ghosting
gôus-ti-ngui
substantivo masculino.
Ato de desaparecer da vida de alguém sem aviso, explicação ou coragem para escrever uma frase simples como “não quero mais”. Muito praticado por pessoas que confundem silêncio com maturidade, covardia com autocuidado e falta de responsabilidade afetiva com “não devo nada a ninguém”.
Do inglês ghost, fantasma. No Brasil, manifesta-se principalmente em aplicativos de relacionamento, conversas mornas de WhatsApp, promessas feitas depois de duas taças de vinho e pessoas que dizem “não tenho medo de intensidade” pouco antes de evaporar feito um encosto com plano de dados.
Será que o ghosting existe porque as pessoas se tornaram descartáveis? Ou será porque algumas pessoas insistem em criar intimidade com estranhos e depois ficam chocadas quando descobrem que desconhecidos agem como — pasme! — desconhecidos?
Eu com certeza não vim aqui para trazer resposta alguma, caro leitor. Mas como boa agente do caos pesquisadora que sou, trago, aqui, mais evidências comprobatórias à minha tese: não existe amor em SP.
Esta é a edição nº 2 de Cartografia do Desafeto: quem tem medo do ghosting?
Leia a edição anterior aqui:
Disclaimer — antes que algum advogado ou ex-date emocionalmente abalado apareça na minha porta (ou na minha DM) enchendo o saco:
Com exceção do meu nome, todos os outros nomes presentes nesta edição são fictícios. Alguns detalhes também foram alterados para proteger a identidade das pessoas envolvidas.
As histórias, no entanto, são reais. Foram enviadas por leitoras, amigas e sobreviventes da experiência moderna de tentar conhecer alguém sem sofrer uma síncope no processo.
Nenhuma dessas pessoas recebeu compensação financeira por seus depoimentos. O pagamento foi exclusivamente emocional e consistiu na oportunidade de expor suas desventuras amorosas para uma plateia de desconhecidos na internet racharem o bico.
Caso você se reconheça em alguma destas histórias, siga o seguinte procedimento:
Primeiramente, mantenha a calma. Você não é tão importante assim (pra falar bem a verdade, se você é um dos personagens que receberam ghosting, isso já era pra estar mais do que claro). Ninguém vai saber que a história foi com você. Existem milhões de pessoas no mundo.
Em segundo lugar, repense. Estatisticamente, é perfeitamente possível que existam dois ou mais homens emocionalmente despreparados no mundo que deram unfollow e follow novamente no Instagram de uma garota achando que isso configurava uma estratégia legítima de conquista.
Se persistirem os sintomas de burrice, insistência e/ou toxicidade crônica, o block poderá ser aplicado e um psicólogo deverá ser consultado.

Caso nº 1: A mulher que prometeu a lua (e desapareceu antes do amanhecer)
A primeira história desta edição me foi enviada por uma leitora que, para fins jurídicos, chamaremos de Bárbara, 28 anos.
Bárbara cometeu um erro que, infelizmente, acomete milhares de brasileiros todos os anos: ela acreditou em uma mulher bonita.
Não uma mulher apenas bonita. Isso seria até administrável.
Estou falando de uma mulher perigosamente linda, gostosa e inteligente. Uma daquelas pessoas que parecem ter sido desenhadas por uma equipe multidisciplinar composta por Deus, um diretor de fotografia da HBO e uma psicóloga especializada em manipulação emocional.
Aqui, vamos chamá-la de Mariana.
Segundo relatos, Mariana possuía todas as características clássicas do predador afetivo contemporâneo: era linda, esperta, bem articulada e tinha a habilidade de fazer uma pessoa se sentir a única criatura viva na superfície do planeta durante exatamente o tempo necessário para criar um vínculo emocional irreversível.
Primeira red flag1: Mariana falava muito para quem pouco fazia. Falava de sentimentos, de vulnerabilidade, de conexões, de autenticidade, de cura e de presença. Falava tanto, mas tanto, que em determinado momento Bárbara começou a suspeitar que estava vivendo dentro de um episódio de um podcast da Dra. Ana Beatriz2.
E como toda boa golpista emocional, Mariana também possuía um discurso impecável.
— Estou deixando muito claro que não quero namorar, gatinha.
Justo, diva. Perfeito. Adulto. Responsável. Uma excelente informação.
Segunda red flag: o problema é que essa frase costumava vir acompanhada de outras pérolas.
— Não tenho medo de intensidade, amor.
Peraí… quê?
Garota, intensidade de quê exatamente?
Até onde eu sei, intensidade é um conceito que costuma fazer mais sentido quando existe alguma espécie de compromisso, continuidade ou perspectiva de futuro envolvida. Se você não quer construir uma casa, para que está comprando tijolos?
Terceira red flag: Mariana também dizia odiar a ex.
Bárbara, a esse ponto, já podia pedir música no Fantástico.
Minha opinião aqui é muito clara, querido leitor. Para mim, quem diz que “não existem regras no amor” ou é um cuzão que usa isso como desculpa para tratar os outros como lixo, ou é um adolescente que ainda não aprendeu nada sobre a vida e as relações humanas. Existem, sim, regras e leis quase que naturais — algumas ditas em voz alta, outras nem tanto — no amor. A primeira é ignorada por muitos, mas não deixa de ocorrer e ser um fato: quando uma pessoa menciona insistentemente (e espontaneamente) que odeia a ex com todas as forças mesmo após um longo período pós-término, pode ter certeza de que a ex está morando naquele apartamento sem pagar aluguel.3
A ex de Mariana ainda estava lá, por toda parte: na sala, na cozinha, no quarto, na varanda. O fantasma daquela mulher zanzava por todos os cômodos do triplex que havia alugado mente de nossa (des)querida Mari. E, infelizmente, nossa querida Bárbara ignorou todos os avisos luminosos que piscavam diante dela. Mariana era, afinal, linda, e dizia coisas ainda mais lindas ao pé do ouvido de Bárbara. Prometia rios e mares e fazia cachoeiras descerem pelas pernas de nossa amiga. Eu, mesma, não sou ninguém para julgá-la. Com o batom correto sujando meu pescoço, os dois dedos corretos rodopiando dentro e o polegar correto pressionando o ponto certo em cima, não sei se meu juízo me permitiria pensar corretamente também.
E porque pessoas lindas, engraçadas e inteligentes conseguem convencer outros seres humanos perfeitamente funcionais a tomar decisões que normalmente exigiriam autorização psiquiátrica, os meses passaram. As conversas se aprofundaram, as promessas cresceram, e os gestos aumentaram.
Mariana começou a fazer aquilo que algumas pessoas fazem quando querem todos os benefícios emocionais de um relacionamento sem assumir qualquer responsabilidade por ele: ela alimentava a esperança, alimentava a expectativa, alimentava a intimidade e alimentava a fantasia. Se ela tivesse permanecido mais algumas semanas naquela trajetória, provavelmente teria prometido amarrar a lua num barbante e trazê-la pessoalmente para a janela de Bárbara.
E então aconteceu o que nos trouxe a esta edição da coluna: chocando um total de zero pessoas, Mariana desapareceu. Não necessariamente da forma teatral que Hollywood gosta de retratar — nenhum corpo foi encontrado, nenhum boletim de ocorrência foi registrado e nenhuma operação de resgate precisou ser acionada.
Emocionalmente, entretanto, a gata evaporou. Suas promessas vazias viraram fumaça, suas mensagens viraram neblina e as memórias do seu afeto viraram apenas uma breve lembrança.
Ela deixou para trás uma Bárbara tão desnorteada que produziu uma quantidade industrial de textos de amor — ou melhor: textos de ódio, que, como todo mundo sabe, são exatamente a mesma coisa usando roupas diferentes. Segundo a própria Bárbara, nenhum deles foi enviado, o que considero uma pena. Tenho, para mim, que sofrer sozinha é um ato de generosidade que raramente é devidamente reconhecido pela sociedade.
O curioso é que Mariana provavelmente ainda acredita que foi extremamente honesta. Afinal, ela avisou que não queria namorar, né?
O que ela aparentemente esqueceu de avisar foi que isso não significava que ela não iria agir como alguém que não queria namorar. A pobre da Bárbara recebeu de sua ex-ficante o pacote premium completo: lovebombing4 + ghosting. Mas essa, caro leitor, é uma epidemia tão comum que merece uma edição inteira desta investigação.

Caso nº 2: Uma história fantasma… de Vênus mesmo
Venus, 24 anos.
Sim, caro leitor, é isso mesmo que você está lendo. A segunda história desta edição é minha.
