lovebombing
/ˈlʌvˌbɒmɪŋ/ — lâv-bóm-bin
substantivo masculino
Técnica de manipulação emocional baseada no envio massivo de elogios exagerados, promessas prematuras, planos de viagem feitos por alguém que provavelmente ainda não lavou a própria roupa de cama e declarações absolutamente desproporcionais ao tempo de convivência entre duas pessoas que, até mais ou menos semana passada, sequer sabiam da existência uma da outra.
Do inglês love, amor, e bombing, bombardeio. No Brasil, manifesta-se no ato de transformar uma pessoa recém-conhecida — muitas vezes uma alma de segunda mão encontrada numa caçamba num aplicativo de relacionamento — no suposto amor da sua vida com a mesma responsabilidade de quem compra uma geladeira parcelada em doze vezes numa loja desconhecida da internet porque viu um vídeo no TikTok Shop, mesmo estando com a fatura do cartão de crédito atrasada e o nome quase indo parar no Serasa.
Por que algumas bandeiras vermelhas são tão bonitas tremulando ao vento que ignorá-las parece quase falta de educação?
Existe, eu acho, uma categoria muito específica de desastre afetivo que não chega na nossa vida vestida exatamente de desastre. Ela não aparece com uma placa luminosa dizendo “perigo”, não manda currículo avisando “se liga, eu tenho tendências manipuladoras”, não coloca na bio do Instagram “faço promessas intensas demais porque não sei sustentar intimidade real por mais de três semanas”.
Não. Esse tipo de desastre costuma chegar perfumado, articulado, atento, convenientemente interessado em todos os detalhes da sua vida e, acima de tudo, muito disposto a fazer você acreditar que, depois de anos conversando com homens que respondem “eae oque ta fazendo ???” para uma frase de sete linhas, finalmente encontrou alguém capaz de conjugar um verbo, fazer uma pergunta e demonstrar interesse sem parecer que está sendo torturado pelo Estado.
Foi sobre isso que comecei a pensar depois de uma conversa absolutamente aleatória com um conhecido. E aqui faço questão de usar a palavra conhecido, porque “amigo” seria íntimo demais, “colega” seria profissional demais e “pessoa que de alguma forma foi parar no meu Instagram e permaneceu orbitando minha vida digital” seria preciso demais para caber numa frase sem parecer um laudo.
Para ser honesta, eu nem lembro exatamente de onde esse homem saiu. Se eu tivesse que apostar, diria que provavelmente foi algum match antigo de algum aplicativo de relacionamento; daqueles em que a conversa até começa, talvez renda meia dúzia de mensagens, mas morre em algum lugar entre a falta de química, a falta de assunto ou o momento em que você abre o perfil da pessoa mais atentamente e percebe, com uma tristeza discreta, que ela simplesmente não faz o seu tipo. E tudo bem. Nem todo mundo que cruza a nossa vida precisa beijar nossa boca ou virar amor, trauma ou contato bloqueado.
O ponto curioso é que esse conhecido, de algum jeito, continuou ali. Olhando meus stories, acompanhando meus surtos públicos, testemunhando minhas observações sociológicas sobre homens e mulheres, aplicativos e outras manifestações do fim da civilização ocidental.
E veja só como a escrita abre portas, ou pelo menos janelas por onde pessoas improváveis começam a gritar opiniões interessantes: ele gostou da minha escrita. Mais especificamente, gostou da minha acidez, do meu cinismo e da minha aparentemente inesgotável disposição em transformar desgraça afetiva (a minha e a de vocês) em material de pesquisa. Virou leitor inscrito da newsletter. E, como se o universo tivesse decidido me lembrar que nenhuma interação digital é realmente inútil quando você tem uma coluna para alimentar, a história desta edição nasceu justamente dele.
Esta é a edição nº 3 de Cartografia do Desafeto: em lovebombing não se cai, se surfa.
