mim, menos uma falha moral e mais um mecanismo de sobreviv&#234;ncia social.</p><p>Peguei meu cart&#227;o para pagar minha parte e, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, Marcelo pagou a conta inteira.</p><p>Sinceramente, eu n&#227;o esperava. Achei gentil. Achei cavalheiro. Ele n&#227;o era obrigado a fazer isso &#8212; n&#243;s n&#227;o t&#237;nhamos combinado nada antes e, como mulher adulta e financeiramente respons&#225;vel <em><s>(quer dizer&#8230; eu tento, mas isso n&#227;o vem ao caso)</s></em>, eu sempre saio preparada para pagar o que consumo. Mas se a pessoa com quem eu saio decide pagar a conta, tamb&#233;m n&#227;o vou fingir indigna&#231;&#227;o perform&#225;tica para agradar a milit&#226;ncia do date 50/50. Agradeci. De verdade.</p><p>Foi depois disso, por&#233;m, que talvez eu tenha entendido uma poss&#237;vel motiva&#231;&#227;o por tr&#225;s da gentileza. N&#227;o afirmo &#8212; sou apenas uma humilde pesquisadora de campo levantando hip&#243;teses com base nas evid&#234;ncias dispon&#237;veis. Mas o fato &#233; que, enquanto eu pedia meu Uber, <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Marcelo grudou na lateral do meu corpo de uma forma t&#227;o desengon&#231;ada que parecia uma pulga aventureira tentando escalar um sof&#225;. </span></strong>Aproximou o rosto do meu pesco&#231;o, tentou beijar meu cangote e come&#231;ou a sussurrar coisas safadas e constrangedoras no meu ouvido.</p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Porra, Marcelo! Com que clima, Marcelo?</span></strong></em></p><p><em>Com que atmosfera? Com que trilha sonora?</em></p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Com que autoriza&#231;&#227;o, Marcelo?</span></strong></em></p><p>O homem havia passado o jantar inteiro com a energia comunicativa de um eletrodom&#233;stico desligado e, de repente, achou que era o momento ideal para encarnar o protagonista de um romance er&#243;tico de banca.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">A cena foi t&#227;o desconectada da realidade que eu precisei me segurar para n&#227;o rir.</span></strong> N&#227;o de nervoso &#8212; de incredulidade mesmo. Existe algo profundamente broxante em um cara que n&#227;o consegue sustentar uma conversa, mas acredita que pode sustentar tens&#227;o sexual encostando na lateral do seu corpo tal qual um carrapato carente.</p><p>Gra&#231;as a Exu, &#224;s Pombagiras e &#224; padroeira das mulheres que querem ir embora sem transformar a noite em um boletim de ocorr&#234;ncia, havia uma <s>cavaleira de armadura reluzente</s> senhorinha parada ali perto, a poucos metros da entrada do restaurante, me esperando com seu <s>cavalo</s> &#212;nix branco. Minha hero&#237;na. Minha sentinela. Aproveitei a presen&#231;a dela como quem se agarra a uma boia no meio do naufr&#225;gio, dei um abra&#231;o r&#225;pido em Marcelo, agradeci pelo jantar, disse que tinha sido bom conhec&#234;-lo e sa&#237; correndo para o carro.</p><p>Nem todo her&#243;i usa capa. &#192;s vezes, ele &#233; uma velhinha que usa aplicativo de transporte e aceita a corrida no momento certo.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://retrograda.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://retrograda.substack.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Agora, &#233; claro que eu tamb&#233;m n&#227;o sou a santa desta hist&#243;ria.</span></strong></p><p>Porque, antes disso tudo, durante o rol&#234; com minhas amigas e depois no restaurante, tive o enorme prazer de biscoitar no Instagram.</p><p>Postei minhas amigas. &#192; noite, postei meu look. E, claro, postei uma foto bem bonita do jantar, das duas ta&#231;as de vinho e do bra&#231;o masculino do outro lado da mesa.</p><p>N&#227;o vou mentir aqui e fingir que foi acidente &#8212; <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">eu sabia exatamente o que estava fazendo em algum n&#237;vel subterr&#226;neo da minha alma.</span></strong> Francisco, obviamente, viu. E eu, obviamente, ri horrores quando voltei do date falido e encontrei n&#227;o apenas mensagens dele, mas tamb&#233;m de outras pessoas reagindo ao espet&#225;culo cuidadosamente curado da minha vida social.</p><p>Isso &#233; feio? Sim. Eu sei que &#233;. Nem vou falar &#8220;talvez&#8221; para uma resposta que &#233; inevit&#225;vel.</p><p>&#201; humano? Infelizmente.</p><p>No fim das contas, tive minha janta e meu vinho pagos, biscoitei no Instagram, alimentei meu ego sem querer querendo e ainda voltei para casa com material suficiente para uma edi&#231;&#227;o inteira desta coluna.</p><p><strong><span data-color="#ff0000" style="color: rgb(255, 0, 0);">Disclaimer:</span></strong> antes que algum macho liso, <em>redpill</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-15" href="#footnote-15" target="_self">15</a> ou gatinha <em>pick-me girl</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-16" href="#footnote-16" target="_self">16</a> metida a <em>santa protetora dos pintos</em> venha se contorcer e soltar espuma pela boca diante deste relato, fa&#231;o quest&#227;o de lembrar uma coisa a voc&#234;s: <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">uma mulher interesseira quer um apartamento dado pelo CEO de uma multinacional, n&#227;o a porra de uma janta de oitenta reais paga por um maluco do TI de alguma empresa na Zona Leste</span></strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">. </span>Tenham escala. Desenvolvam repert&#243;rio. Estudem o inimigo antes de passar vergonha.</p><p>O que <em>eu </em>n&#227;o tive, no entanto, foi vontade de ver Marcelo de novo. E esse era o problema. Porque Marcelo, aparentemente, teve.</p><p>Na verdade, Marcelo teve vontade suficiente por n&#243;s dois.</p><p>Depois do encontro, ele me seguiu no Instagram. At&#233; a&#237;, tudo bem. Estamos todos nessa desgra&#231;a digital chamada s&#233;culo XXI e seguir algu&#233;m depois de um date n&#227;o &#233; exatamente um pedido de casamento.</p><p>O problema &#233; que ele n&#227;o me seguiu apenas com uma conta. Me seguiu com duas.</p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Duas contas, Marcelo. Duas.</span></strong></em></p><p>Um homem que mal conseguiu sustentar uma conversa no jantar e que parecia ter um ratinho assustado como esp&#237;rito animal, mas aparentemente possu&#237;a uma infraestrutura de monitoramento social digna de ag&#234;ncia de intelig&#234;ncia.</p><p>E ent&#227;o come&#231;ou a enxurrada.</p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/23f8acfe-d9b7-4cf7-8d00-d81ef8a3bf5d_350x350.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;\&quot;Eu n&#227;o gosto da sua vibe, cara.\&quot; - Jessica Day em New Girl (2011).&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/23f8acfe-d9b7-4cf7-8d00-d81ef8a3bf5d_350x350.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><p>Durante a noite inteira, Marcelo me mandou Reels.</p><p>N&#227;o um ou dois. N&#227;o uma quantidade socialmente aceit&#225;vel, como quem v&#234; um v&#237;deo engra&#231;ado, lembra da pessoa e envia com um<em> &#8220;kkkk lembrei de vc&#8221;.</em></p><p>N&#227;o. Marcelo me entupiu com uma quantidade de Reels que, se convertida em energia el&#233;trica, provavelmente abasteceria uma cidade de m&#233;dio porte por algumas horas. E o pior &#233; que a maioria deles ou tinham forte cunho sexual, ou tinham um cunho apaixonado t&#227;o deslocado da realidade que eu precisei olhar para o celular e me perguntar se aquele homem realmente esteve no mesmo encontro que eu. Porque, at&#233; onde minha mem&#243;ria alcan&#231;ava, n&#243;s sequer t&#237;nhamos nos beijado. N&#243;s n&#227;o t&#237;nhamos flertado de forma consistente. N&#243;s <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">n&#227;o </span></strong>t&#237;nhamos constru&#237;do tens&#227;o sexual. N&#243;s n&#227;o t&#237;nhamos sequer estabelecido uma conversa plenamente funcional. Eu mal tinha conseguido entender metade do que ele dizia sem precisar inclinar o corpo sobre a mesa como uma professora alfabetizando uma crian&#231;a t&#237;mida.</p><p>E, mesmo assim, ali estava Marcelo, enviando indiretas, Reels, coment&#225;rios e mensagens como se tiv&#233;ssemos protagonizado uma noite inesquec&#237;vel de paix&#227;o em alguma <em>fanfic</em> escrita por uma adolescente no Wattpad<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-17" href="#footnote-17" target="_self">17</a>.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Para que eu vou mentir? &#201; &#243;bvio que aquilo alimentou um pouquinho o meu ego.</span></strong></p><p>N&#227;o de uma forma bonita, nem de uma forma nobre (se &#233; que existe forma &#8220;nobre&#8221; de alimentar nosso ego). Porque, por mais que eu saiba racionalmente que a maioria dos homens &#233; um bando de c&#227;es no cio e que muitos s&#243; n&#227;o enfiam o pau na tomada porque d&#225; choque, ainda existe algo perversamente engra&#231;ado em perceber que um cara que voc&#234; conheceu havia menos de vinte e quatro horas, com quem teve uma conversa morna, um jantar ruim e sequer deu um selinho, estava agindo como se tivesse encontrado a mulher da vida dele entre uma ta&#231;a de vinho e uma tentativa fracassada de beijar seu cangote.</p><p>Eu ri. Por um segundo, eu ri.</p><p>Depois silenciei ele e segui a vida.</p><p>N&#227;o &#233; que eu tenha imediatamente desaparecido. No come&#231;o, eu ainda respondia quando minha paci&#234;ncia permitia. A gente chegou a conversar um pouco depois do date, principalmente nos raros momentos em que Marcelo n&#227;o estava lotando meu WhatsApp com mensagens me chamando de <em>gostosa</em>, de princesa e &#8212; aqui pe&#231;o licen&#231;a a voc&#234;s para respirar fundo antes de prosseguir &#8212; de <em>&#8220;minha&#8221;</em> princesa.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Sua?</span></strong></p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">SUA?</span></strong></p><p>Marcelo, eu n&#227;o sou nem <em>minha </em>direito. Quem dir&#225; <em>sua</em>.