E antes de contá-la, acho necessário decepcionar algumas pessoas.
Existe uma coisa curiosa que acontece quando você escreve sobre relacionamentos na internet: depois de algum tempo marcando presença num espaço com as suas palavras, os leitores podem começar a construir uma versão fictícia sua dentro da própria cabeça. Uma narradora. Uma personagem. Uma protagonista. E protagonistas, infelizmente, costumam vir acompanhadas de uma expectativa muito chata de coerência moral, como se todas elas tivessem assinado, em cartório, um compromisso vitalício com a lucidez, a responsabilidade afetiva e a santidade.
Pois bem. Eu não assinei nada, e nunca falei que era santa.
Se algum de vocês chegou até aqui acreditando que eu era uma espécie de heroína de comédia romântica, uma observadora imparcial do caos afetivo contemporâneo, uma mulher sempre sensata, sempre justa, sempre educada, sempre do lado moralmente certo da história, sinto informar que isso diz muito mais sobre a capacidade imaginativa de vocês do que sobre mim. Sim, é verdade — eu sou trouxa sensível, sou delulu5 romântica, sou uma pessoa que realmente tenta não ser horrível no convívio social e, no geral, gosto de acreditar que possuo um coração minimamente bom. Mas também sou contraditória, chata exigente, hipócrita e reclamona. E pra piorar, recentemente tenho aprendido uma arte que, durante muitos anos, me foi negada pela rígida educação oferecida às boas garotas: a arte de ser egoísta.
E ser egoísta, quando você passou tempo demais sendo treinada para sorrir, compreender, ceder, explicar, acolher, amparar, responder mensagens que não queria responder, passar por cima do seu próprio conforto e consentimento e preservar sentimentos que ninguém parecia tão preocupado em preservar quando eram os seus, pode se tornar uma experiência perigosamente desregulada. É como entregar uma garrafa de vodka para uma adolescente de quinze anos e esperar que ela faça uma degustação responsável. A pessoa não sabe usar. A pessoa passa do ponto. A pessoa acorda no dia seguinte com ressaca moral e uma vaga lembrança de ter feito algo que talvez precise discutir na terapia anos mais tarde.
Isso justifica eu descontar minhas pequenas rebeliões emocionais em outra pessoa? Óbvio que não.
Isso significa que eu me arrependo do que fiz? Também não.
Mas, pelo menos, estou pagando uma profissional qualificada para ouvir esse tipo de merda com alguma regularidade.
Não conto esta história para que fiquem do meu lado, muito pelo contrário. Podem me criticar. Inclusive, considerando a quantidade de julgamentos que distribuo gratuitamente nesta newsletter e nas minhas notas do Substack, seria estúpido da minha parte tentar fugir do tribunal popular agora que a ré sou eu. Conto esta história porque, se esta edição pretende falar sobre ghosting, seria covarde fingir que eu só conheço o fenômeno da perspectiva de quem foi abandonada no meio da névoa, olhando para a tela do celular como uma viúva vitoriana diante do mar.
Eu também já fui a névoa. Eu também já fui o fantasma (ui! poético, né?). Eu também já olhei para uma conversa, medi o tamanho da minha vontade de continuar ali e simplesmente desapareci.
Mas, como boa filha da puta que sou, não acho que esta minha filha-da-putagem foi um crime de guerra. Eu posso até ser uma cretina cruel, mas…
…é, sei lá. Esqueci o ponto que eu ia fazer aqui. Não dá pra falar que não quero me justificar e fazer isso logo em seguida. Também não dá pra afirmar que sou sensível e romântica e que tenho um coração bom em um momento e depois admitir que sou uma cretina cruel no segundo seguinte, né?
Bem, pelo menos eu avisei que sou hipócrita e contraditória.
Minha filha-da-putagem da vez envolve um homem insistente, feio desprovido das características que mais me atraem e baixinho tal qual um oompa lompa6 de baixa estatura. Envolvia um date marcado de última hora, uma janta paga por ele, uma quantidade alarmante de sinais vermelhos que eu ignorei até perceber que não queria estar ali, e covardia da minha parte para não comunicar apropriadamente que eu nunca mais queria ver a fuça dele depois daquela noite desastrosa.
O nome dele não era Marcelo. Mas, para os fins desta investigação científica extremamente séria, será Marcelo, 30 anos.
Tudo começou com outro homem.
Vamos chamá-lo de Francisco, 23 anos.
Eu havia conhecido Francisco no Bumble e, durante uma semana inteira, nós conversamos muito. Francisco era alto, bonito, atlético e, o que para mim sempre foi o verdadeiro golpe baixo: inteligente. Gente inteligente me dá um tesão desgraçado, caro leitor. Você não tem noção.
Veja bem, não estou dizendo que ele era o Shawn Mendes7 na escala do homem branco padrão. Não era exatamente isso. Mas existe um ponto em que beleza deixa de ser uma questão de simetria facial ou de gominhos num tanquinho e passa a ser uma questão de repertório. Um homem/uma mulher que sabe conduzir uma conversa, que entende minimamente o mundo ao seu redor, que não responde qualquer tentativa de conversa mais profunda com um “kkkk top” e que não escreve “oque” junto ou “tudo bem ??” com espaço antes de qualquer sinal de pontuação já larga, comigo, com uma vantagem competitiva considerável.
Não quero dizer que sou a porra da Marilyn vos Savant8, mas também não vou fingir humildade para agradar gente medíocre. Eu falo três línguas, estou terminando um MBA aos vinte e quatro anos, tenho dois livros publicados e uma coluna inteira na internet dedicada, entre outras coisas, a analisar o comportamento humano como quem observa um acidente de trânsito em câmera lenta. Então, com todo respeito, eu também não sou pouca merda. Sou uma mulher inteligente, articulada e profundamente entediada por conversas que parecem ter sido digitadas por alguém sendo mantido refém dentro de um elevador sem sinal.
Eu preciso ser estimulada intelectualmente. Não como uma exigência elitista, mas como uma condição básica de sobrevivência afetiva. Eu não aguento conversar “oi :)”, “oi.”, “é… então… tudo bem?”, “tô bem.”, “ah… tô bem também…” com uma pessoa e fingir que ali existe qualquer possibilidade de desejo. Meu corpo não opera dessa forma. O cérebro é, infelizmente para mim, um órgão sexual importante demais para ser ignorado.
Francisco, o nerdzinho gostoso, entendia isso sem parecer estar tentando provar nada. Eu falava de neurociência, e ele respondia com alguma referência científica sem transformar a conversa numa palestra insuportável de coach de LinkedIn. Ele era inteligente sem ser condescendente, o que, em 2026, deveria ser considerado uma habilidade rara o suficiente para constar no currículo de um homem. Não tentava me corrigir a cada frase, não fazia aquele cosplay miserável de professor universitário em mesa de bar, não parecia ameaçado quando eu demonstrava saber muito sobre alguma coisa. Pelo contrário: era curioso. Queria me ouvir falar. Complementava. Puxava assunto. E, para piorar uma situação que já caminhava perigosamente para a minha completa desgraça, ainda tinha uma voz deliciosamente grave.
Eu já estava imaginando coisas com aquela voz. E não eram coisas recomendadas para publicação em uma newsletter aberta.
A conversa era boa, o papo fluía, e então ele fez algo que, para mim, tem o poder erótico de um decote bem colocado: teve iniciativa. Disse que estava adorando conversar comigo, que queria me conhecer melhor, e propôs um encontro com dia, horário, lugar e plano definidos. Sem aquele “qualquer dia a gente marca”, sem aquele “vamo ver”, sem aquela preguiça existencial de quem aparentemente quer sair com uma mulher, mas espera que ela faça todo o trabalho logístico, emocional e administrativo para que o encontro aconteça.
Francisco chegou com uma proposta objetiva. E eu, obviamente, disse sim.

Faço aqui uma pausa para esclarecer algo antes que algum fiscal de dinâmica relacional venha me explicar, com a profundidade de um tweet ruim, que homens e mulheres não são obrigados a performar papéis específicos dentro de uma relação.
Sim, querido. Eu sei. Estamos em 2026, afinal. Diferentes relações funcionam de formas diferentes, e homem nenhum, nem mulher nenhuma, tem obrigação universal de ser a pessoa ativa, dominante ou condutora do rolê. Ninguém tem obrigação de tomar iniciativa; dito isso, eu vou continuar escolhendo quem toma. Afinal, eu também não tenho obrigação nenhuma de desejar qualquer dinâmica que não me excita. Não é uma tese sociológica, é uma preferência. E, por incrível que pareça, mulheres ainda têm permissão para ter uma ou duas dessas sem precisar apresentar defesa em banca acadêmica.9
Enfim, Francisco e eu conversamos a semana inteira, e eu já estava naquele estágio idiota em que o meme “damn, someone stole my bitch”10 começa a passar pela cabeça com uma frequência constrangedora.