Leia a edição anterior aqui:
Disclaimer — antes que algum advogado ou ex-date emocionalmente abalado apareça na minha porta (ou na minha DM) enchendo o saco:
Com exceção do meu nome, todos os outros nomes presentes nesta edição são fictícios. Alguns detalhes também foram alterados para proteger a identidade das pessoas envolvidas.
As histórias, no entanto, são reais. Foram enviadas por leitores, amigos e sobreviventes da experiência moderna de tentar conhecer alguém sem sofrer uma síncope no processo.
Nenhuma dessas pessoas recebeu compensação financeira por seus depoimentos. O pagamento foi exclusivamente emocional e consistiu na oportunidade de expor suas desventuras amorosas para uma plateia de desconhecidos na internet racharem o bico.
Caso você se reconheça em alguma destas histórias, siga o seguinte procedimento:
Primeiramente, mantenha a calma. Você não é tão importante assim (por mais que você seja otário o suficiente pra fazer lovebombing nos outros, você não é a última bolacha do pacote). Ninguém vai saber que a história foi com você. Existem milhões de pessoas no mundo.
Em segundo lugar, repense. Estatisticamente, é perfeitamente possível que exista mais de uma mulher adulta que acha de bom tom apresentar um conversante de app de namoro para o pai bolsonarista.
Se persistirem os sintomas de burrice, insistência e/ou toxicidade crônica, o block poderá ser aplicado e um psicólogo deverá ser consultado.
Definição da Metodologia
Fernando, 24 anos.
Tudo começou quando estávamos conversando no Insta e Fernando soltou, com a naturalidade perigosa de quem talvez estivesse prestes a dizer uma grande besteira ou uma grande verdade, a seguinte pérola:
— É igual meu amigo fala... quando o assunto é lovebombing, a gente não cai, a gente aproveita.
Eu, obviamente, parei diante daquela fala e olhei para a câmera imaginária do recinto, tal qual Fleabag1.

Tem uma coisa muito particular que acontece quando um homem decide formular uma tese sobre comportamento afetivo: ou ele vai dizer a maior merda colossal já pronunciada na História com a autoconfiança de um filósofo recém-saído de um podcast de calvos, ou ele vai acidentalmente encostar numa verdade tão inconvenientemente nua e crua que a gente precisa fingir que não ficou tão interessada pra não dar munição demais pro ego deles. E eu, como boa jornalista investigativa do caos, pesquisadora de campo do desastre amoroso e fiscal não remunerada da falta de vergonha na cara alheia, precisava entender de qual dos dois casos se tratava.
Minha primeira reação, confesso, foi a desconfiança. Falei para mim mesma: “lá vem”. Porque, convenhamos, existe uma linha muito fina entre “não se deixe manipular por demonstrações exageradas de afeto” e “use pessoas que fingem ser emocionalmente disponíveis até enjoar”, e eu não estava exatamente disposta a inaugurar nesta coluna a Escola Financeira do Coração de Pote, onde todo mundo se explora mutuamente em nome da liberdade afetiva e depois chama isso de maturidade.
Mas aí Fernando explicou melhor. E, para minha surpresa — e talvez para o prejuízo da minha tese misândrica de que homens raramente devem ser autorizados a discursar sem supervisão —, o que ele disse fazia, sim, algum sentido.
— Então meu nome na sua história vai ser Fernando? — nosso amigo declarou, sorridente. — Obrigado! Posso fingir que meu sobrenome é Pessoa também?
Hahahaha!
— Não.
A ideia, no fundo, não era transformar lovebombing em algo inofensivo. Também não era defender que a gente deveria sair por aí colecionando surtos alheios como quem junta cartão fidelidade de restaurante por quilo. A questão era outra: se alguém quer se enfiar na sua vida sem mais nem menos prometendo intensidade, namoro, futuro, viagem para a praia, apresentação para a família, exclusividade emocional e um amor tão grande que aparentemente dispensa convivência, tempo e comprovação empírica de que a coexistência será tolerável para o dito casal, talvez a pergunta não seja apenas “como não cair?”. Talvez a pergunta seja: em que momento exatamente a gente confundiu receber atenção com assinar um contrato vitalício de credulidade?