</p><p>Existe uma categoria muito espec&#237;fica de homem que conhece uma mulher numa sexta &#224; noite, leva para jantar no s&#225;bado e, no domingo, j&#225; come&#231;a a falar com uma intimidade propriet&#225;ria que faria qualquer mulher com instinto de sobreviv&#234;ncia procurar a sa&#237;da de emerg&#234;ncia mais pr&#243;xima. <em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#8220;Minha princesa&#8221; </span></strong></em>&#233; uma express&#227;o que, na boca de algu&#233;m com quem voc&#234; tem intimidade, &#233; maravilhosa. Na boca de uma pessoa que voc&#234; conheceu h&#225; duas madrugadas e que tentou sussurrar safadezas no seu ouvido sem ter constru&#237;do um &#250;nico m&#237;sero clima para isso, soa menos como carinho e mais como pren&#250;ncio de um document&#225;rio investigativo da Netflix.</p><p>Mas nada superou o momento em que Marcelo, dias depois, com a coragem dos emocionalmente desassistidos, me disse que, <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">se eu quisesse algo s&#233;rio, ele estava dispon&#237;vel.</span></strong></p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/cb4f2ab6-3b89-40f0-9570-2672db006e0e_720x934.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;Essa foi a cara que eu fiz quando li essa porra no meu WhatsApp.&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/cb4f2ab6-3b89-40f0-9570-2672db006e0e_720x934.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><h2><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Oi, tem vaga?</span></h2><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Meu filho. </span></strong></p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#212;, MEU FILHO!</span></strong></p><p>Deixa eu recapitular pra voc&#234;, querido leitor: o banan&#227;o n&#227;o sabia nem qual era meu nome verdadeiro. O cara achava que meu nome de batismo era Venus.</p><p>Ele n&#227;o sabia meu sobrenome, minha hist&#243;ria, minhas neuroses, minhas contradi&#231;&#245;es, minhas manias, meus medos, meus traumas, minhas vontades, minhas pequenas crueldades, minhas grandes vergonhas, nada. Ele sabia, no m&#225;ximo, que eu gostava de conversar, que eu frequentava Pinheiros e que tinha ficado bonita naquele dia porque eu mesma fiz quest&#227;o de me montar para sair. E, com esse conjunto absolutamente miser&#225;vel de informa&#231;&#245;es, ele decidiu que estava <em>dispon&#237;vel </em>para algo s&#233;rio comigo.</p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Oh, meu deus! Que sorte a minha! Ele est&#225; dispon&#237;vel!</span></strong></em></p><p><em>Pena que eu n&#227;o tinha perguntado nada.</em></p><p>&#201; exatamente esse o tipo de coisa que me faz desconfiar que<strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> a maioria das pessoas n&#227;o se apaixona por n&#243;s. Elas se apaixonam pela vaga. Pela possibilidade. Pelo cargo aberto.</span></strong></p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">A maioria das pessoas &#233; t&#227;o carente que se apaixona pela </span></strong><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">ideia</span></strong></em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">, pela fantasia de preencher um espa&#231;o emocional vazio com a primeira pessoa minimamente interessante que atravessa a tela do celular usando um batom bonito e uma frase espirituosa.</span></strong></p><p>N&#227;o era sobre mim. N&#227;o tinha como ser sobre mim. Marcelo n&#227;o me conhecia o suficiente para querer algo comigo; no m&#225;ximo, conhecia o suficiente da persona que apresentei para projetar em mim uma vers&#227;o conveniente de algu&#233;m que <em>talvez </em>coubesse na car&#234;ncia dele. E n&#227;o existe nada mais broxante do que perceber que voc&#234; n&#227;o est&#225; sendo desejada como pessoa, mas recrutada como solu&#231;&#227;o.</p><p>E aqui entra a parte em que eu gostaria muito de dizer que fui madura, sensata e emocionalmente respons&#225;vel.</p><p>N&#227;o fui.</p><p>Eu poderia ter me comunicado como uma adulta funcional. Poderia ter dito: <em>&#8220;Olha, Marcelo, obrigada pelo jantar, mas n&#227;o senti qu&#237;mica e acho melhor n&#227;o continuarmos conversando.&#8221;</em> Poderia ter sido direta, educada, respeitosa. Poderia ter evitado qualquer ambiguidade e encerrado aquilo com a dignidade m&#237;nima que todo ser humano merece, mesmo quando se comporta como uma pulga aventureira enviada pelo algoritmo para testar nossa paci&#234;ncia. Poderia, inclusive, ter bancado a Tech Recruiter<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-18" href="#footnote-18" target="_self">18</a> do LinkedIn e mandado algo como:</p><blockquote><p><em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#8220;Prezado Marcelo,</span></em></p><p><em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Ap&#243;s cuidadosa avalia&#231;&#227;o dos indicadores apresentados durante nossa intera&#231;&#227;o presencial, conclu&#237;mos que n&#227;o haver&#225; avan&#231;o para as pr&#243;ximas etapas do processo seletivo.</span></em></p><p><em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Entre os principais fatores observados, destacamos: incompatibilidade est&#233;tica relevante, excesso de emo&#231;&#227;o para uma pessoa que desconhecia meu nome de batismo, baixa performance comunicacional, tentativa de intimidade f&#237;sica sem constru&#231;&#227;o pr&#233;via de clima e uma energia geral de p&#227;o de forma sem casca.</span></em></p><p><em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Agradecemos seu interesse e desejamos sucesso em seus pr&#243;ximos processos seletivos afetivos.&#8221;</span></em></p></blockquote><p>Mas eu n&#227;o fiz isso. Eu simplesmente dei ghosting nele. E aqui n&#227;o existe defesa, caro leitor. Apenas confiss&#227;o.</p><p>Eu sumi porque fui covarde e, possivelmente, cretina. Simples assim. Sumi porque n&#227;o queria lidar com a rea&#231;&#227;o dele. Sumi porque estava cansada. Sumi porque era mais f&#225;cil deixar a conversa morrer do que explicar para um homem com 30 anos nas costas que pagar uma janta n&#227;o compra acesso ao meu corpo, ao meu tempo, &#224; minha aten&#231;&#227;o, ao meu WhatsApp ou ao meu futuro hipot&#233;tico. Sumi porque, &#224;s vezes, a gente n&#227;o quer ser pedag&#243;gica. &#192;s vezes, a gente n&#227;o quer ser gentil. &#192;s vezes, a gente s&#243; quer que a pessoa entenda o &#243;bvio sem que seja necess&#225;rio redigir um memorando afetivo em tr&#234;s vias.</p><p>Isso justifica alguma coisa ou me torna certa? <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Com certeza n&#227;o. </span></strong></p><p>Depois que percebeu o ghosting <em><s>(e aqui preciso reconhecer que a lesma demorou, mas eventualmente chegou ao destino),</s></em> eu jurei que Marcelo seguiria o roteiro cl&#225;ssico de muitos homens rejeitados na internet: achei que viria me xingar, que me chamaria de puta, cadela, interesseira, rodada, ingrata, oportunista, ou qualquer varia&#231;&#227;o lingu&#237;stica do desespero masculino quando descobre que uma mulher pode aceitar um jantar e ainda assim n&#227;o querer sentar nele depois. Achei que ele pediria um Pix referente &#224; conta do restaurante, talvez acrescido de danos morais, taxa de deslocamento e corre&#231;&#227;o monet&#225;ria pela humilha&#231;&#227;o de n&#227;o ter sido beijado tal qual o famigerado pr&#237;ncipe anf&#237;bio da hist&#243;ria de A Princesa e o Sapo<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-19" href="#footnote-19" target="_self">19</a>.</p><p>Mas, por algum milagre, ele n&#227;o fez isso.</p><p>Em vez disso, Marcelo escolheu um caminho alternativo: ficou me dando unfollow e follow de novo no Instagram. Repetidamente. Como se aquilo fosse uma estrat&#233;gia. Como se eu, ao ver a notifica&#231;&#227;o, fosse levar a m&#227;o ao peito, encarar o horizonte e dizer: <em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#8220;Meu Deus, Marcelo me seguiu novamente. Talvez eu tenha cometido um erro. Talvez o amor da minha vida fosse, esse tempo todo, o homem que sequer conseguiu dar boa noite pra recepcionista do restaurante.&#8221;</span></strong></em></p><p>Chamou minha aten&#231;&#227;o, &#233; verdade. Mas n&#227;o da forma que ele queria.</p><p>O bloqueei no Instagram (as duas contas) e no WhatsApp.</p><p><em>Porra, Marcelo. &#201; por isso que voc&#234; t&#225; solteiro, Marcelo!</em></p><p>&#201; aqui que esta segunda hist&#243;ria deixa de ser apenas um relato vergonhoso sobre um date ruim, uma janta paga e um ghosting praticado por esta humilde narradora pecadora, para se tornar parte da pergunta maior desta edi&#231;&#227;o. Porque, depois de ouvir hist&#243;rias como a de B&#225;rbara e Mariana, depois de revisitar a minha pr&#243;pria aventura com Marcelo, depois de lembrar das vezes em que eu tamb&#233;m j&#225; fui abandonada no limbo digital, n&#227;o consegui evitar aquela pergunta cl&#225;ssica, cafona e muito conveniente para uma mulher escrevendo uma coluna inspirada na Carrie Bradshaw.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-2?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Compartilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-2?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share"><span>Compartilhar</span></a></p><div><hr></div><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e0579ef0-e8d1-4f88-b355-e488096bf14d_735x588.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;E eu n&#227;o pude deixar de me perguntar...&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e0579ef0-e8d1-4f88-b355-e488096bf14d_735x588.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><h2><em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">And I couldn&#8217;t help but wonder&#8230;</span></em></h2><h4>Quem realmente tem medo de ghosting?</h4><p><strong>E por que, afinal, ele acontece?</strong></p><p>As evid&#234;ncias dos nossos estudos de caso parecem apontar para uma resposta pouco rom&#226;ntica: <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">ghosting acontece por covardia. </span></strong>Ponto.</p><p>&#192;s vezes &#233; medo de comunicar. &#192;s vezes &#233; pregui&#231;a emocional. &#192;s vezes &#233; a completa incapacidade de sustentar o desconforto de dizer &#8220;n&#227;o&#8221; para algu&#233;m que espera ouvir &#8220;sim&#8221;. O ghosting &#233;, muitas vezes, a retirada estrat&#233;gica de quem n&#227;o quer lidar com o impacto da pr&#243;pria decis&#227;o no rosto do outro. &#201; a pessoa tirando o pr&#243;prio cu da reta, apagando a luz e fingindo que, se n&#227;o responder, a situa&#231;&#227;o deixa de existir.