Conforme o dia do date se aproximava, o nerd gostoso foi esfriando. Suas respostas começaram a demorar mais. A energia mudou. Sua presença evaporou aos poucos, como se alguém tivesse diminuído o volume da conversa sem avisar.
E eu não sou uma otária do caralho.
Não estava atrás de marido, não tinha prometido fidelidade a um completo estranho do Bumble e, por mais que Francisco fosse interessante, ele ainda era apenas um homem com quem eu conversava havia uma semana. Ele não me devia compromisso nenhum. Mas, justamente por isso, eu também não devia exclusividade alguma a ele. Era óbvio que eu continuaria conversando com outras pessoas, homens e mulheres, porque aplicativos de relacionamento não são um mosteiro beneditino e eu não sou uma freira aguardando o retorno de seu cavaleiro prometido.
Chegou o dia do encontro.
De manhã, mandei mensagem perguntando onde exatamente nos encontraríamos no local combinado. Se seria na frente, se seria lá dentro; uma pergunta absolutamente normal para duas pessoas que, até onde eu sabia, ainda tinham um date naquela noite.
Foi então que Francisco, com a pachorra de quem aparentemente só lembrou que eu existia porque fui conferir a logística, me disse que não poderia mais ir. Usou uma desculpa envolvendo trabalho, que poderia muito bem ser verdadeira e, se fosse apenas isso, tudo bem. Adultos trabalham. Imprevistos acontecem. O capitalismo existe para destruir a libido, os sonhos e a musculatura lombar de todos nós.
O problema veio depois.
— Ehh… mas olha… — ele começou. Era melhor não ter terminado de falar. — Domingo eu tô livre. No caso, amanhã, né? A gente pode—
— Amanhã eu não posso.
Silêncio.
— Ah, próxima terça dá pra mim, também. Não vou trabalhar na próxima semana, então se quiser…
Ah, vá tomar no cu!
Não é que remarcar seja um crime — não é —, mas existe uma diferença muito grande entre uma pessoa que desmarca com cuidado, se desculpa de verdade e propõe imediatamente um novo plano concreto, e uma pessoa que joga duas opções vagas no colo da outra como quem oferece migalhas para um pombo na calçada. Especialmente quando essa pessoa só decidiu informar que o encontro não aconteceria porque eu, feito uma secretária não remunerada, fui confirmar o ponto de encontro.
Como não sou uma adolescente de quinze anos de idade, não fiz escândalo e tampouco mandei textão. Não tentei educar um marmanjo adulto, até porque tenho coisas melhores para fazer com a minha vida — como beber café, ler meus livros e, de acordo com vocês, reclamar de homem para uma audiência que secretamente adora ler minhas notas reclamonas no Substack. Apenas respondi que ia ver e depois deixei Francisco falando sozinho no WhatsApp.
E é aqui que entra Marcelo.
🎵 Música da Vez:
Toda pesquisa precisa de uma trilha sonora.
A cada edição de Cartografia do Desafeto, uma nova música será adicionada à playlist oficial da investigação.
Quando (ou se) esta pesquisa terminar, teremos duas coisas: evidências suficientes para provar minha tese e uma playlist excelente.
🎵 Confira a playlist aqui:
Marcelo era um carinha com quem eu estava conversando havia menos de vinte e quatro horas. Literalmente. Nós tínhamos dado match e começado a conversar na madrugada anterior àquela manhã. Guarde esse detalhe, porque ele será importante para fins periciais.
A conversa com Marcelo, no início, tinha sido agradável. Nada revolucionário, nada que me fizesse acreditar novamente na humanidade, mas suficientemente interessante para manter o papo rolando durante a madrugada. Na manhã seguinte, em algum momento, quando conversávamos sobre dates, ríamos de matches ruins e compartilhávamos nossas furadas com potenciais ficantes, comentei que eu tinha um encontro marcado naquela noite com outro cara, mas que o sujeito havia desmarcado.
— Mas tudo bem — eu disse, naquele estado específico de conformismo debochado em que você ainda está um pouco irritada, mas já atravessou a raiva e chegou na fase de transformar a situação em fofoca. — Eu vou sair com minhas amigas do clube do livro mais tarde de qualquer forma.
— E que horas acaba esse clube do livro?
Ajeitei a postura na cadeira da cozinha e olhei para a tela do celular por alguns segundos a mais do que o necessário, tentando decidir se aquela pergunta tinha realmente soado do jeito que parecia ter soado ou se...
Afinal, ele tinha dito que trabalhava naquele dia. Era sábado, claro, mas ainda assim.
— Deve acabar lá pelas cinco ou seis — respondi. — Fim da tarde, começo da noite, por aí.
A resposta dele veio rápido demais.
— Ah, é? E quais são seus planos pra noite?
Hm… Olha só.
Segurei o ar por um segundo, ainda encarando a tela. Eu sabia exatamente a direção que aquilo estava tomando. E sim, uma parte indecente do meu ego estava, agora, achando tudo aquilo bastante divertido.
— Não sei ainda. Talvez eu vá jantar sozinha em algum lugar, se me der vontade. Eu gosto da minha própria companhia. Não preciso de date pra me diver—
— Então você tá disponível hoje à noite?
Eu não sabia ainda, mas esse foi o meu primeiro erro. Foi aí que Marcelo enxergou uma oportunidade.
A princípio, achei até engraçado. Ele começou com aquele entusiasmo meio improvisado de quem vê uma vaga abrir no estacionamento e decide entrar com tudo antes que o motorista do outro carro perceba.
— Que maravilha! Onde você vai estar?
— Peraí, tem certeza?
— Sim! Eu posso ir te ver. Vou adorar, inclusive.
Até aí, nada demais. O problema é que em poucos minutos a empolgação escalou para uma insistência estranha, e então ele soltou a frase que imediatamente fez minha medula acender um alerta vermelho:
— Melhor ainda, eu vou te pegar na sua casa.
Amor, não.
Eu não nasci ontem e definitivamente não tenho interesse em virar pauta do Cidade Alerta. Não existe universo em que eu compartilhe meu endereço com um homem que conheci há horas atrás, por mais simpático que ele pareça ser em mensagens.
Eu disse apenas que estaria por Pinheiros. Ele não precisava saber que eu já frequentava as redondezas, porque, se ele estava me chamando em cima da hora, eu definitivamente não assumiria o trabalho de planejar um date inteiro para facilitar a vida dele.
Perguntei mais uma vez se ele tinha certeza. Marcelo morava longe. E quando eu digo longe, quero dizer longe mesmo. Do outro lado de São Paulo. Longe o suficiente para qualquer cara minimamente racional olhar para o mapa, para o horário, para quantos graus faria à noite na previsão do Google e pensar: talvez não.
Mas ele insistiu. Queria porque queria me ver, disse ele.
Antes de aceitar, fiz questão de deixar uma coisa muito clara: eu não ia transar com ele. Não queria sexo. Não tenho absolutamente nada contra quem transa no primeiro encontro, mas eu não funciono assim. Preciso sentir atração, conversar, entender se existe química, se existe clima, se existe alguma coisa além de dois corpos ocupando a mesma calçada. Só depois disso meu corpo decide se vai colaborar com a pauta. Paciência.
Marcelo disse que tudo bem.
Depois do encontro com as meninas do clube do livro — um beijo para o Além da Trend Club, inclusive, que estão me lendo neste exato momento e são sobreviventes da literatura e testemunhas indiretas do início desta tragédia — fui encontrá-lo no restaurante escolhido: um italiano, num frio da porra, desses em que você começa a se perguntar se realmente precisa viver experiências ou se ficar em casa de pijama teria sido uma escolha melhor.
Ugh. O que uma pesquisadora dedicada não faz pelo bem da sua tese, não é mesmo?
Cheguei, e então vi Marcelo.