Em que momento uma massagem no ego virou uma hipoteca emocional? Em que momento um elogio bem dado passou a exigir que a gente entregasse a chave da própria casa, o CPF, o histórico de traumas e a esperança inteira embrulhada para presente?
Existe uma clara diferença entre cair e surfar. Cair é acreditar que a onda é um tsunami. É olhar para três dias de mensagens intensas e concluir que aquilo é uma casa, uma promessa, uma prova, uma revelação divina enviada para compensar todas as suas decepções amorosas anteriores. Cair é tentar nadar na espuma.
Surfar, por outro lado, é reconhecer a onda como onda: bonita, forte, temporária, perigosa se você esquecer que tem correnteza. Surfar é aproveitar o vento no cabelo sem necessariamente vender seu apartamento para ir morar na praia e viver disso todo santo dia. É aceitar o elogio sem converter o ser humano em profecia. É deixar que alguém te ache incrível sem imediatamente concluir que essa pessoa merece acesso irrestrito à sua vulnerabilidade mais profunda, ao seu calendário, ao seu coração e, em casos mais graves, ao seu Spotify Blend2.
Então decidi devolver a pergunta pra vocês, porque esta coluna, no fim das contas, se tornou exatamente isso: um laboratório afetivo meio antiético, onde todo mundo chega com uma história absurda e sai, no mínimo, com uma hipótese pior.
Se gente filha da puta vai prometer intensidade de qualquer maneira; se o mercado afetivo virou mesmo essa feira livre emocional em que todo mundo grita oferta imperdível até você chegar perto o bastante para descobrir que a fruta está podre; se o lovebombing se tornou uma espécie de trilha sonora cafona da intimidade moderna, será que a única postura possível é fugir?
Ou será que, com a devida distância, uma quantidade saudável de cinismo e a consciência firme de que gente empolgada também pode ser só gente carente com vocabulário, dá para aproveitar a massagem no ego enquanto dura?

Caso desta edição: A noiva de sete dias
Fernando baixou o Hinge. Como se Tinder, Bumble, Boo, Badoo, Inner Circle e a porra da frota inteira dos Transformers3 já não fossem suficientes para nos ensinar, com requintes de crueldade, que talvez o problema nunca tenha sido exatamente o aplicativo, mas as pessoas que resolveram transformar esses ambientes digitais numa espécie de feira agropecuária da carência humana. Ainda assim, na sede por um cardápio ligeiramente diferente de desconhecidos emocionalmente problemáticos, Fernando pensou: “hm, por que não?”, e baixou mais um aplicativo.
Foi o maior erro que ele cometeu? Talvez. Pode ser. Não sei. Eu nem vou afirmar com absoluta certeza que foi ali que eu e ele demos match algum dia, porque minha memória é uma repartição pública em greve e, sinceramente, o importante aqui é que o querido nos rendeu pauta. E, numa coluna como esta, render pauta é quase uma forma de serviço comunitário.
De toda forma, foi no Hinge que Fernando conheceu uma garota que, por motivos óbvios de preservação de identidade, aqui vamos chamar de Gabriela.
Gabriela também tinha 24 anos. Era bonita, tinha uma bio interessante e trabalhava com TI, assim como ele. Até aí, ótimo. Dois adultos jovens, duas carreiras minimamente compatíveis, um aplicativo tentando fingir que não é apenas o Tinder com uma tipografia mais comportada e uma mensalidade bem mais salgada. Nada de novo sob o sol radioativo dos relacionamentos modernos.