</p><p>E eu sei que, dito assim, parece simples. Porque, em tese, <em><strong>&#233;</strong></em> simples. Bastaria dizer &#8220;n&#227;o quero continuar&#8221;, &#8220;n&#227;o senti qu&#237;mica&#8221;, &#8220;n&#227;o estamos na mesma p&#225;gina&#8221;, &#8220;n&#227;o vai rolar&#8221;. S&#227;o frases curtas, diretas, perfeitamente poss&#237;veis de serem digitadas por qualquer pessoa com polegar opositor e um m&#237;nimo de car&#225;ter. <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">A maturidade afetiva, no fim das contas, talvez seja s&#243; isso: a disposi&#231;&#227;o de causar uma pequena dor honesta em vez de deixar algu&#233;m apodrecendo dentro de uma d&#250;vida.</span></strong></p><p>Mas a vida adulta, infelizmente, n&#227;o costuma operar na clareza moral dos manuais de comportamento.</p><p>Porque existe ghosting e existe <em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">ghosting</span></strong></em>.</p><p>Uma coisa &#233; desaparecer da vida de uma pessoa com quem voc&#234; construiu v&#237;nculo, intimidade, expectativa, rotina e algum tipo de promessa, mesmo que n&#227;o verbalizada. Outra coisa &#233; sumir da conversa de um estranho que mal chegou a virar conhecido. Ambas s&#227;o covardia, sim. Ambas s&#227;o falta de comunica&#231;&#227;o. Ambas podem revelar uma incapacidade profundamente contempor&#226;nea de lidar com frustra&#231;&#227;o, rejei&#231;&#227;o e encerramento. Mas fingir que os dois casos t&#234;m o mesmo peso seria desonestidade intelectual &#8212; e olha que desonestidade intelectual &#233; uma &#225;rea em que a internet vem se especializando com louvor.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Existe uma diferen&#231;a entre abandonar algu&#233;m no meio de uma hist&#243;ria e simplesmente n&#227;o querer sequer escrever o pr&#243;logo com ela.</span></strong></p><p>Quando uma pessoa deposita sentimentos reais em voc&#234;, quando existe const&#226;ncia, quando existe presen&#231;a, quando existe uma constru&#231;&#227;o emocional que autoriza o outro a esperar alguma coisa, <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">o desaparecimento vira viol&#234;ncia.</span></strong> N&#227;o viol&#234;ncia no sentido hist&#233;rico e inflacionado que algumas pessoas usam para transformar qualquer desconforto em trauma cinematogr&#225;fico, mas viol&#234;ncia no sentido mais simples e cruel da palavra:<strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> voc&#234; causa um dano porque se recusa a sustentar a consequ&#234;ncia da sua pr&#243;pria escolha. </span></strong>Voc&#234; deixa o outro sem resposta, sem ch&#227;o, sem ponto final. E, &#224;s vezes, a aus&#234;ncia de ponto final prende uma pessoa por muito mais tempo do que uma rejei&#231;&#227;o direta prenderia.</p><p>Mas quando falamos de algu&#233;m que voc&#234; viu uma vez, por poucas horas, em um encontro ruim, sem beijo, sem qu&#237;mica, sem promessa, sem hist&#243;ria e sem qualquer contrato emocional minimamente estabelecido, talvez o ghosting seja menos uma trag&#233;dia e mais um sintoma menor de um sistema j&#225; falido.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Ainda &#233; covarde? Com toda certeza.</span></strong> Ainda &#233; feio. Ainda seria melhor falar. Mas <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">talvez nem todo desaparecimento mere&#231;a o mesmo luto.</span></strong> Talvez nem toda conversa interrompida seja um abandono. Talvez algumas pessoas n&#227;o tenham partido o nosso cora&#231;&#227;o; talvez elas apenas tenham sa&#237;do de uma sala onde nunca chegaram a entrar de verdade.</p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c5cf0832-846e-407a-8161-61bc03dfd4c2_736x920.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c5cf0832-846e-407a-8161-61bc03dfd4c2_736x920.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><p></p><p>Eu j&#225; recebi ghosting. E, sim, me incomodou.</p><p>O mais recente, inclusive, foi de um carinha bonito, inteligente, com iniciativa e uma pegada t&#227;o gostosa que eu, at&#233; hoje, tenho certa raiva retrospectiva de mim mesma por n&#227;o ter aceitado a proposta de ir embora com ele quando tive a chance.</p><p>No dia seguinte, ele sumiu. Evaporou. Desapareceu como se tivesse sido convocado por uma entidade superior dos homens gostosos que aparecem uma vez na sua vida apenas para te lembrar que o universo adora sacanear mulheres dif&#237;ceis.</p><p>E eu fiquei passando vontade e irritada. N&#227;o porque estiv&#233;ssemos apaixonados, n&#227;o porque houvesse algo profundo ali, n&#227;o porque eu tivesse planejado a porra da nossa aposentadoria conjunta em Ilhabela. Mas porque eu queria uma pr&#243;xima oportunidade. Eu queria descobrir se aquele fogo todo realmente causaria um inc&#234;ndio dentro do quarto, ou se ia ser mais uma <em>pataquada </em>com trilha sonora digna de efeitos do programa do Rodrigo Faro<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-20" href="#footnote-20" target="_self">20</a>. Eu queria, sendo muito honesta, uma segunda dose daquele problem&#227;o que aquele garoto parecia ser. </p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Mas ser&#225; que esse ghosting importou mesmo? Ou eu apenas fiquei contrariada porque aquilo mexeu com meu ego? </span></strong></p><p>Talvez parte da dor do ghosting esteja justamente a&#237;. N&#227;o necessariamente na perda da pessoa, mas na perda do controle sobre o fim.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Quando algu&#233;m some, n&#227;o nos deixa participar do encerramento.</span></strong> N&#227;o nos permite reagir, perguntar, discordar, aceitar, recusar, responder com dignidade ou fazer uma piada ruim para salvar nosso orgulho. A pessoa simplesmente decide sozinha que acabou, e n&#243;s ficamos do lado de fora da pr&#243;pria hist&#243;ria, olhando pela janela enquanto algu&#233;m muda a fechadura.</p><p>Talvez por isso ghosting incomode tanto mesmo quando vem de quase desconhecidos. Ele n&#227;o precisa destruir um cora&#231;&#227;o para ferir um ego. E, convenhamos, <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#224;s vezes o ego grita mais alto do que o cora&#231;&#227;o justamente porque &#233; ele quem passa a maior parte da vida tentando fingir que n&#227;o se importa.</span></strong></p><p>No fim, n&#227;o acho que exista uma resposta limpa. Ghosting &#233; covardia, sim, mas tamb&#233;m &#233; sintoma.</p><p>&#201; o sintoma de uma vida amorosa transformada em fila, cat&#225;logo, entrevista, triagem, teste A/B, processo seletivo e descarte silencioso. Sintoma de uma gera&#231;&#227;o exausta, ansiosa, hiperconectada e paradoxalmente incapaz de sustentar uma conversa desconfort&#225;vel por cinco minutos. Sintoma de gente que quer intimidade sem responsabilidade, desejo sem consequ&#234;ncia, intensidade sem compromisso e acesso emocional sem o trabalho banal de tratar o outro como pessoa.</p><p>Mariana fez isso com B&#225;rbara quando vendeu intensidade sem querer compromisso e depois desapareceu deixando uma mulher transtornada escrevendo textos de amor com gosto de &#243;dio. Eu fiz isso com Marcelo quando preferi sumir a deixar claro que acho ele um doente e que n&#227;o queria comprar uma casa no Hawaii e ter cinco filhos e um cachorro com ele. Marcelo, por sua vez, sendo o banan&#227;o do caralho que &#233;, fez sua pr&#243;pria contribui&#231;&#227;o para seu pr&#243;prio colapso ao confundir um jantar med&#237;ocre com pr&#233;via de relacionamento s&#233;rio e transformar rejei&#231;&#227;o em coreografia pat&#233;tica de unfollow e follow no Instagram.</p><p>Todos culpados. Alguns mais rid&#237;culos que outros.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Talvez seja isso que torne o ghosting t&#227;o interessante e t&#227;o insuport&#225;vel: ele revela nossa incapacidade coletiva de lidar com o fim.</span></strong></p><p>Ningu&#233;m sabe encerrar nada. Ningu&#233;m sabe dizer &#8220;n&#227;o&#8221;. Ningu&#233;m sabe <em>ouvir </em>&#8220;n&#227;o&#8221;. Ningu&#233;m sabe ser rejeitado sem transformar isso em humilha&#231;&#227;o p&#250;blica dentro da pr&#243;pria cabe&#231;a. Ningu&#233;m sabe rejeitar sem sentir que est&#225; cometendo um crime. Ent&#227;o a gente some, bloqueia, silencia, arquiva, visualiza e n&#227;o responde, enquanto finge que a tecnologia complicou aquilo que, na verdade, sempre foi profundamente humano: o medo de olhar para algu&#233;m e admitir que o desejo acabou, ou pior, que talvez nunca tenha come&#231;ado.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">E ainda querem me dizer que amor existe?</span></strong></p><p><em>Hahahaha.</em></p><p>A an&#225;lise desta segunda edi&#231;&#227;o continua me fazendo crer numa tese pouco cient&#237;fica, por&#233;m bastante honesta: <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">n&#227;o existe amor em S&#227;o Paulo.</span></strong> Existe proje&#231;&#227;o. Existe car&#234;ncia. Existe tes&#227;o mal administrado. Existe gente bonita com ex mal resolvida, homem emocionado com duas contas no Instagram, mulher covarde escrevendo newsletter e uma multid&#227;o de pessoas tentando transformar desconhecidos em destino porque est&#227;o cansadas demais para atravessar a pr&#243;pria solid&#227;o sem muleta.</p><p>Talvez a parte mais constrangedora de tudo isso seja admitir que eu, a rom&#226;ntica oficial desta espelunca, a mulher que vive dizendo acreditar no amor enquanto escreve p&#225;ginas e p&#225;ginas sobre sua fal&#234;ncia, talvez n&#227;o seja t&#227;o rom&#226;ntica assim.</p><p>Ou talvez seja justamente por ser rom&#226;ntica que eu seja t&#227;o cruel.</p><p>Porque, <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">quando a gente acredita demais no amor, qualquer coisa menor do que ele come&#231;a a parecer uma ofensa pessoal.</span></strong></p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/b895d599-0835-49aa-a68f-f9d708e19b47_736x552.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;\&quot;Esse &#233; o nosso hobby. Algumas pessoas se dedicam a trabalhos manuais e art&#237;sticos. N&#243;s julgamos.\&quot; - Stanford Blatch em Sex and the City (1998)&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/b895d599-0835-49aa-a68f-f9d708e19b47_736x552.