Não sei exatamente como suavizar esta parte sem mentir para vocês, então vamos apenas aceitar a deselegância dos fatos: o homem era baixinho e feio. Muito diferente das fotos do aplicativo. E antes que alguém tente me colocar no tribunal de Haia11 por dizer isso, deixo registrado que não estou aqui posando de Gisele Bündchen. Eu conheço meus limites. Sei que existem muitas mulheres no mundo bem mais bonitas do que eu. Mas também sei que, no ângulo certo, arrumada, cheirosa e minimamente iluminada por uma boa luz de restaurante, eu sou bonita sim. Posso não ser extraordinária, e sei que não sou celestial. Também estou bem longe de ser a Kate Moss12, mas igualmente longe de ser uma participante de Quilos Mortais13, e o mais importante: sou honesta sobre meu corpo, meu rosto e minha altura nos aplicativos.
Então, sim, acho que tenho o direito de reclamar quando descubro presencialmente que fui enganada por um conjunto criminoso de fotos antigas e uma declaração de altura que claramente pertencia ao campo da ficção especulativa. Porque, com todo respeito à literatura fantástica, aquele homem definitivamente não tinha 1,77m como dizia no app. Tinha bem menos. Não sei em que unidade de medida ele informou aquele número, mas certamente não era em centímetros reconhecidos pelo INMETRO.
Ainda assim, tentei ser justa.14
Beleza não é tudo. Estatura também não. Existem homens bonitos e altos como um poste com a energia sexual de uma tomada queimada e homens nanicos considerados “feios” que, depois de cinco minutos de conversa, ficam inexplicavelmente gostosos. Personalidade faz milagres, querido leitor. Carisma opera ressurreições, acredite. Inteligência já tirou muita gente do purgatório estético. Sendo assim, respirei fundo, abandonei temporariamente meus instintos mais cruéis e decidi dar uma chance ao encontro.
O problema é que Marcelo também era um bananão.
Falava baixo, como se estivesse pedindo desculpas por ocupar matéria no universo. Eu mal conseguia entender o que ele dizia. Na entrada do restaurante, ele sequer conseguiu dar boa noite para a moça da recepção e informar uma tarefa administrativa tão complexa quanto “mesa para dois”. Foi uma daquelas cenas pequenas, aparentemente bobas, que dizem mais do que deveriam. Porque, naquele segundo, eu senti uma coisa muito específica morrer dentro de mim: a libido.
Ali, diante daquele homem incapaz de conduzir a própria chegada a um restaurante, fui violentamente transportada às minhas desventuras com homens que exigem que a mulher assuma o papel de mãe, guia turística, assessora de imprensa, gerente de operações e tutora legal.
Eu já vivi tempo demais sendo a adulta funcional das dinâmicas que participei, tanto com homens quanto com mulheres. Já segurei a mão de gente frouxa demais para resolver coisas simples. Já fui “mamãe” de gente que deveria ter autonomia, postura e alguma capacidade básica de existir em público sem parecer uma criança perdida no shopping. Então, quando Marcelo demonstrou que nem a recepção de um restaurante ele conseguia enfrentar, algo em mim fechou para balanço.
Pensei: este será um jantar entre amigos. E tudo bem.
O problema era que nem como amigo o cara funcionava direito.

Porra, Marcelo!
No restaurante, Marcelo não sabia conversar. Ficava olhando para a minha cara com uma expressão que eu não consegui decifrar. Não parecia nervoso de um jeito fofo, tampouco parecia tímido de um jeito vulnerável. Parecia apenas… vazio. Uma beterraba inexpressiva. Uma presença física sentada do outro lado da mesa sem qualquer contribuição aparente para o desenvolvimento da noite. Muito diferente, inclusive, do homem com quem troquei ideia na madrugada anterior e naquela mesma manhã.
Eu tentei, querido leitor. Juro que tentei.
Puxei assunto — e olha que, pessoalmente, sou até que bem tímida com quem não conheço, por incrível que possa parecer.
Fiz perguntas.
Dei aberturas. Comentei coisas. Dei aqueles pequenos ganchos narrativos que qualquer pessoa minimamente interessada poderia usar para continuar uma conversa. Mas as respostas vinham secas, desengonçadas, curtas. E o pior: ele não me fazia uma única pergunta de volta. Nenhuma. Nem por educação, nem por fingimento. Nem por reflexo social condicionado.
Em outro momento da minha vida, eu teria entrado em pânico diante do silêncio e trabalhado dobrado para preencher todos os espaços vazios da mesa. Teria performado carisma por dois, contado histórias, feito piadas, sustentado a noite inteira sozinha porque mulheres são ensinadas a salvar situações desconfortáveis para que os homens não precisem sentir o peso da própria incapacidade social.
Entretanto, a terapia, entre outras coisas, me ensinou a temer menos o silêncio constrangedor.
Então, em determinado momento, simplesmente parei.
Olhei para ele.
Ele olhou para mim.
E ficamos ali, os dois, contemplando o abismo que se formava entre uma taça de vinho e outra.
— Então...? — tentei duas vezes.
Nada.
Nem uma risadinha sem graça. Nem uma tentativa. Nem um comentário qualquer sobre o cardápio, o clima, a vida, a morte, a alta do aluguel em São Paulo ou a decadência moral dos aplicativos de relacionamento.
Perguntei se estava tudo bem. Ele respondeu apenas…
— Tá, tá sim.
Ótimo. Se estava tudo bem para ele, quem era eu para discordar?
Naquele momento, já preparada para pagar minha janta e nunca mais repetir aquela experiência, fiz meu pedido. Ele fez o dele. Bebi meu vinho. Tentei mais um pouco. Falei de mim por conta própria, já que o cidadão aparentemente não tinha curiosidade suficiente para perguntar qualquer coisa. E, conforme os minutos passavam, comecei a sentir aquela gratidão profunda e quase religiosa que só aparece quando percebemos que um estabelecimento está prestes a fechar.
Quando o restaurante começou a encerrar a noite, agarrei a oportunidade com a força de uma mulher que vê a porta de emergência durante um incêndio. Disse que era melhor irmos embora, que estava tarde, que eu estava cansada e que no dia seguinte trabalharia cedo. Menti, obviamente. Mas, naquele momento, a mentira era, para mim, menos uma falha moral e mais um mecanismo de sobrevivência social.
Peguei meu cartão para pagar minha parte e, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, Marcelo pagou a conta inteira.
Sinceramente, eu não esperava. Achei gentil. Achei cavalheiro. Ele não era obrigado a fazer isso — nós não tínhamos combinado nada antes e, como mulher adulta e financeiramente responsável (quer dizer… eu tento, mas isso não vem ao caso), eu sempre saio preparada para pagar o que consumo. Mas se a pessoa com quem eu saio decide pagar a conta, também não vou fingir indignação performática para agradar a militância do date 50/50. Agradeci. De verdade.
Foi depois disso, porém, que talvez eu tenha entendido uma possível motivação por trás da gentileza. Não afirmo — sou apenas uma humilde pesquisadora de campo levantando hipóteses com base nas evidências disponíveis. Mas o fato é que, enquanto eu pedia meu Uber, Marcelo grudou na lateral do meu corpo de uma forma tão desengonçada que parecia uma pulga aventureira tentando escalar um sofá. Aproximou o rosto do meu pescoço, tentou beijar meu cangote e começou a sussurrar coisas safadas e constrangedoras no meu ouvido.
Porra, Marcelo! Com que clima, Marcelo?
Com que atmosfera? Com que trilha sonora?
Com que autorização, Marcelo?
O homem havia passado o jantar inteiro com a energia comunicativa de um eletrodoméstico desligado e, de repente, achou que era o momento ideal para encarnar o protagonista de um romance erótico de banca.
A cena foi tão desconectada da realidade que eu precisei me segurar para não rir. Não de nervoso — de incredulidade mesmo. Existe algo profundamente broxante em um cara que não consegue sustentar uma conversa, mas acredita que pode sustentar tensão sexual encostando na lateral do seu corpo tal qual um carrapato carente.
Graças a Exu, às Pombagiras e à padroeira das mulheres que querem ir embora sem transformar a noite em um boletim de ocorrência, havia uma cavaleira de armadura reluzente senhorinha parada ali perto, a poucos metros da entrada do restaurante, me esperando com seu cavalo Ônix branco. Minha heroína. Minha sentinela. Aproveitei a presença dela como quem se agarra a uma boia no meio do naufrágio, dei um abraço rápido em Marcelo, agradeci pelo jantar, disse que tinha sido bom conhecê-lo e saí correndo para o carro.
Nem todo herói usa capa. Às vezes, ele é uma velhinha que usa aplicativo de transporte e aceita a corrida no momento certo.
Agora, é claro que eu também não sou a santa desta história.
Porque, antes disso tudo, durante o rolê com minhas amigas e depois no restaurante, tive o enorme prazer de biscoitar no Instagram.