Mas Gabriela não era apenas bonita. Ela também tinha assunto. E, num mundo em que muitos homens e mulheres parecem acreditar que “e aí” seguido de “sumiu” constitui uma conversa, isso já era quase uma qualificação acadêmica.
Gabriela gostava de artes, história, cultura. Tinha interesses em comum com Fernando, engajava na conversa, respondia rápido, fazia perguntas, sustentava o papo. Um milagre. Um acontecimento. Uma aparição mariana4 em formato de match. E, ao mesmo tempo, também era interessante pelas diferenças: Fernando, apesar de ateu, sempre teve curiosidade por diferentes crenças, religiões e culturas, enquanto Gabriela falava sobre a própria espiritualidade com encanto.
Ela era do candomblé. E eu, como umbandista, entendo perfeitamente o impacto disso. Existe algo muito íntimo em falar sobre a nossa fé para alguém que escuta de verdade; alguém que não transforma tudo em piadinha imbecil de “chuta que é macumba”, que não confunde religião de matriz africana com fantasia de TikTok e que não nos olha como se estivéssemos prestes a sacrificar uma galinha no meio do Starbucks. A nossa crença é linda, vasta, profunda, cheia de mundo. Quando a gente encontra paz naquilo que acredita e encontra alguém disposto a ouvir sem preconceito, isso conta. Conta muito.
Então havia química. Pelo menos pela tela, havia. A conversa fluía, os interesses se cruzavam, a curiosidade era mútua, aquela eletricidade inicial começou a se formar. Até aí, nada particularmente criminoso.
O problema começou quando, depois da primeira semana de conversa, já entrando na segunda, Gabriela aparentemente decidiu que estava na hora de acelerar o carro emocional numa avenida sem freio, sem cinto e sem qualquer autorização do DETRAN do bom senso. A garota sequer sabia o sobrenome de Fernando e já estava soltando coisas como: “ai, que droga, tô gostando de você”.
Hein?!
Ô, gatinha. Vamos respirar?
Olha só, querido leitor, eu entendo. Sério. Eu entendo mais do que gostaria. Sou mulher, sou romântica contra a minha própria vontade, escrevo sobre amor com o entusiasmo de quem deveria estar fazendo mais terapia em vez de transformando tudo em newsletter, e sei muito bem o que significa esse “ai, que droga” dito em tom choroso antes de confessar que está gostando de alguém.
Isso não é uma frase. É um boletim de ocorrência emocional. Quando uma mulher fala “ai, que saco, tô gostando de você”, ela não está apenas comunicando interesse; ela está anunciando que acaba de perceber que perdeu uma parte importante do controle da própria vida e que, dependendo do homem envolvido, talvez precise começar a fazer alongamento para o tombo. Quando o assunto é homem, gostar de alguém frequentemente vem acompanhado daquela vontade muito específica de olhar no espelho e dizer: “sua vadia burra. De novo? Sério mesmo? Depois de tudo o que passamos?”.
A diferença é que, nesse caso, Gabriela mal conhecia Fernando.
E aqui digo isso com todo o respeito do mundo ao nosso colaborador desta edição: beijo, Fernando, obrigada pela pauta, mas vamos todos manter os pés no chão. O que havia ali para gostar tanto assim? Uma boa conversa? Interesses em comum? Respostas rápidas? Uma bio simpática? Um homem de TI capaz de falar sobre história sem transformar a conversa num TED Talk5 insuportável? Ótimo. Maravilhoso. Promissor, até. Mas entre “promissor” e “ai, meu Deus, estou gostando de você” existe uma distância razoável, uma avenida inteira, talvez uma ponte estaiada, e Gabriela atravessou tudo isso correndo como se estivesse atrasada para a própria cerimônia de casamento.
🎵 Música da Vez:
Toda pesquisa precisa de uma trilha sonora.
A cada edição de Cartografia do Desafeto, uma nova música será adicionada à playlist oficial da investigação.