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div><hr></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://retrograda.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Puta post longo da porra, merm&#227;o. Se voc&#234; teve a paci&#234;ncia de ler at&#233; o final, d&#225; uma chance pra essa newsletter. Assina a&#237;, bobinho. &#201; de gra&#231;a. Bota seu e-mail a&#237;.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><div><hr></div><h3><span>&#129514;</span><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> Status da Pesquisa</span></h3><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Hip&#243;tese atual:</span></strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> </span>N&#227;o existe amor em S&#227;o Paulo.</em></p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Evid&#234;ncias coletadas:</span></strong><span> </span>Muitas &#8212; sustentadas, principalmente, por gatas emocionalmente indispon&#237;veis que ainda amam a ex, nerds saborosos que desmarcam dates e gostosos tatuados que te pegam de jeito pra depois evaporarem no ar.</em></p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Evid&#234;ncias contr&#225;rias:</span></strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> </span>Banan&#245;es de 1,70m que querem relacionamento s&#233;rio com quem mal conhecem.</em></p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">N&#237;vel de confian&#231;a da pesquisadora:</span></strong> Em queda livre.</em></p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">N&#237;vel de acidez:</span><span> </span></strong><span>Elevad&#237;ssimo. </span></em></p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Risco de vi&#233;s emocional:</span></strong><span> </span>Moderado &#8212; PH equilibrado devido ao alto n&#237;vel de gargalhadas proporcionadas pelo experimento.</em></p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Pr&#243;ximo passo da pesquisa:</span></strong> Continuar me envolvendo em situa&#231;&#245;es que claramente render&#227;o material para futuras publica&#231;&#245;es.</em></p><h2>&#129514; <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Na pr&#243;xima edi&#231;&#227;o</span></strong></h2><p>Por que algumas bandeiras vermelhas s&#227;o t&#227;o bonitas tremulando ao vento que ignor&#225;-las parece ser falta de educa&#231;&#227;o? Bem, eu tenho uma pergunta melhor: j&#225; que gente filha da puta vai prometer intensidade de qualquer maneira mesmo... por que n&#227;o aproveitar a massagem no ego enquanto dura? Em outras palavras: <em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">em lovebombing n&#227;o se cai, se surfa.</span></strong></em></p><p></p><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;15cedabe-bde4-4eed-ad94-41938413c212&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;lovebombing&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;Cartografia do Desafeto #3&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:328100842,&quot;name&quot;:&quot;venus edain &#10023;&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;&#10022; And I couldn't help but wonder...&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fb217ac1-f81b-4312-8059-fea5377b44b3_1440x1440.webp&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-07-02T15:18:08.982Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/32ff0d6c-c1ea-42c0-9c7a-4724cd32e62d_700x700.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-3&quot;,&quot;section_name&quot;:&quot;&#10023; Cartografia do Desafeto &#10023;&quot;,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:203285905,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:1,&quot;comment_count&quot;:2,&quot;publication_id&quot;:4486627,&quot;publication_name&quot;:&quot;Retr&#243;grada &#10023;&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!q8SY!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd3b72cac-bd13-45f3-9725-b90c46cb15cd_1280x1280.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Do ingl&#234;s, &#8220;<strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">bandeira vermelha</span></strong>&#8221;. No vocabul&#225;rio afetivo contempor&#226;neo, &#233; todo sinal de alerta que aparece no comportamento de uma pessoa antes que ela oficialmente transforme sua vida amorosa num epis&#243;dio de <em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Casos de Fam&#237;lia</span></em> gravado dentro da sua cabe&#231;a. Pode se manifestar de v&#225;rias formas: falar mal demais da ex, dizer que &#8220;n&#227;o quer nada s&#233;rio&#8221; enquanto age como se estivesse ensaiando votos de casamento, chamar uma mulher de &#8220;minha&#8221; depois de um jantar, mandar Reels sexuais sem ter recebido sequer um selinho ou escrever &#8220;oque&#8221; junto. Em teoria, serve para nos proteger. Na pr&#225;tica, a gente costuma ver a bandeira vermelha tremulando lindamente ao vento e pensar: &#8220;mas e se for s&#243; decora&#231;&#227;o?&#8221;</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Refer&#234;ncia <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Ana_Beatriz_Barbosa_Silva">&#224;quela psiquiatra brasileira</a> que circula pela internet como uma <a href="https://vt.tiktok.com/ZSCFdYC3f/">esp&#233;cie de entidade onipresente do diagn&#243;stico popular</a>, frequentemente invocada em cortes de podcast, v&#237;deos motivacionais, discuss&#245;es sobre narcisismo e Borderline e coment&#225;rios de gente que acabou de aprender a palavra &#8220;psicopata&#8221; e decidiu aplic&#225;-la ao ex, ao chefe, &#224; m&#227;e, ao ficante e ao atendente do iFood. Aqui, o uso &#233; menos cient&#237;fico e mais cultural: uma abrevia&#231;&#227;o para esse fen&#244;meno maravilhoso em que todo mundo passa tr&#234;s minutos no TikTok e sai convencido de que possui forma&#231;&#227;o cl&#237;nica suficiente para diagnosticar metade da popula&#231;&#227;o brasileira.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Antes que apare&#231;a algum Capit&#227;o &#211;bvio nos coment&#225;rios pra falar <em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#8220;MAS VENUS, E SE A MINHA EX TENTOU MATAR A MINHA V&#211; COM UMA MOTOSSERRA???&#8221;</span></strong></em>: obviamente n&#227;o estou falando de ex-parceiros abusivos, violentos ou criminosos, ou de situa&#231;&#245;es traum&#225;ticas que legitimamente deixam marcas profundas. Estou falando da ex comum. A ex babaca. O ex filho da puta. O t&#233;rmino normal e ordin&#225;rio que acontece bilh&#245;es de vezes por dia no mundo. Se a pessoa continua dedicando discursos inteiros ao indiv&#237;duo que terminou com ela tr&#234;s anos atr&#225;s s&#243; porque ele era um escroto gen&#233;rico, tenho p&#233;ssimas not&#237;cias: esse aluguel emocional continua sendo pago em dia. <em>Newsflash</em>, vadia: todo dia nasce um filho da puta novo no planeta Terra, e eles n&#227;o v&#227;o deixar de existir t&#227;o cedo. &#201; prov&#225;vel, inclusive, que <em>voc&#234; </em>tamb&#233;m seja um filho da puta e n&#227;o tenha percebido ainda. Lide com isso.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Estrat&#233;gia afetiva na qual uma pessoa te enche de aten&#231;&#227;o, elogios, promessas, intensidade, planos futuros e frases supostamente profundas em um intervalo de tempo t&#227;o curto que qualquer mulher com um m&#237;nimo de instinto de sobreviv&#234;ncia deveria acender um sinal vermelho, chamar uma amiga e consultar os b&#250;zios. O problema &#233; que, &#224;s vezes, a pessoa &#233; bonita, cheirosa e sabe falar exatamente o que a gente quer ouvir. A&#237; o sinal vermelho come&#231;a a parecer ilumina&#231;&#227;o rom&#226;ntica.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>Do ingl&#234;s <em>delusional</em>. Em portugu&#234;s claro: iludida, delirante, emocionalmente criativa. Estado mental de uma idiota que ainda tem esperan&#231;as de que exista amor em SP. Spoiler: n&#227;o existe.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>Criaturinhas fict&#237;cias do universo de <em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">A Fant&#225;stica F&#225;brica de Chocolate</span></em>, frequentemente lembradas pela baixa estatura, pela est&#233;tica peculiar e surgirem cantando uma li&#231;&#227;o de moral depois que uma crian&#231;a se fodia grandemente no filme. Neste texto, a refer&#234;ncia n&#227;o possui qualquer compromisso com a justi&#231;a, a delicadeza ou a gentileza. &#201; apenas uma ofensa visualmente eficiente. &#192;s vezes a literatura serve justamente para isso.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="#footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><p>Cantor canadense absurdamente gostoso que serviu como padr&#227;o de compara&#231;&#227;o para homens brancos gen&#233;ricos durante boa parte da d&#233;cada de 2010. Tamb&#233;m protagonizou, ao lado de Camila Cabello, uma novela rom&#226;ntica t&#227;o longa e confusa que deixou metade do Twitter em estado permanente de an&#225;lise comportamental.</p><p>Se voc&#234; n&#227;o sabe quem &#233; Shawn Mendes ou Camila Cabello, existem tr&#234;s possibilidades: voc&#234; tem mais de 40 anos, vive completamente desconectado da internet ou &#233; h&#233;tero.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-8" href="#footnote-anchor-8" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">8</a><div class="footnote-content"><p>Mulher conhecida por ter sido listada durante anos como dona de um dos QIs mais altos j&#225; registrados no mundo. Aqui, aparece como forma dram&#225;tica e levemente rid&#237;cula de dizer: <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#8220;n&#227;o estou afirmando ser um g&#234;nio absoluto da humanidade, mas tamb&#233;m n&#227;o vou fingir que sou uma porta s&#243; para um homem med&#237;ocre se sentir confort&#225;vel&#8221;</span></strong>. Uma refer&#234;ncia &#250;til para quando a mod&#233;stia perform&#225;tica come&#231;a a parecer mais cansativa do que a arrog&#226;ncia honesta.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-9" href="#footnote-anchor-9" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">9</a><div class="footnote-content"><p><em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">I touched some nerve there, huh?