Postei minhas amigas. À noite, postei meu look. E, claro, postei uma foto bem bonita do jantar, das duas taças de vinho e do braço masculino do outro lado da mesa.
Não vou mentir aqui e fingir que foi acidente — eu sabia exatamente o que estava fazendo em algum nível subterrâneo da minha alma. Francisco, obviamente, viu. E eu, obviamente, ri horrores quando voltei do date falido e encontrei não apenas mensagens dele, mas também de outras pessoas reagindo ao espetáculo cuidadosamente curado da minha vida social.
Isso é feio? Sim. Eu sei que é. Nem vou falar “talvez” para uma resposta que é inevitável.
É humano? Infelizmente.
No fim das contas, tive minha janta e meu vinho pagos, biscoitei no Instagram, alimentei meu ego sem querer querendo e ainda voltei para casa com material suficiente para uma edição inteira desta coluna.
Disclaimer: antes que algum macho liso, redpill15 ou gatinha pick-me girl16 metida a santa protetora dos pintos venha se contorcer e soltar espuma pela boca diante deste relato, faço questão de lembrar uma coisa a vocês: uma mulher interesseira quer um apartamento dado pelo CEO de uma multinacional, não a porra de uma janta de oitenta reais paga por um maluco do TI de alguma empresa na Zona Leste. Tenham escala. Desenvolvam repertório. Estudem o inimigo antes de passar vergonha.
O que eu não tive, no entanto, foi vontade de ver Marcelo de novo. E esse era o problema. Porque Marcelo, aparentemente, teve.
Na verdade, Marcelo teve vontade suficiente por nós dois.
Depois do encontro, ele me seguiu no Instagram. Até aí, tudo bem. Estamos todos nessa desgraça digital chamada século XXI e seguir alguém depois de um date não é exatamente um pedido de casamento.
O problema é que ele não me seguiu apenas com uma conta. Me seguiu com duas.
Duas contas, Marcelo. Duas.
Um homem que mal conseguiu sustentar uma conversa no jantar e que parecia ter um ratinho assustado como espírito animal, mas aparentemente possuía uma infraestrutura de monitoramento social digna de agência de inteligência.
E então começou a enxurrada.

Durante a noite inteira, Marcelo me mandou Reels.
Não um ou dois. Não uma quantidade socialmente aceitável, como quem vê um vídeo engraçado, lembra da pessoa e envia com um “kkkk lembrei de vc”.
Não. Marcelo me entupiu com uma quantidade de Reels que, se convertida em energia elétrica, provavelmente abasteceria uma cidade de médio porte por algumas horas. E o pior é que a maioria deles ou tinham forte cunho sexual, ou tinham um cunho apaixonado tão deslocado da realidade que eu precisei olhar para o celular e me perguntar se aquele homem realmente esteve no mesmo encontro que eu. Porque, até onde minha memória alcançava, nós sequer tínhamos nos beijado. Nós não tínhamos flertado de forma consistente. Nós não tínhamos construído tensão sexual. Nós não tínhamos sequer estabelecido uma conversa plenamente funcional. Eu mal tinha conseguido entender metade do que ele dizia sem precisar inclinar o corpo sobre a mesa como uma professora alfabetizando uma criança tímida.
E, mesmo assim, ali estava Marcelo, enviando indiretas, Reels, comentários e mensagens como se tivéssemos protagonizado uma noite inesquecível de paixão em alguma fanfic escrita por uma adolescente no Wattpad17.
Para que eu vou mentir? É óbvio que aquilo alimentou um pouquinho o meu ego.
Não de uma forma bonita, nem de uma forma nobre (se é que existe forma “nobre” de alimentar nosso ego). Porque, por mais que eu saiba racionalmente que a maioria dos homens é um bando de cães no cio e que muitos só não enfiam o pau na tomada porque dá choque, ainda existe algo perversamente engraçado em perceber que um cara que você conheceu havia menos de vinte e quatro horas, com quem teve uma conversa morna, um jantar ruim e sequer deu um selinho, estava agindo como se tivesse encontrado a mulher da vida dele entre uma taça de vinho e uma tentativa fracassada de beijar seu cangote.
Eu ri. Por um segundo, eu ri.
Depois silenciei ele e segui a vida.
Não é que eu tenha imediatamente desaparecido. No começo, eu ainda respondia quando minha paciência permitia. A gente chegou a conversar um pouco depois do date, principalmente nos raros momentos em que Marcelo não estava lotando meu WhatsApp com mensagens me chamando de gostosa, de princesa e — aqui peço licença a vocês para respirar fundo antes de prosseguir — de “minha” princesa.
Sua?
SUA?
Marcelo, eu não sou nem minha direito. Quem dirá sua.
Existe uma categoria muito específica de homem que conhece uma mulher numa sexta à noite, leva para jantar no sábado e, no domingo, já começa a falar com uma intimidade proprietária que faria qualquer mulher com instinto de sobrevivência procurar a saída de emergência mais próxima. “Minha princesa” é uma expressão que, na boca de alguém com quem você tem intimidade, é maravilhosa. Na boca de uma pessoa que você conheceu há duas madrugadas e que tentou sussurrar safadezas no seu ouvido sem ter construído um único mísero clima para isso, soa menos como carinho e mais como prenúncio de um documentário investigativo da Netflix.
Mas nada superou o momento em que Marcelo, dias depois, com a coragem dos emocionalmente desassistidos, me disse que, se eu quisesse algo sério, ele estava disponível.

Oi, tem vaga?
Meu filho.
Ô, MEU FILHO!
Deixa eu recapitular pra você, querido leitor: o bananão não sabia nem qual era meu nome verdadeiro. O cara achava que meu nome de batismo era Venus.
Ele não sabia meu sobrenome, minha história, minhas neuroses, minhas contradições, minhas manias, meus medos, meus traumas, minhas vontades, minhas pequenas crueldades, minhas grandes vergonhas, nada. Ele sabia, no máximo, que eu gostava de conversar, que eu frequentava Pinheiros e que tinha ficado bonita naquele dia porque eu mesma fiz questão de me montar para sair. E, com esse conjunto absolutamente miserável de informações, ele decidiu que estava disponível para algo sério comigo.
Oh, meu deus! Que sorte a minha! Ele está disponível!
Pena que eu não tinha perguntado nada.
É exatamente esse o tipo de coisa que me faz desconfiar que a maioria das pessoas não se apaixona por nós. Elas se apaixonam pela vaga. Pela possibilidade. Pelo cargo aberto.
A maioria das pessoas é tão carente que se apaixona pela ideia, pela fantasia de preencher um espaço emocional vazio com a primeira pessoa minimamente interessante que atravessa a tela do celular usando um batom bonito e uma frase espirituosa.
Não era sobre mim. Não tinha como ser sobre mim. Marcelo não me conhecia o suficiente para querer algo comigo; no máximo, conhecia o suficiente da persona que apresentei para projetar em mim uma versão conveniente de alguém que talvez coubesse na carência dele. E não existe nada mais broxante do que perceber que você não está sendo desejada como pessoa, mas recrutada como solução.
E aqui entra a parte em que eu gostaria muito de dizer que fui madura, sensata e emocionalmente responsável.
Não fui.
Eu poderia ter me comunicado como uma adulta funcional. Poderia ter dito: “Olha, Marcelo, obrigada pelo jantar, mas não senti química e acho melhor não continuarmos conversando.” Poderia ter sido direta, educada, respeitosa. Poderia ter evitado qualquer ambiguidade e encerrado aquilo com a dignidade mínima que todo ser humano merece, mesmo quando se comporta como uma pulga aventureira enviada pelo algoritmo para testar nossa paciência. Poderia, inclusive, ter bancado a Tech Recruiter18 do LinkedIn e mandado algo como:
“Prezado Marcelo,
Após cuidadosa avaliação dos indicadores apresentados durante nossa interação presencial, concluímos que não haverá avanço para as próximas etapas do processo seletivo.
Entre os principais fatores observados, destacamos: incompatibilidade estética relevante, excesso de emoção para uma pessoa que desconhecia meu nome de batismo, baixa performance comunicacional, tentativa de intimidade física sem construção prévia de clima e uma energia geral de pão de forma sem casca.
Agradecemos seu interesse e desejamos sucesso em seus próximos processos seletivos afetivos.”
Mas eu não fiz isso. Eu simplesmente dei ghosting nele. E aqui não existe defesa, caro leitor. Apenas confissão.