Quando (ou se) esta pesquisa terminar, teremos duas coisas: evidências suficientes para provar minha tese e uma playlist excelente.
🎵 Confira a playlist aqui:
Naquela segunda semana de conversa, Gabriela também começou a revelar vulnerabilidades importantes. Contou que estava começando a se encontrar na religião, que estava tentando sair do armário e lidar com a descoberta de ser uma mulher bissexual, que vinha de uma família extremamente conservadora e rígida, que nunca tinha namorado antes e que o pai era bolsonarista6.
Aqui a narrativa, que já estava levemente preocupante, ganha um personagem secundário absolutamente inesperado: o pai de Gabriela.
O coroa, aparentemente munido de tempo livre, senso de propriedade sobre a filha adulta e uma conta ativa no Instagram, começou a zanzar pelo perfil de Fernando. Primeiro visualizou um story. Depois curtiu um post. De repente, já estava praticamente fazendo estágio não remunerado como fiscal de genro em potencial, sem nenhum pudor em deixar claro que estava, sim, stalkeando7 o rapaz porque não queria que a filha “se envolvesse com qualquer um”.
Fernando, ao relatar essa parte, até tentou fazer uma intervenção em sua própria defesa. Algo na linha:
— Venus, olha bem pra mim. Olha para o meu perfil. Qual foi, eu pareço o Thiago Leifert8 do TI!
Sim, eu entendo o argumento. Fernando não parece exatamente um vilão de novela mexicana, um mafioso de 365 Dias9 ou um cara de moletom encostado num beco escuro esperando você passar com a bolsa. Mas homem é homem, e homem consegue ser uma merda em praticamente qualquer embalagem, do engravatado ao alternativo, do nerd ao empresário, do “sou um esquerdomacho desconstruído” ao “sou um Faria Limer10 que odeia rótulos”. Então, em tese, eu até entenderia a paranoia de um pai querendo proteger a filha. Entenderia melhor, claro, se essa mesma filha adulta não estivesse literalmente na porra de um aplicativo de relacionamento.
Para uma família tão conservadora, até que eles pareciam bastante liberais quando convinha. Ou será que Gabriela mentiu sobre a origem da conversa com Fernando? Será que disse que o conheceu num grupo de estudos sobre história da América Latina, numa roda de conversa sobre espiritualidade, numa fila de mercado, numa livraria, numa manifestação cultural respeitável, em qualquer lugar menos num cardápio digital de solteiros com prompts engraçadinhos? Nunca saberemos.
Mas existe algo engraçado — e por engraçado quero dizer profundamente irritante — na elasticidade moral de certas famílias conservadoras. No discurso público, é Deus, pátria e família. No privado, é controle, hipocrisia, vigilância, desejo reprimido e uma curiosidade quase pornográfica pela vida alheia. Às vezes, inclusive, Deus, pátria, família e amante. E, em muitos casos, nem sempre a amante do “hétero” é mulher. Mas isso é pauta para outra coluna aqui nesta newsletter, e eu ainda pretendo viver tempo suficiente para escrever sobre ela.
Não me entendam mal: eu sei que um pai bolsonarista pode ser uma questão. Sei que família é complicado. Sei que amar alguém da própria família e discordar violentamente da forma como essa pessoa enxerga o mundo pode ser uma experiência emocionalmente exaustiva. Meu próprio pai, em 2018, votou no Bolsonaro e, por ódio ao PT e ao Lula, passou um período defendendo o inelegível com a convicção patética de quem acha que está salvando a nação enquanto apenas passa vergonha na internet.
Para mim, foi relativamente fácil olhar para isso e pensar: “meu pai e todo mundo da minha família que defende essa merda são um bando de imbecis e eu não compactuo com isso”. Mas também foi fácil porque meu pai sempre foi ausente. A ausência, nesse caso, virou quase uma bênção logística para mim. É muito mais simples não se envergonhar o tempo inteiro de alguém quando essa pessoa não está tão presente assim na sua vida.