</span></em></p><p>Lembrete necess&#225;rio, j&#225; que teve homem que chegou chorando nas minhas DMs <em><s>(HAHAHA t&#244; me sentindo famosa)</s></em> sobre &#8220;pap&#233;is de g&#234;nero&#8221; como se tivessem acabado de descobrir o feminismo atrav&#233;s de um corte ruim de podcast no TikTok: <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">eu sou uma mulher bissexual</span></strong>, gat&#245;es. T&#227;o enchendo a boca pra falar de papel de g&#234;nero&#8230; mas&#8230; papel de <em>qual</em> g&#234;nero, exatamente, se eu gosto de todos? </p><p><strong>Minhas prefer&#234;ncias valem para homens <mark data-color="#ffd966" style="background-color: rgb(255, 217, 102); color: rgb(0, 0, 0);">e</mark> para mulheres.</strong> Quando digo que gosto de gente com iniciativa, estou falando de <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">gente</span></strong>. N&#227;o de cromossomo, n&#227;o de p&#234;nis, n&#227;o de performance obrigat&#243;ria de masculinidade, n&#227;o de contrato heteronormativo assinado com firma reconhecida.</p><p>Porque, pelo visto, alguns de voc&#234;s leram &#8220;eu gosto de gente com iniciativa&#8221; e entenderam <em>&#8220;por favor, venham at&#233; minha DM explicar por que eu estou errada por gostar do que gosto!&#8221;.</em> Sinto muito em acabar com seus sonhos, fofinhos, mas nenhum PowerPoint no mundo que voc&#234;s me apresentem vai fazer com que eu mude de ideia, e nenhum choro vai fazer com que eu &#8212; ou qualquer outra mulher com prefer&#234;ncias parecidas &#8212; escolha voc&#234;s s&#243; porque voc&#234;s ficaram frustradinhos com a rejei&#231;&#227;o imagin&#225;ria que sofreram ao ler um m&#237;sero par&#225;grafo na internet.</p><p><strong>E essa talvez tenha sido a parte mais pat&#233;tica de todas.</strong> Porque, em determinado momento, o choror&#244; come&#231;ou a soar menos como um debate sobre pap&#233;is de g&#234;nero e mais como uma crian&#231;a puxando a barra da saia da mam&#227;e e pedindo: <em>&#8220;olha pra mim, me valida, me escolhe, diz que eu tamb&#233;m sou desej&#225;vel!!!&#8221;.</em> <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Meu bem, eu sinto muito, mas eu n&#227;o sou sua m&#227;e. </span></strong>N&#227;o estou aqui para curar sua ferida de rejei&#231;&#227;o, acariciar sua inseguran&#231;a ou fingir atra&#231;&#227;o por uma din&#226;mica que n&#227;o me interessa s&#243; pra voc&#234; se sentir inclu&#237;do no mercado afetivo.</p><p>O mais engra&#231;ado &#233; que, quando alguns descobriram que sou bissexual e que o que eu curto em homens tamb&#233;m curto em mulheres &#8212; ou seja, quando o argumento pregui&#231;oso sobre &#8220;pap&#233;is de g&#234;nero&#8221; caiu de bunda no ch&#227;o &#8212; come&#231;ou a segunda fase do espet&#225;culo: <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">as proje&#231;&#245;es.</span></strong></p><p><em>&#8220;Ah, mas ent&#227;o voc&#234; quer dizer que n&#227;o quer fazer nada&#8230;&#8221;, &#8220;ah, mas ent&#227;o o outro&#8230; digo&#8230; a outra pessoa&#8230; ela &#233; obrigada a&#8230;&#8221;, &#8220;ah, mas ent&#227;o a sua prefer&#234;ncia significa que&#8230;&#8221;.</em> KKKKKKK pelo amor de Exu, meus amores! Calma. Respirem. Daqui a pouco vai chegar gente dizendo:<strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> &#8220;Ah, Venus, ent&#227;o voc&#234; quer todos os homens mortos e gostaria de ser carregada tal qual Cle&#243;patra numa liteira dourada por seis escravos musculosos enquanto exige que algu&#233;m descasque uvas na sua boca? &#201; isso mesmo que voc&#234; est&#225; defendendo, Venus?&#8221;</span></strong></p><p>Olha, veja bem: ser carregada tal qual Cle&#243;patra parece uma experi&#234;ncia interessante. N&#227;o vou mentir. Mas n&#227;o foi isso que eu falei.</p><p>Isso &#233; voc&#234;s lendo coisas que n&#227;o est&#227;o escritas porque uma prefer&#234;ncia pessoal encostou exatamente na ferida que voc&#234;s fingem n&#227;o ter. <strong>Eu disse que gosto de gente com iniciativa. Simples assim.</strong> S&#243; isso. O texto est&#225; claro, mastigado, elucidativo e cheio de legendas para quem chegou cansado do trabalho. Se mesmo assim voc&#234;s precisam transformar uma frase simples numa teoria conspirat&#243;ria sobre mulheres, g&#234;nero, domina&#231;&#227;o, passividade, masculinidade e o fim da civiliza&#231;&#227;o ocidental por causa de uma merda de conta paga <em><s>(c&#233;us, como os h&#233;teros sofrem)</s></em>, talvez o problema n&#227;o esteja no texto. Talvez esteja no fato de que<strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> voc&#234;s s&#227;o um bando de banan&#245;es inseguros mesmo, provavelmente primos do Marcelo, ou da&#237; para pior.</span></strong></p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">As pessoas s&#227;o diferentes, lide com isso.</span></strong> Din&#226;micas que funcionam para mim podem n&#227;o funcionar para voc&#234;, <strong>e isso &#233; perfeitamente normal</strong>. Em nenhum momento eu disse que &#233; errado ser mais passivo, preferir ser conduzido ou gostar de outra configura&#231;&#227;o. <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Eu disse que eu n&#227;o gosto.</span></strong> Simples assim. E, se uma mulher dizendo &#8220;eu n&#227;o gosto disso&#8221; j&#225; &#233; suficiente para abrir um buraco emocional enorme no meio do seu peito e alugar um triplex na sua cabe&#231;a, talvez o problema n&#227;o seja a minha prefer&#234;ncia. Talvez seja a sua necessidade desesperada de transformar qualquer <em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">n&#227;o </span></em>em humilha&#231;&#227;o pessoal.</p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Pode chorar o quanto quiser.</span></strong> Pode escrever tese, coment&#225;rio, thread, manifesto e carta aberta para a ONU dos homens n&#227;o escolhidos e n&#227;o comidos com cintaralho. No fim, eu vou continuar escolhendo quem me atrai <em>(spoiler: <strong>n&#227;o </strong>&#233; voc&#234;)</em>, voc&#234; vai continuar tendo o direito de procurar algu&#233;m que goste da sua din&#226;mica, e todos n&#243;s seguiremos vivos nesse planeta com oito bilh&#245;es de pessoas. <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">V&#225; atr&#225;s de quem combina com voc&#234;. Ou de terapia. Preferencialmente os dois.</span></strong></p><p><strong>O que n&#227;o d&#225; &#233; transformar a </strong><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">sua </span></strong></em><strong>inseguran&#231;a em problema </strong><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">meu</span></strong></em><strong>. </strong>Porque a&#237; <em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">eu </span></em>serei obrigada a transformar <em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">voc&#234; </span></em>em um personagem de uma edi&#231;&#227;o desta coluna. </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-10" href="#footnote-anchor-10" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">10</a><div class="footnote-content"><p><a href="https://vt.tiktok.com/ZSCFdUs61/">&#193;udio/meme do TikTok</a> usado por pessoas cronicamente online para expressar aquele momento muito espec&#237;fico em que voc&#234; percebe que algu&#233;m interessante talvez tenha sido emocionalmente sequestrado por outra pessoa, outro contatinho, outra ficante, outro match ou qualquer entidade misteriosa que surgiu entre uma mensagem respondida em cinco minutos e outra respondida em cinco horas. N&#227;o &#233; exatamente ci&#250;mes. &#201; mais uma mistura de intui&#231;&#227;o, humilha&#231;&#227;o preventiva e paranoia algor&#237;tmica. Em outras palavras: romance moderno.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-11" href="#footnote-anchor-11" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">11</a><div class="footnote-content"><p>Nome usado popularmente para se referir a tribunais internacionais sediados em Haia, na Holanda, onde se julgam quest&#245;es muito mais graves do que uma mulher dizendo que um date mentiu a pr&#243;pria altura num app. Neste texto, aparece como exagero dram&#225;tico porque aparentemente algumas pessoas tratam opini&#227;o sobre homem feio como crime contra a humanidade.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-12" href="#footnote-anchor-12" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">12</a><div class="footnote-content"><p>Modelo brit&#226;nica, &#237;cone fashion dos anos 90 e uma das santas padroeiras da magreza extrema que assombrou o imagin&#225;rio fashion da internet. A ela &#233; popularmente atribu&#237;da a frase <em>&#8220;nothing tastes as good as skinny feels&#8221;</em>, slogan da est&#233;tica que o Tumblr de 2014 transformou em religi&#227;o.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-13" href="#footnote-anchor-13" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">13</a><div class="footnote-content"><p>Reality show tamb&#233;m conhecido como <em>My 600-lb Life</em>, no qual pessoas com obesidade severa tentam perder peso enquanto o p&#250;blico assiste tudo com uma mistura desconfort&#225;vel de curiosidade, culpa e vontade de nunca mais abrir o iFood. Aqui, usado apenas como refer&#234;ncia exagerada para dizer: <em>&#8220;calma, eu posso n&#227;o ser a Kate Moss, mas tamb&#233;m n&#227;o t&#244; enganando ningu&#233;m no aplicativo com uma realidade paralela.&#8221;</em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-14" href="#footnote-anchor-14" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">14</a><div class="footnote-content"><p>Disse eu, depois de esculachar o homem.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-15" href="#footnote-anchor-15" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">15</a><div class="footnote-content"><p>Subesp&#233;cie particularmente barulhenta da internet masculina, geralmente composta por homens que transformaram rejei&#231;&#227;o, ressentimento e fracasso afetivo em teoria social de baixa qualidade. Costumam acreditar que mulheres s&#227;o interesseiras, cru&#233;is, manipuladoras e respons&#225;veis por todas as trag&#233;dias da vidinha med&#237;ocre deles, incluindo, mas n&#227;o se limitando a: solid&#227;o, pobreza, fracasso acad&#234;mico e/ou corporativo, calv&#237;cie, falta de carisma e incapacidade de fazer uma mulher rir sem parecer um funcion&#225;rio do setor de reclama&#231;&#245;es da masculinidade. Em geral, falam muito sobre &#8220;energia feminina&#8221; e &#8220;energia masculina&#8221; para mascarar o fato de que nenhuma mulher inteligente quer chegar perto deles por motivos bastante concretos.