Eu sumi porque fui covarde e, possivelmente, cretina. Simples assim. Sumi porque não queria lidar com a reação dele. Sumi porque estava cansada. Sumi porque era mais fácil deixar a conversa morrer do que explicar para um homem com 30 anos nas costas que pagar uma janta não compra acesso ao meu corpo, ao meu tempo, à minha atenção, ao meu WhatsApp ou ao meu futuro hipotético. Sumi porque, às vezes, a gente não quer ser pedagógica. Às vezes, a gente não quer ser gentil. Às vezes, a gente só quer que a pessoa entenda o óbvio sem que seja necessário redigir um memorando afetivo em três vias.
Isso justifica alguma coisa ou me torna certa? Com certeza não.
Depois que percebeu o ghosting (e aqui preciso reconhecer que a lesma demorou, mas eventualmente chegou ao destino), eu jurei que Marcelo seguiria o roteiro clássico de muitos homens rejeitados na internet: achei que viria me xingar, que me chamaria de puta, cadela, interesseira, rodada, ingrata, oportunista, ou qualquer variação linguística do desespero masculino quando descobre que uma mulher pode aceitar um jantar e ainda assim não querer sentar nele depois. Achei que ele pediria um Pix referente à conta do restaurante, talvez acrescido de danos morais, taxa de deslocamento e correção monetária pela humilhação de não ter sido beijado tal qual o famigerado príncipe anfíbio da história de A Princesa e o Sapo19.
Mas, por algum milagre, ele não fez isso.
Em vez disso, Marcelo escolheu um caminho alternativo: ficou me dando unfollow e follow de novo no Instagram. Repetidamente. Como se aquilo fosse uma estratégia. Como se eu, ao ver a notificação, fosse levar a mão ao peito, encarar o horizonte e dizer: “Meu Deus, Marcelo me seguiu novamente. Talvez eu tenha cometido um erro. Talvez o amor da minha vida fosse, esse tempo todo, o homem que sequer conseguiu dar boa noite pra recepcionista do restaurante.”
Chamou minha atenção, é verdade. Mas não da forma que ele queria.
O bloqueei no Instagram (as duas contas) e no WhatsApp.
Porra, Marcelo. É por isso que você tá solteiro, Marcelo!
É aqui que esta segunda história deixa de ser apenas um relato vergonhoso sobre um date ruim, uma janta paga e um ghosting praticado por esta humilde narradora pecadora, para se tornar parte da pergunta maior desta edição. Porque, depois de ouvir histórias como a de Bárbara e Mariana, depois de revisitar a minha própria aventura com Marcelo, depois de lembrar das vezes em que eu também já fui abandonada no limbo digital, não consegui evitar aquela pergunta clássica, cafona e muito conveniente para uma mulher escrevendo uma coluna inspirada na Carrie Bradshaw.

And I couldn’t help but wonder…
Quem realmente tem medo de ghosting?
E por que, afinal, ele acontece?
As evidências dos nossos estudos de caso parecem apontar para uma resposta pouco romântica: ghosting acontece por covardia. Ponto.
Às vezes é medo de comunicar. Às vezes é preguiça emocional. Às vezes é a completa incapacidade de sustentar o desconforto de dizer “não” para alguém que espera ouvir “sim”. O ghosting é, muitas vezes, a retirada estratégica de quem não quer lidar com o impacto da própria decisão no rosto do outro. É a pessoa tirando o próprio cu da reta, apagando a luz e fingindo que, se não responder, a situação deixa de existir.
E eu sei que, dito assim, parece simples. Porque, em tese, é simples. Bastaria dizer “não quero continuar”, “não senti química”, “não estamos na mesma página”, “não vai rolar”. São frases curtas, diretas, perfeitamente possíveis de serem digitadas por qualquer pessoa com polegar opositor e um mínimo de caráter. A maturidade afetiva, no fim das contas, talvez seja só isso: a disposição de causar uma pequena dor honesta em vez de deixar alguém apodrecendo dentro de uma dúvida.
Mas a vida adulta, infelizmente, não costuma operar na clareza moral dos manuais de comportamento.
Porque existe ghosting e existe ghosting.
Uma coisa é desaparecer da vida de uma pessoa com quem você construiu vínculo, intimidade, expectativa, rotina e algum tipo de promessa, mesmo que não verbalizada. Outra coisa é sumir da conversa de um estranho que mal chegou a virar conhecido. Ambas são covardia, sim. Ambas são falta de comunicação. Ambas podem revelar uma incapacidade profundamente contemporânea de lidar com frustração, rejeição e encerramento. Mas fingir que os dois casos têm o mesmo peso seria desonestidade intelectual — e olha que desonestidade intelectual é uma área em que a internet vem se especializando com louvor.
Existe uma diferença entre abandonar alguém no meio de uma história e simplesmente não querer sequer escrever o prólogo com ela.
Quando uma pessoa deposita sentimentos reais em você, quando existe constância, quando existe presença, quando existe uma construção emocional que autoriza o outro a esperar alguma coisa, o desaparecimento vira violência. Não violência no sentido histérico e inflacionado que algumas pessoas usam para transformar qualquer desconforto em trauma cinematográfico, mas violência no sentido mais simples e cruel da palavra: você causa um dano porque se recusa a sustentar a consequência da sua própria escolha. Você deixa o outro sem resposta, sem chão, sem ponto final. E, às vezes, a ausência de ponto final prende uma pessoa por muito mais tempo do que uma rejeição direta prenderia.
Mas quando falamos de alguém que você viu uma vez, por poucas horas, em um encontro ruim, sem beijo, sem química, sem promessa, sem história e sem qualquer contrato emocional minimamente estabelecido, talvez o ghosting seja menos uma tragédia e mais um sintoma menor de um sistema já falido.
Ainda é covarde? Com toda certeza. Ainda é feio. Ainda seria melhor falar. Mas talvez nem todo desaparecimento mereça o mesmo luto. Talvez nem toda conversa interrompida seja um abandono. Talvez algumas pessoas não tenham partido o nosso coração; talvez elas apenas tenham saído de uma sala onde nunca chegaram a entrar de verdade.

Eu já recebi ghosting. E, sim, me incomodou.
O mais recente, inclusive, foi de um carinha bonito, inteligente, com iniciativa e uma pegada tão gostosa que eu, até hoje, tenho certa raiva retrospectiva de mim mesma por não ter aceitado a proposta de ir embora com ele quando tive a chance.
No dia seguinte, ele sumiu. Evaporou. Desapareceu como se tivesse sido convocado por uma entidade superior dos homens gostosos que aparecem uma vez na sua vida apenas para te lembrar que o universo adora sacanear mulheres difíceis.
E eu fiquei passando vontade e irritada. Não porque estivéssemos apaixonados, não porque houvesse algo profundo ali, não porque eu tivesse planejado a porra da nossa aposentadoria conjunta em Ilhabela. Mas porque eu queria uma próxima oportunidade. Eu queria descobrir se aquele fogo todo realmente causaria um incêndio dentro do quarto, ou se ia ser mais uma pataquada com trilha sonora digna de efeitos do programa do Rodrigo Faro20. Eu queria, sendo muito honesta, uma segunda dose daquele problemão que aquele garoto parecia ser.
Mas será que esse ghosting importou mesmo? Ou eu apenas fiquei contrariada porque aquilo mexeu com meu ego?
Talvez parte da dor do ghosting esteja justamente aí. Não necessariamente na perda da pessoa, mas na perda do controle sobre o fim.
Quando alguém some, não nos deixa participar do encerramento. Não nos permite reagir, perguntar, discordar, aceitar, recusar, responder com dignidade ou fazer uma piada ruim para salvar nosso orgulho. A pessoa simplesmente decide sozinha que acabou, e nós ficamos do lado de fora da própria história, olhando pela janela enquanto alguém muda a fechadura.
Talvez por isso ghosting incomode tanto mesmo quando vem de quase desconhecidos. Ele não precisa destruir um coração para ferir um ego. E, convenhamos, às vezes o ego grita mais alto do que o coração justamente porque é ele quem passa a maior parte da vida tentando fingir que não se importa.
No fim, não acho que exista uma resposta limpa. Ghosting é covardia, sim, mas também é sintoma.
É o sintoma de uma vida amorosa transformada em fila, catálogo, entrevista, triagem, teste A/B, processo seletivo e descarte silencioso. Sintoma de uma geração exausta, ansiosa, hiperconectada e paradoxalmente incapaz de sustentar uma conversa desconfortável por cinco minutos. Sintoma de gente que quer intimidade sem responsabilidade, desejo sem consequência, intensidade sem compromisso e acesso emocional sem o trabalho banal de tratar o outro como pessoa.
Mariana fez isso com Bárbara quando vendeu intensidade sem querer compromisso e depois desapareceu deixando uma mulher transtornada escrevendo textos de amor com gosto de ódio. Eu fiz isso com Marcelo quando preferi sumir a deixar claro que acho ele um doente e que não queria comprar uma casa no Hawaii e ter cinco filhos e um cachorro com ele. Marcelo, por sua vez, sendo o bananão do caralho que é, fez sua própria contribuição para seu próprio colapso ao confundir um jantar medíocre com prévia de relacionamento sério e transformar rejeição em coreografia patética de unfollow e follow no Instagram.
Todos culpados. Alguns mais ridículos que outros.
Talvez seja isso que torne o ghosting tão interessante e tão insuportável: ele revela nossa incapacidade coletiva de lidar com o fim.
Ninguém sabe encerrar nada. Ninguém sabe dizer “não”. Ninguém sabe ouvir “não”. Ninguém sabe ser rejeitado sem transformar isso em humilhação pública dentro da própria cabeça. Ninguém sabe rejeitar sem sentir que está cometendo um crime. Então a gente some, bloqueia, silencia, arquiva, visualiza e não responde, enquanto finge que a tecnologia complicou aquilo que, na verdade, sempre foi profundamente humano: o medo de olhar para alguém e admitir que o desejo acabou, ou pior, que talvez nunca tenha começado.
E ainda querem me dizer que amor existe?
Hahahaha.
A análise desta segunda edição continua me fazendo crer numa tese pouco científica, porém bastante honesta: não existe amor em São Paulo. Existe projeção. Existe carência. Existe tesão mal administrado. Existe gente bonita com ex mal resolvida, homem emocionado com duas contas no Instagram, mulher covarde escrevendo newsletter e uma multidão de pessoas tentando transformar desconhecidos em destino porque estão cansadas demais para atravessar a própria solidão sem muleta.
Talvez a parte mais constrangedora de tudo isso seja admitir que eu, a romântica oficial desta espelunca, a mulher que vive dizendo acreditar no amor enquanto escreve páginas e páginas sobre sua falência, talvez não seja tão romântica assim.
Ou talvez seja justamente por ser romântica que eu seja tão cruel.
Porque, quando a gente acredita demais no amor, qualquer coisa menor do que ele começa a parecer uma ofensa pessoal.

🧪 Status da Pesquisa
Hipótese atual: Não existe amor em São Paulo.
Evidências coletadas: Muitas — sustentadas, principalmente, por gatas emocionalmente indisponíveis que ainda amam a ex, nerds saborosos que desmarcam dates e gostosos tatuados que te pegam de jeito pra depois evaporarem no ar.
Evidências contrárias: Bananões de 1,70m que querem relacionamento sério com quem mal conhecem.
Nível de confiança da pesquisadora: Em queda livre.
Nível de acidez: Elevadíssimo.
Risco de viés emocional: Moderado — PH equilibrado devido ao alto nível de gargalhadas proporcionadas pelo experimento.
Próximo passo da pesquisa: Continuar me envolvendo em situações que claramente renderão material para futuras publicações.
🧪 Na próxima edição
Por que algumas bandeiras vermelhas são tão bonitas tremulando ao vento que ignorá-las parece ser falta de educação? Bem, eu tenho uma pergunta melhor: já que gente filha da puta vai prometer intensidade de qualquer maneira mesmo... por que não aproveitar a massagem no ego enquanto dura? Em outras palavras: em lovebombing não se cai, se surfa.
Do inglês, “bandeira vermelha”. No vocabulário afetivo contemporâneo, é todo sinal de alerta que aparece no comportamento de uma pessoa antes que ela oficialmente transforme sua vida amorosa num episódio de Casos de Família gravado dentro da sua cabeça. Pode se manifestar de várias formas: falar mal demais da ex, dizer que “não quer nada sério” enquanto age como se estivesse ensaiando votos de casamento, chamar uma mulher de “minha” depois de um jantar, mandar Reels sexuais sem ter recebido sequer um selinho ou escrever “oque” junto. Em teoria, serve para nos proteger. Na prática, a gente costuma ver a bandeira vermelha tremulando lindamente ao vento e pensar: “mas e se for só decoração?”
Referência àquela psiquiatra brasileira que circula pela internet como uma espécie de entidade onipresente do diagnóstico popular, frequentemente invocada em cortes de podcast, vídeos motivacionais, discussões sobre narcisismo e Borderline e comentários de gente que acabou de aprender a palavra “psicopata” e decidiu aplicá-la ao ex, ao chefe, à mãe, ao ficante e ao atendente do iFood. Aqui, o uso é menos científico e mais cultural: uma abreviação para esse fenômeno maravilhoso em que todo mundo passa três minutos no TikTok e sai convencido de que possui formação clínica suficiente para diagnosticar metade da população brasileira.
Antes que apareça algum Capitão Óbvio nos comentários pra falar “MAS VENUS, E SE A MINHA EX TENTOU MATAR A MINHA VÓ COM UMA MOTOSSERRA???”: obviamente não estou falando de ex-parceiros abusivos, violentos ou criminosos, ou de situações traumáticas que legitimamente deixam marcas profundas. Estou falando da ex comum. A ex babaca. O ex filho da puta. O término normal e ordinário que acontece bilhões de vezes por dia no mundo. Se a pessoa continua dedicando discursos inteiros ao indivíduo que terminou com ela três anos atrás só porque ele era um escroto genérico, tenho péssimas notícias: esse aluguel emocional continua sendo pago em dia. Newsflash, vadia: todo dia nasce um filho da puta novo no planeta Terra, e eles não vão deixar de existir tão cedo. É provável, inclusive, que você também seja um filho da puta e não tenha percebido ainda. Lide com isso.
Estratégia afetiva na qual uma pessoa te enche de atenção, elogios, promessas, intensidade, planos futuros e frases supostamente profundas em um intervalo de tempo tão curto que qualquer mulher com um mínimo de instinto de sobrevivência deveria acender um sinal vermelho, chamar uma amiga e consultar os búzios. O problema é que, às vezes, a pessoa é bonita, cheirosa e sabe falar exatamente o que a gente quer ouvir. Aí o sinal vermelho começa a parecer iluminação romântica.
Do inglês delusional. Em português claro: iludida, delirante, emocionalmente criativa. Estado mental de uma idiota que ainda tem esperanças de que exista amor em SP. Spoiler: não existe.
Criaturinhas fictícias do universo de A Fantástica Fábrica de Chocolate, frequentemente lembradas pela baixa estatura, pela estética peculiar e surgirem cantando uma lição de moral depois que uma criança se fodia grandemente no filme. Neste texto, a referência não possui qualquer compromisso com a justiça, a delicadeza ou a gentileza. É apenas uma ofensa visualmente eficiente. Às vezes a literatura serve justamente para isso.
Cantor canadense absurdamente gostoso que serviu como padrão de comparação para homens brancos genéricos durante boa parte da década de 2010. Também protagonizou, ao lado de Camila Cabello, uma novela romântica tão longa e confusa que deixou metade do Twitter em estado permanente de análise comportamental.
Se você não sabe quem é Shawn Mendes ou Camila Cabello, existem três possibilidades: você tem mais de 40 anos, vive completamente desconectado da internet ou é hétero.
Mulher conhecida por ter sido listada durante anos como dona de um dos QIs mais altos já registrados no mundo. Aqui, aparece como forma dramática e levemente ridícula de dizer: “não estou afirmando ser um gênio absoluto da humanidade, mas também não vou fingir que sou uma porta só para um homem medíocre se sentir confortável”. Uma referência útil para quando a modéstia performática começa a parecer mais cansativa do que a arrogância honesta.
I touched some nerve there, huh?
Lembrete necessário, já que teve homem que chegou chorando nas minhas DMs (HAHAHA tô me sentindo famosa) sobre “papéis de gênero” como se tivessem acabado de descobrir o feminismo através de um corte ruim de podcast no TikTok: eu sou uma mulher bissexual, gatões. Tão enchendo a boca pra falar de papel de gênero… mas… papel de qual gênero, exatamente, se eu gosto de todos?
Minhas preferências valem para homens e para mulheres. Quando digo que gosto de gente com iniciativa, estou falando de gente. Não de cromossomo, não de pênis, não de performance obrigatória de masculinidade, não de contrato heteronormativo assinado com firma reconhecida.