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-16" href="#footnote-anchor-16" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">16</a><div class="footnote-content"><p>Mulher que constr&#243;i sua identidade em torno da necessidade desesperada de ser escolhida, aprovada ou validada por homens, geralmente &#224;s custas de outras mulheres. &#201; aquela criatura que jura que &#8220;n&#227;o &#233; como as outras garotas&#8221;, que &#233; <em>&#8220;one of the boys&#8221;</em>, que prefere amizade masculina porque &#8220;mulher &#233; muita falsidade e drama&#8221;, que jura que o feminismo quer tirar o direito dela de assar um bolo chinfrim pra um macho fodido em uma tarde qualquer, que defende homem med&#237;ocre com a coragem de uma advogada criminalista e que, diante de qualquer cr&#237;tica ao comportamento masculino, surge das sombras para dizer que &#8220;nem todo homem &#233; assim&#8221; e que &#8220;as feminazis s&#227;o hist&#233;ricas&#8221;, como se algu&#233;m tivesse chamado a pol&#237;cia da generaliza&#231;&#227;o e ela fosse a delegada de plant&#227;o. Algumas delas juram de p&#233; junto que s&#227;o as rainhas da sororidade e adoram se nomear <em>&#8220;girls&#8217; girls&#8221;</em>, mas comumente s&#227;o as primeiras a puxar seu tapete no ambiente de trabalho se voc&#234; se destaca um pouco mais que elas e s&#227;o as primeiras a deixar uma amizade feminina de anos na m&#227;o por conta de algum macho qualquer de rolinha mediana e car&#225;ter duvidoso.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-17" href="#footnote-anchor-17" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">17</a><div class="footnote-content"><p>Plataforma de leitura e publica&#231;&#227;o online onde uma gera&#231;&#227;o inteira aprendeu que literatura, fanfic, trauma adolescente, bad boys tatuados e erros de portugu&#234;s poderiam coexistir no mesmo ambiente digital. Tamb&#233;m conhecida como ber&#231;&#225;rio de escritoras, cemit&#233;rio da revis&#227;o textual e local onde muita gente descobriu, cedo demais, que tinha fetiches extremamente espec&#237;ficos.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-18" href="#footnote-anchor-18" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">18</a><div class="footnote-content"><p>Profissional de recrutamento especializado em vagas de tecnologia. Figura muito conhecida por mandar mensagens com &#8220;oportunidade incr&#237;vel&#8221; no LinkedIn, conduzir processos seletivos com sete etapas, tr&#234;s din&#226;micas, um teste t&#233;cnico, uma call cultural e, no fim, enviar um e-mail dizendo que &#8220;seguir&#227;o com outros candidatos mais aderentes ao momento da empresa&#8221;. Neste texto, aparece porque at&#233; rejeitar um date ruim &#224;s vezes parece exigir um feedback corporativo em linguagem de RH.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-19" href="#footnote-anchor-19" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">19</a><div class="footnote-content"><p>Se bem que o Naveen era um personagem muito carism&#225;tico. Um dos melhores pr&#237;ncipes da Disney. N&#227;o d&#225; pra falar o mesmo do Marcelo. A realidade &#233; dura e cruel.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-20" href="#footnote-anchor-20" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">20</a><div class="footnote-content"><p><em>Cavalo&#8230;</em></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Cartografia do Desafeto #1]]></title><description><![CDATA[N&#227;o existe amor em S&#227;o Paulo]]></description><link>https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-1</link><guid isPermaLink="false">https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-1</guid><dc:creator><![CDATA[venus edain ✧]]></dc:creator><pubDate>Mon, 22 Jun 2026 18:33:34 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/65467111-9365-4dfd-a80c-9e2345789c54_736x414.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#8212; Aeeeee! Boas-vindas ao inferno! </span></strong></em></p><p>Essa poderia facilmente ser a minha assinatura de boas-vindas a qualquer um de voc&#234;s que teve a coragem de inserir seu e-mail para assinar Retr&#243;grada. Entretanto &#8212; acreditem se quiser &#8212;, foi isso que eu ouvi de uma colega de trabalho quando ela terminou de criar um perfil para mim no Bumble<span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></span>, ap&#243;s baixar o app quando tomou meu celular da minha m&#227;o (com o meu consentimento risonho, &#233; claro) numa pausa para o cafezinho.</p><p>Em todos os vinte e quatro anos da minha exist&#234;ncia neste planeta, eu nunca tinha entrado num aplicativo de relacionamento. Mal sabia como funcionava por dentro, al&#233;m da famosa mec&#226;nica de arrastar para a esquerda para rejeitar algu&#233;m e arrastar para a direita para curtir algu&#233;m, como se eu estivesse avaliando quais pratos quero ou n&#227;o num card&#225;pio de comida r&#225;pida. </p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://retrograda.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://retrograda.substack.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p>Durante s&#233;culos, a sociedade teve regras bastante espec&#237;ficas sobre o que uma mulher deveria fazer depois de perder um marido. Na Inglaterra Vitoriana<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>, por exemplo, existia todo um protocolo de luto. Vi&#250;vas eram incentivadas a vestir preto durante meses &#8212; &#224;s vezes anos. Havia etiquetas sociais, per&#237;odos de recolhimento e expectativas bastante claras sobre quando seria considerado aceit&#225;vel voltar a frequentar eventos sociais ou demonstrar interesse rom&#226;ntico por outra pessoa.</p><p>Em outras palavras: <span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">existia um cronograma oficial para a supera&#231;&#227;o</span>. E, embora eu tenha plena consci&#234;ncia de que n&#227;o estamos mais no s&#233;culo XIX, de alguma forma eu parecia estar vivendo como se estiv&#233;ssemos.</p><p>Faziam alguns meses desde o fim do meu &#250;ltimo relacionamento, e eu estava convencida de que ainda n&#227;o era a hora.</p><p>N&#227;o era a hora de conhecer algu&#233;m. N&#227;o era a hora de baixar aplicativos. N&#227;o era a hora de flertar. N&#227;o era a hora de beijar ningu&#233;m. N&#227;o era a hora de seguir em frente. N&#227;o porque eu ainda estava apaixonada pelo <s>bunda mole</s> querido do meu ex &#8212; no per&#237;odo do t&#233;rmino ele fez quest&#227;o de me infernizar o suficiente para me fazer desapaixonar de vez, pegar ran&#231;o e querer o m&#225;ximo de dist&#226;ncia poss&#237;vel dele &#8212;, mas porque eu sentia que poderia ser julgada por isso. </p><p><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Qual &#233; exatamente o prazo regulamentar para uma mulher solteira voltar a existir depois de um t&#233;rmino?</span></strong> Eu n&#227;o saberia dizer. Mas aparentemente algum departamento imagin&#225;rio dentro da minha cabe&#231;a tinha decidido que eu ainda n&#227;o havia cumprido os requisitos m&#237;nimos.</p><p>O curioso &#233; que essa lealdade p&#243;stuma n&#227;o estava sendo exigida por ningu&#233;m al&#233;m de mim mesma. Meu ex certamente n&#227;o estava preocupado com isso. Ali&#225;s, considerando que eu o descobri conversando com outra mulher pelas minhas costas enquanto ainda namor&#225;vamos, &#233; poss&#237;vel que ele sequer soubesse da exist&#234;ncia desse regulamento. Mas l&#225; estava eu, agindo como uma vi&#250;va vitoriana de Osasco, como se baixar um aplicativo de relacionamento fosse um ato de profundo desrespeito &#224; mem&#243;ria de um relacionamento fracassado que j&#225; tinha terminado h&#225; meio ano.</p><p><em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Mas que tremenda prostituta voc&#234;, hein, Venus?! Oh, c&#233;us!</span></em></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-1/comments&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Deixe um coment&#225;rio&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-1/comments"><span>Deixe um coment&#225;rio</span></a></p><p>&#8212; Voc&#234; j&#225; devia ter baixado esse aplicativo no dia seguinte ao t&#233;rmino, mesmo &#8212; disse a colega, que aqui chamaremos de Bianca para preservar sua identidade real.</p><p>A rea&#231;&#227;o da mesa inteira foi imediata. N&#227;o houve sequer um segundo de hesita&#231;&#227;o.</p><p>As outras mulheres presentes concordaram t&#227;o r&#225;pido que, por um momento, achei que estiv&#233;ssemos diante de uma daquelas rar&#237;ssimas situa&#231;&#245;es capazes de unir completamente um grupo de pessoas. Tipo odiar reuni&#227;o que poderia ter sido um e-mail. Ou concordar que o pre&#231;o do caf&#233; est&#225; criminoso nessa porcaria de cidade cara dos infernos. Metade daquela turma se odeia e um vive falando mal do outro pelas costas sempre que pode, mas nada foi capaz de reunir uma tribo com tanta for&#231;a quanto a indigna&#231;&#227;o pelo meu per&#237;odo de vi&#250;va vitoriana de quinta categoria. Quase dei a luz a um novo movimento sufragista bem no cora&#231;&#227;o de Pinheiros.</p><p>&#8212; Venus, pelo amor de Deus.</p><p>&#8212; Meio ano?</p><p>&#8212; Voc&#234; t&#225; brincando.</p><p>&#8212; Seis meses?! Quem &#233; voc&#234;? Virgem Maria, por acaso?</p><p>Recebi um verdadeiro serm&#227;o corporativo durante o hor&#225;rio comercial.</p><p>Fui informada de que homens n&#227;o costumam demonstrar esse tipo de considera&#231;&#227;o nem quando ainda est&#227;o dentro do relacionamento, e n&#227;o fui capaz de discordar de tal fato. Fui lembrada de que eu tinha vinte e quatro anos, n&#227;o oitenta e quatro. Fui comunicada de que a pol&#237;cia da moralidade feminina provavelmente estava ocupada demais fiscalizando a vida de outra pessoa pra perder tempo investigando a minha.</p><p>E, pior de tudo, elas estavam certas. Porque a verdade &#233; que minha vida estava objetivamente melhor naquele momento. Muito melhor.</p><p>Eu estava fazendo terapia. Estava escrevendo mais. Tinha entrado para um clube do livro. Estava voltando a sair de casa. Voltando a encontrar amigos. Voltando a comprar roupas que eu gostava. Voltando a me reconhecer no espelho. Pela primeira vez em muito tempo, minha vida n&#227;o girava em torno da administra&#231;&#227;o emocional de um homem que transformava os pr&#243;prios problemas em responsabilidade coletiva.</p><p>Eu estava aprendendo uma coisa que, em retrospecto, parece ridiculamente &#243;bvia: <span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">gostar de mim mesma era significativamente mais divertido.</span> E embora eu n&#227;o estivesse nem um pouco interessada em me apaixonar de novo, comecei a sentir falta de algumas coisas.</p><p>N&#227;o de namoro, nem de compromisso, muito menos de dividir a porcaria da senha da Netflix. Mas de coisas muito mais simples.</p><p>Ver gente bonita. Flertar. Beijar na boca. Sentir o calor e a fric&#231;&#227;o de algu&#233;m diferente. Ter hist&#243;rias engra&#231;adas para contar para as minhas amigas.</p><p>Foi exatamente nesse momento que cometi o erro que mudaria minha vida para sempre. Ou, pelo menos, renderia material suficiente para sustentar esta coluna que voc&#234;s est&#227;o lendo agora por um <em>boooom</em> tempo.</p><p>Foi assim que come&#231;ou a saga que me trouxe at&#233; aqui.</p><p>&#8212; Voc&#234; precisa limpar seu paladar &#8212; decretou uma outra colega, que chamaremos de Maiara.</p><p>Maiara &#233; casada. <em>Felizmente </em>casada, diga-se de passagem. Daquelas pessoas irritantes que encontraram algu&#233;m que realmente amam e que, pra piorar a situa&#231;&#227;o, tamb&#233;m as amam de volta. Ambos t&#234;m um filho juntos, e o guri &#233; coisa mais lindinha do mundo. Toda vez que ela nos mostra v&#237;deos do menino na escolinha, os olhos dela brilham de tanto amor. Sua hist&#243;ria &#233; um verdadeiro fen&#244;meno estat&#237;stico.</p><p>Mas antes de se tornar uma mulher casada e m&#227;e babona, Maiara tamb&#233;m j&#225; foi solteira. Tamb&#233;m teve seus encontros, seus erros de julgamento, suas decis&#245;es question&#225;veis e, ao que tudo indica, sua pr&#243;pria cole&#231;&#227;o de hist&#243;rias que jamais ser&#227;o contadas nesta newsletter porque eu tenho amor &#224; minha estabilidade empregat&#237;cia, e respeito pela privacidade alheia.</p><p>&#8212; Voc&#234; precisa conhecer gente nova, menina. Ver o que tem por a&#237;.</p><p>Olhei para a tela do celular. Pela primeira vez, o aplicativo estava aberto diante de mim. E, de repente, entendi a escolha curiosa da palavra <em><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#8220;paladar&#8221;.</span></em></p><p>Porque aquilo realmente parecia um card&#225;pio.</p><p>Centenas de rostos. Centenas de biografias. Centenas de pessoas resumidas em algumas fotografias cuidadosamente selecionadas e uma ou duas frases tentando convencer desconhecidos de que valiam uma chance.</p><p>Era uma experi&#234;ncia estranha, na minha vis&#227;o. Levemente dist&#243;pica, e talvez um pouco humilhante.</p><p><em>Arrastar para a esquerda.</em></p><p><em>Arrastar para a direita.</em></p><p><em>Rejeitar.</em></p><p><em>N&#227;o&#8230; Pera! Volta!</em></p><p><em>Ugh, n&#227;o. Voc&#234; &#233; calvo.</em></p><p><em>Pr&#243;ximo.</em></p><p><em>Hmmm. Voc&#234; &#233; alto.</em></p><p><em>Aprovar.</em></p><p><em>Pr&#243;ximo. Pr&#243;ximo. Pr&#243;ximo.</em></p><p>Por um breve momento, me ocorreu que, se aquelas pessoas eram op&#231;&#245;es para mim, ent&#227;o eu tamb&#233;m era uma op&#231;&#227;o para elas. Era isso que eu era agora?</p><p>Um item num cat&#225;logo. Um rosto numa vitrine. Um peda&#231;o de carne esperando que algu&#233;m decidisse se eu valia ou n&#227;o um deslizar de dedo.</p><p>Mas ent&#227;o pensei melhor.</p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Quer saber? Foda-se.</span></strong></em></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-1?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Compartilhar&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-1?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share"><span>Compartilhar</span></a></p><p>Eu n&#227;o estava procurando minha alma g&#234;mea, tampouco estava procurando pelo meu futuro marido ou pela minha futura esposa. Eu n&#227;o estava tentando encontrar o amor da minha vida numa ter&#231;a-feira &#224; tarde durante o cafezinho no expediente. Eu s&#243; queria conhecer gente nova, ver gente bonita, beijar na boca, me divertir um pouco. Era exatamente isso que as outras pessoas estavam fazendo ali, tamb&#233;m. Percebi que, pra quem se dizia ser t&#227;o progressiva e pra frente, eu bem que estava pensando muito como uma velha bolsonarista e moralista de quinta categoria. N&#227;o tem nada demais em procurar se divertir se todas as partes est&#227;o seguras e consentindo com a divers&#227;o.</p><p>E olhando em retrospecto, talvez essa tenha sido uma das melhores decis&#245;es que tomei naquela &#233;poca.</p><p>N&#227;o porque eu tenha encontrado o amor &#8212; porque definitivamente n&#227;o o encontrei e n&#227;o estou desesperada para sair na busca dele  &#8212; mas porque, pela primeira vez em muito tempo, parei de enxergar o fim do meu &#250;ltimo relacionamento como o encerramento de uma hist&#243;ria e comecei a enxerg&#225;-lo como o come&#231;o de outra.</p><p>Uma muito mais divertida, inclusive. Uma em que, pela primeira vez em toda a minha vida, <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">me </span></strong>coloca como a protagonista.</p><p>Foi assim que comecei a colecionar hist&#243;rias. E, aparentemente, material suficiente para sustentar esta coluna por tempo indeterminado.</p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3ac7e206-4b36-4bf4-ae45-f6a4008e3e83_736x435.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;\&quot;Quer dizer, eu n&#227;o sou puritana. S&#243; sou apenas muito seletiva.\&quot; - Cher Horowitz em As Patricinhas de Beverly Hills (1995) &quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3ac7e206-4b36-4bf4-ae45-f6a4008e3e83_736x435.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div><hr></div><p style="text-align: center;"><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#127925; </span><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">M&#250;sica da Vez:</span></strong></p><iframe class="spotify-wrap" data-attrs="{&quot;image&quot;:&quot;https://i.scdn.co/image/ab67616d0000b27396fa88fb1789be437d5cb4b6&quot;,&quot;title&quot;:&quot;Super Graphic Ultra Modern Girl&quot;,&quot;subtitle&quot;:&quot;Chappell Roan&quot;,&quot;description&quot;:&quot;&quot;,&quot;url&quot;:&quot;https://open.spotify.com/track/1rNSCrsOoWyhKH4g47mehU&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;noScroll&quot;:false}" src="https://open.spotify.com/embed/track/1rNSCrsOoWyhKH4g47mehU" frameborder="0" gesture="media" allowfullscreen="true" allow="encrypted-media" loading="lazy" data-component-name="Spotify2ToDOM"></iframe><h5>Toda pesquisa precisa de uma trilha sonora.</h5><h5>A cada edi&#231;&#227;o de Cartografia do Desafeto, uma nova m&#250;sica ser&#225; adicionada &#224; playlist oficial da investiga&#231;&#227;o.</h5><h5>Quando (ou se) esta pesquisa terminar, teremos duas coisas: evid&#234;ncias suficientes para provar minha tese e uma playlist excelente.</h5><p style="text-align: center;"><span>&#127925; </span><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Confira a playlist aqui:</span></strong></p><iframe class="spotify-wrap playlist" data-attrs="{&quot;image&quot;:&quot;https://image-cdn-ak.spotifycdn.com/image/ab67706c0000da846fcd2f2c85ab49ba7e5ee449&quot;,&quot;title&quot;:&quot;Cartografia do Desafeto&quot;,&quot;subtitle&quot;:&quot;By venus edain&quot;,&quot;description&quot;:&quot;Playlist&quot;,&quot;url&quot;:&quot;https://open.spotify.com/playlist/2IayD1ZQoaw9mR8qOPPZel&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;noScroll&quot;:false}" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/2IayD1ZQoaw9mR8qOPPZel" frameborder="0" gesture="media" allowfullscreen="true" allow="encrypted-media" loading="lazy" data-component-name="Spotify2ToDOM"></iframe><div><hr></div><h2><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Evid&#234;ncias Preliminares</span></h2><p>Bem, talvez este seja um bom momento para explicar o nome desta coluna.</p><p><strong>Cartografia do Desafeto </strong>nasceu de uma hip&#243;tese bastante simples: <strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">n&#227;o existe amor em S&#227;o Paulo.</span></strong> Ou, pelo menos, foi essa a conclus&#227;o preliminar &#224; qual cheguei depois de algum tempo observando atentamente a fauna local.</p><p>Antes que algu&#233;m me acuse de cinismo excessivo, por&#233;m, preciso fazer uma confiss&#227;o: eu n&#227;o sou o tipo de pessoa que deveria chegar a esse tipo de conclus&#227;o. Muito pelo contr&#225;rio.</p><p>Meu nome art&#237;stico &#233; Venus <em><s>(eu j&#225; expliquei aqui em Retr&#243;grada, na se&#231;&#227;o &#8220;</s><a href="https://retrograda.substack.com/about"><s>Sobre</s></a><s>&#8221;, que n&#227;o &#233; por conta da porcaria do planeta e sim por conta da deusa romana do amor)</s></em>. Eu escrevo romances. Escrevo poemas. Passei boa parte da vida acreditando em amor, em conex&#227;o, em teorias est&#250;pidas tipo a do <em>Akai Ito</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a>, em almas de vidas passadas que se reencontram e em todas as outras coisas constrangedoras e <em>piegas </em>que normalmente tentamos esconder depois dos vinte e poucos anos.</p><p>Se existe algu&#233;m que deveria estar defendendo a exist&#234;ncia do amor rom&#226;ntico em pra&#231;a p&#250;blica, esse algu&#233;m sou eu. E talvez seja justamente por isso que a situa&#231;&#227;o seja t&#227;o preocupante. Porque quanto mais velha eu fico, mais dif&#237;cil parece ser sustentar algumas ilus&#245;es.