Porque, pelo visto, alguns de vocês leram “eu gosto de gente com iniciativa” e entenderam “por favor, venham até minha DM explicar por que eu estou errada por gostar do que gosto!”. Sinto muito em acabar com seus sonhos, fofinhos, mas nenhum PowerPoint no mundo que vocês me apresentem vai fazer com que eu mude de ideia, e nenhum choro vai fazer com que eu — ou qualquer outra mulher com preferências parecidas — escolha vocês só porque vocês ficaram frustradinhos com a rejeição imaginária que sofreram ao ler um mísero parágrafo na internet.
E essa talvez tenha sido a parte mais patética de todas. Porque, em determinado momento, o chororô começou a soar menos como um debate sobre papéis de gênero e mais como uma criança puxando a barra da saia da mamãe e pedindo: “olha pra mim, me valida, me escolhe, diz que eu também sou desejável!!!”. Meu bem, eu sinto muito, mas eu não sou sua mãe. Não estou aqui para curar sua ferida de rejeição, acariciar sua insegurança ou fingir atração por uma dinâmica que não me interessa só pra você se sentir incluído no mercado afetivo.
O mais engraçado é que, quando alguns descobriram que sou bissexual e que o que eu curto em homens também curto em mulheres — ou seja, quando o argumento preguiçoso sobre “papéis de gênero” caiu de bunda no chão — começou a segunda fase do espetáculo: as projeções.
“Ah, mas então você quer dizer que não quer fazer nada…”, “ah, mas então o outro… digo… a outra pessoa… ela é obrigada a…”, “ah, mas então a sua preferência significa que…”. KKKKKKK pelo amor de Exu, meus amores! Calma. Respirem. Daqui a pouco vai chegar gente dizendo: “Ah, Venus, então você quer todos os homens mortos e gostaria de ser carregada tal qual Cleópatra numa liteira dourada por seis escravos musculosos enquanto exige que alguém descasque uvas na sua boca? É isso mesmo que você está defendendo, Venus?”
Olha, veja bem: ser carregada tal qual Cleópatra parece uma experiência interessante. Não vou mentir. Mas não foi isso que eu falei.
Isso é vocês lendo coisas que não estão escritas porque uma preferência pessoal encostou exatamente na ferida que vocês fingem não ter. Eu disse que gosto de gente com iniciativa. Simples assim. Só isso. O texto está claro, mastigado, elucidativo e cheio de legendas para quem chegou cansado do trabalho. Se mesmo assim vocês precisam transformar uma frase simples numa teoria conspiratória sobre mulheres, gênero, dominação, passividade, masculinidade e o fim da civilização ocidental por causa de uma merda de conta paga (céus, como os héteros sofrem), talvez o problema não esteja no texto. Talvez esteja no fato de que vocês são um bando de bananões inseguros mesmo, provavelmente primos do Marcelo, ou daí para pior.
As pessoas são diferentes, lide com isso. Dinâmicas que funcionam para mim podem não funcionar para você, e isso é perfeitamente normal. Em nenhum momento eu disse que é errado ser mais passivo, preferir ser conduzido ou gostar de outra configuração. Eu disse que eu não gosto. Simples assim. E, se uma mulher dizendo “eu não gosto disso” já é suficiente para abrir um buraco emocional enorme no meio do seu peito e alugar um triplex na sua cabeça, talvez o problema não seja a minha preferência. Talvez seja a sua necessidade desesperada de transformar qualquer não em humilhação pessoal.
Pode chorar o quanto quiser. Pode escrever tese, comentário, thread, manifesto e carta aberta para a ONU dos homens não escolhidos e não comidos com cintaralho. No fim, eu vou continuar escolhendo quem me atrai (spoiler: não é você), você vai continuar tendo o direito de procurar alguém que goste da sua dinâmica, e todos nós seguiremos vivos nesse planeta com oito bilhões de pessoas. Vá atrás de quem combina com você. Ou de terapia. Preferencialmente os dois.
O que não dá é transformar a sua insegurança em problema meu. Porque aí eu serei obrigada a transformar você em um personagem de uma edição desta coluna.
Áudio/meme do TikTok usado por pessoas cronicamente online para expressar aquele momento muito específico em que você percebe que alguém interessante talvez tenha sido emocionalmente sequestrado por outra pessoa, outro contatinho, outra ficante, outro match ou qualquer entidade misteriosa que surgiu entre uma mensagem respondida em cinco minutos e outra respondida em cinco horas. Não é exatamente ciúmes. É mais uma mistura de intuição, humilhação preventiva e paranoia algorítmica. Em outras palavras: romance moderno.
Nome usado popularmente para se referir a tribunais internacionais sediados em Haia, na Holanda, onde se julgam questões muito mais graves do que uma mulher dizendo que um date mentiu a própria altura num app. Neste texto, aparece como exagero dramático porque aparentemente algumas pessoas tratam opinião sobre homem feio como crime contra a humanidade.
Modelo britânica, ícone fashion dos anos 90 e uma das santas padroeiras da magreza extrema que assombrou o imaginário fashion da internet. A ela é popularmente atribuída a frase “nothing tastes as good as skinny feels”, slogan da estética que o Tumblr de 2014 transformou em religião.
Reality show também conhecido como My 600-lb Life, no qual pessoas com obesidade severa tentam perder peso enquanto o público assiste tudo com uma mistura desconfortável de curiosidade, culpa e vontade de nunca mais abrir o iFood. Aqui, usado apenas como referência exagerada para dizer: “calma, eu posso não ser a Kate Moss, mas também não tô enganando ninguém no aplicativo com uma realidade paralela.”
Disse eu, depois de esculachar o homem.
Subespécie particularmente barulhenta da internet masculina, geralmente composta por homens que transformaram rejeição, ressentimento e fracasso afetivo em teoria social de baixa qualidade. Costumam acreditar que mulheres são interesseiras, cruéis, manipuladoras e responsáveis por todas as tragédias da vidinha medíocre deles, incluindo, mas não se limitando a: solidão, pobreza, fracasso acadêmico e/ou corporativo, calvície, falta de carisma e incapacidade de fazer uma mulher rir sem parecer um funcionário do setor de reclamações da masculinidade. Em geral, falam muito sobre “energia feminina” e “energia masculina” para mascarar o fato de que nenhuma mulher inteligente quer chegar perto deles por motivos bastante concretos.
Mulher que constrói sua identidade em torno da necessidade desesperada de ser escolhida, aprovada ou validada por homens, geralmente às custas de outras mulheres. É aquela criatura que jura que “não é como as outras garotas”, que é “one of the boys”, que prefere amizade masculina porque “mulher é muita falsidade e drama”, que jura que o feminismo quer tirar o direito dela de assar um bolo chinfrim pra um macho fodido em uma tarde qualquer, que defende homem medíocre com a coragem de uma advogada criminalista e que, diante de qualquer crítica ao comportamento masculino, surge das sombras para dizer que “nem todo homem é assim” e que “as feminazis são histéricas”, como se alguém tivesse chamado a polícia da generalização e ela fosse a delegada de plantão. Algumas delas juram de pé junto que são as rainhas da sororidade e adoram se nomear “girls’ girls”, mas comumente são as primeiras a puxar seu tapete no ambiente de trabalho se você se destaca um pouco mais que elas e são as primeiras a deixar uma amizade feminina de anos na mão por conta de algum macho qualquer de rolinha mediana e caráter duvidoso.
Plataforma de leitura e publicação online onde uma geração inteira aprendeu que literatura, fanfic, trauma adolescente, bad boys tatuados e erros de português poderiam coexistir no mesmo ambiente digital. Também conhecida como berçário de escritoras, cemitério da revisão textual e local onde muita gente descobriu, cedo demais, que tinha fetiches extremamente específicos.
Profissional de recrutamento especializado em vagas de tecnologia. Figura muito conhecida por mandar mensagens com “oportunidade incrível” no LinkedIn, conduzir processos seletivos com sete etapas, três dinâmicas, um teste técnico, uma call cultural e, no fim, enviar um e-mail dizendo que “seguirão com outros candidatos mais aderentes ao momento da empresa”. Neste texto, aparece porque até rejeitar um date ruim às vezes parece exigir um feedback corporativo em linguagem de RH.
Se bem que o Naveen era um personagem muito carismático. Um dos melhores príncipes da Disney. Não dá pra falar o mesmo do Marcelo. A realidade é dura e cruel.
Cavalo…





Ainda não terminei, mas a parte mais chocante é que o Marcelo tem TRINTA anos nas costas... Como pode em trinta anos não desenvolver nada????
como uma pessoa que não sabe lidar com relacionamentos virtuais por motivos de senhora casada, amei demais as desventuras amorosas e as duas visões do ghosting