</p><p>Depois de ser tra&#237;da mais de uma vez, depois de ouvir as hist&#243;rias das minhas amigas e depois de voltar ao mercado de relacionamentos e descobrir que ele funciona mais ou menos como uma mistura entre processo seletivo, reality show e experimento social n&#227;o regulamentado, comecei a suspeitar de uma coisa: <span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">talvez o amor rom&#226;ntico saud&#225;vel seja muito mais raro do que gostamos de admitir.</span></p><p>Veja bem, querido leitor, n&#227;o estou dizendo que ele n&#227;o existe. S&#243; estou dizendo que encontrar um relacionamento saud&#225;vel, &#224;s vezes, parece uma tarefa com taxa de drop<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a> inferior &#224; de um item lend&#225;rio em MMORPG<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a>.</p><p>Enquanto isso, o que encontro pelo caminho s&#227;o hist&#243;rias. Muitas hist&#243;rias.</p><p>Hist&#243;rias de homens bonitos e gostosos o suficiente pra fazerem voc&#234; repensar seus pr&#243;prios limites, mas que desaparecem da face da Terra no instante em que descobrem que voc&#234; n&#227;o pretende transar com eles no primeiro encontro.</p><p>Hist&#243;rias de mulheres que passam o fim de semana inteiro na sua cama, te fazem acreditar que talvez exista algo especial acontecendo e depois aparecem namorando outra pessoa como se voc&#234; tivesse participado involuntariamente de um programa de est&#225;gio emocional.</p><p>Hist&#243;rias de sujeitos que chamam mulheres para um &#8220;date em casa&#8221; como se estivessem pedindo um delivery de boceta.</p><p>Hist&#243;rias de amigas que se apaixonam perdidamente para descobrir, meses depois, que o grande amor da vida delas j&#225; tinha esposa, filhos e uma vida paralela inteira funcionando em outro CEP.</p><p>Hist&#243;rias s&#225;ficas que seriam material digno de romance se n&#227;o envolvessem uma mulher morando na puta que pariu, respondendo suas mensagens a cada quarenta e oito horas e aparentemente mantendo uma agenda social mais movimentada que a programa&#231;&#227;o oficial do Carnaval de Salvador.</p><p>Hist&#243;rias de homens que querem uma namorada, desde que ela n&#227;o exija aten&#231;&#227;o e esfor&#231;o nenhum da parte deles.</p><p>De mulheres que querem intensidade, desde que ela n&#227;o gere compromisso.</p><p>De pessoas procurando conex&#227;o enquanto fazem absolutamente tudo ao alcance delas para evitar qualquer possibilidade de intimidade real.</p><p>E o mais assustador de tudo &#233; que nenhuma dessas hist&#243;rias &#233; particularmente rara. S&#227;o t&#227;o comuns que, em algum momento, parei de encar&#225;-las como acidentes isolados e comecei a enxerg&#225;-las como sintomas.</p><p>Foi a&#237; que nasceu a hip&#243;tese que d&#225; nome a esta coluna, e que d&#225; nome a esta primeir&#237;ssima edi&#231;&#227;o.</p><p>Uma tese ousada? Talvez. Prematura? Possivelmente. Baseada em evid&#234;ncias cientificamente question&#225;veis e numa quantidade preocupante de traumas acumulados ao longo dos anos? Com certeza. Mas toda grande pesquisa precisa come&#231;ar de algum lugar. Sendo assim, decidi transformar minhas desventuras amorosas em objeto de estudo. E &#233; exatamente para isso que esta coluna existe.</p><p>Em Cartografia do Desamor, vou utilizar esse espa&#231;o para documentar os fen&#244;menos observados durante minha investiga&#231;&#227;o de campo.</p><p>Algumas dessas hist&#243;rias aconteceram comigo. Outras aconteceram com amigas. Outras aconteceram com pessoas que, por algum motivo que ainda n&#227;o compreendo completamente, confiam em mim o suficiente para me enviar relatos absolutamente absurdos sobre suas vidas amorosas. Todas elas ser&#227;o registradas.</p><p>Por motivos jur&#237;dicos, &#233;ticos e, principalmente, porque eu n&#227;o tenho dinheiro para contratar advogada, os nomes de todas as pessoas envolvidas ser&#227;o alterados. </p><p>Qualquer semelhan&#231;a com pessoas reais ser&#225; mera coincid&#234;ncia. Exceto quando n&#227;o for. Mas mesmo nesses casos eu vou negar at&#233; a morte.</p><p>O importante &#233; que as identidades ser&#227;o preservadas.</p><p>As hist&#243;rias, n&#227;o. As hist&#243;rias ser&#227;o contadas. Todas elas. Inclusive porque, se eu precisei ouvir sobre o homem que manteve uma esposa oficial, duas amantes e uma rotina de crossfit simultaneamente, considero apenas justo que voc&#234;s tamb&#233;m precisem.</p><p>A ci&#234;ncia exige sacrif&#237;cios, e eu estou disposta a faz&#234;-los.</p><p>Nos vemos na pr&#243;xima hist&#243;ria? </p><div class="image-gallery-embed" data-attrs="{&quot;gallery&quot;:{&quot;images&quot;:[{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3d9fe9d2-3a6f-43b1-a977-b54f209a623a_736x600.jpeg&quot;}],&quot;caption&quot;:&quot;\&quot;Ser jovem e bonita n&#227;o &#233; um crime, sabia?\&quot; - Meredith Blake em Opera&#231;&#227;o Cupido (1998)&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;,&quot;staticGalleryImage&quot;:{&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3d9fe9d2-3a6f-43b1-a977-b54f209a623a_736x600.jpeg&quot;}},&quot;isEditorNode&quot;:true}"></div><div><hr></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://retrograda.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Se eu fosse voc&#234;, assinava logo esta newsletter pra n&#227;o perder mais nada. &#201; de gra&#231;a, boba. Bota seu e-mail a&#237;.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><div><hr></div><h3><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">&#129514; Status da Pesquisa</span></h3><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Hip&#243;tese atual:</span></strong> N&#227;o existe amor em S&#227;o Paulo.</em></p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Evid&#234;ncias coletadas:</span></strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> </span>Muitas.</em></p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Evid&#234;ncias contr&#225;rias:</span></strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> </span>Insuficientes.</em></p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">N&#237;vel de confian&#231;a da pesquisadora:</span></strong> Moderado.</em></p><p><em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">Risco de vi&#233;s emocional:</span></strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);"> </span>Elevad&#237;ssimo.</em></p><div><hr></div><h2><span data-color="#ea318c" style="color: rgb(234, 49, 140);">&#129514; </span><strong><span data-color="#ea318c" style="color: rgb(234, 49, 140);">Na pr&#243;xima edi&#231;&#227;o</span></strong></h2><p>Quando algu&#233;m desaparece sem explica&#231;&#227;o, o que realmente est&#225; sendo evitado: a rejei&#231;&#227;o, o conflito ou simplesmente a responsabilidade de agir como um adulto? Em outras palavras, <em><strong><span data-color="#ec4899" style="color: rgb(236, 72, 153);">quem tem medo do ghosting?</span></strong></em></p><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;b1bed525-f7cc-4e05-aac1-46ca30fbb377&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;Disclaimer: se voc&#234; est&#225; lendo esta edi&#231;&#227;o pela sua caixa de entrada, sugiro que abra o post no navegador ou no app do Substack. O post t&#225; bem longo e ultrapassou o limite do gmail (eu falo pra caralho, desculpa. Mas esse post t&#225; muito bom e prometo que vai te render um bom entretenimento e altas risadas).&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;lg&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;Cartografia do Desafeto #2&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:328100842,&quot;name&quot;:&quot;venus edain &#10023;&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;&#10022; And I couldn't help but wonder...&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fb217ac1-f81b-4312-8059-fea5377b44b3_1440x1440.webp&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-06-25T15:28:33.354Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/bd49400b-3d54-4186-9d2d-e4fb860c2ebc_736x981.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://retrograda.substack.com/p/cartografia-do-desafeto-2&quot;,&quot;section_name&quot;:&quot;&#10023; Cartografia do Desafeto &#10023;&quot;,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:203153450,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:12,&quot;comment_count&quot;:17,&quot;publication_id&quot;:4486627,&quot;publication_name&quot;:&quot;Retr&#243;grada &#10023;&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!fxGn!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4038979c-1136-4d56-b9a2-73d267578bc7_1254x1254.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:true,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Aplicativo de relacionamento semelhante ao Tinder. Sua principal proposta original era permitir que mulheres dessem o primeiro passo nas conversas heterossexuais. Na pr&#225;tica, descobri que isso n&#227;o impede homens de continuarem sendo esquisitos pra caralho.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Per&#237;odo da hist&#243;ria brit&#226;nica que corresponde ao reinado da Rainha Vit&#243;ria, entre 1837 e 1901. Marcada pela expans&#227;o do Imp&#233;rio Brit&#226;nico e pela Revolu&#231;&#227;o Industrial, a &#233;poca &#233; famosa pelo forte contraste entre a prosperidade econ&#244;mica e os r&#237;gidos costumes morais e sociais.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Lenda japonesa que diz que pessoas destinadas a ficarem juntas s&#227;o conectadas por um fio vermelho invis&#237;vel amarrado aos seus dedos mindinhos. &#201; uma teoria extremamente rom&#226;ntica e, portanto, exatamente o tipo de coisa que eu adoro acreditar quando n&#227;o estou ocupada reclamando da humanidade.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Termo utilizado em videogames para indicar a probabilidade de um determinado item aparecer ap&#243;s derrotar um inimigo ou concluir uma atividade. Em outras palavras: a chance de encontrar amor saud&#225;vel na atual conjuntura.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>Sigla para <em>Massively Multiplayer Online Role-Playing Game</em>. Jogos online com milhares de jogadores simultaneamente, conhecidos por exigirem quantidades obscenas de tempo, dedica&#231;&#227;o e sofrimento emocional. Curiosamente, uma descri&#231;&#227;o que tamb&#233;m serve para aplicativos de relacionamento.</p></div></div>]]></content:encoded></item></channel></rss>