No caso de Gabriela, porém, parecia diferente. O pai parecia presente. Presente até demais. Presente no Instagram de Fernando, nos stories de Fernando, nas curtidas de Fernando, na vigilância paterna de uma relação que ainda nem era relação.
Eu até tenho empatia por isso como contexto. Crescer numa família rígida, conservadora, controladora e ainda tentar descobrir a própria espiritualidade, a própria sexualidade11, a própria autonomia e a própria vida amorosa deve ser uma experiência foda. Só que empatia não é alvará para transformar um quase desconhecido em candidato oficial a genro antes do primeiro date.

De conversantes a casal divorciado
Tem uma coisa muito simples que pessoas adultas costumam fazer quando estão conhecendo alguém: elas não apresentam essa pessoa para a família — nem direta, nem indiretamente, nem por meio de uma investigação semi-criminal no Instagram — antes de existir qualquer intenção minimamente concreta de avançar a relação.
Fernando, segundo ele, deixou muito claro desde o início que estava naquela vibe de “quero conhecer gente nova e ver onde isso dá”. Eu não julgo, porque essa é exatamente a minha vibe hoje. Não estou desesperada atrás de marido ou esposa, não estou fazendo processo seletivo para pai/mãe dos meus futuros gatos, não estou entrando em aplicativo com planilha de compatibilidade astrológica, mas também não sou uma criatura sem critério querendo sexo rápido com desconhecidos que mal sabem escrever “você” sem parecer que estão tendo um AVC ortográfico.
Eu quero conhecer gente nova. Isso significa que, se a pessoa for atraente o suficiente e o papo for bom o suficiente, podemos sair, beber alguma coisa, trocar uns beijos, talvez dar uns pegas mais quentes e, se o interesse sobreviver ao primeiro encontro, quem sabe avançar para algo com um pouco mais de pimenta, dendê e reincidência no segundo date. E se, por acaso, no meio dessa bagunça, alguém for interessante o bastante para despertar sentimentos em mim, tudo bem também. Pode acontecer. Mas “ver no que dá” significa exatamente isso: ver no que dá. Não significa “vamos fingir casualidade enquanto um de nós já está escolhendo a música da entrada na cerimônia”.
Gabriela, aparentemente, concordou com essa proposta. Disse que estava na mesma.
O problema é que suas atitudes não acompanharam o próprio discurso.
Ela dizia que estava gostando demais de Fernando. Falava que ele era incrível, maravilhoso, inteligente, diferente. Dizia que os dois tinham uma química impressionante, que parecia coisa de outro mundo, que nunca tinha conhecido alguém como Fernando, que ele era exatamente o tipo dela. Falava sobre os próximos encontros — no plural — como se eles já tivessem uma agenda romântica prevista pelos próximos trimestres, sendo que os dois ainda nem tinham tido o primeiro date. E Fernando, que não é exatamente um imbecil recém-nascido largado no mundo sem supervisão (assim espero), percebeu o exagero e tentou dar uma acalmada na gata.
Mas também não vamos fingir que ele cortou a graça de forma muito contundente, né, Fernando? Vamos ser honestos neste tribunal afetivo de quinta categoria: ele agradeceu, achou fofo, tentou reduzir a velocidade, mas também deixou a massagem no ego acontecendo — e, claro, não ia perder a oportunidade trocar uns belos amassos com a gatinha que estava dando bola para ele.
Mas quem poderia culpá-lo totalmente? Depois de tanto aplicativo povoado por gente que parece responder mensagem sob ameaça, receber elogio demais pode mesmo parecer uma experiência extracorpórea.
Ainda assim, havia ali um desequilíbrio evidente.
Gabriela nunca tinha namorado. Ela também dizia que nunca tinha se sentido assim por ninguém antes. A garota parecia estar vivendo, com 24 anos, aquela primeira paixão adolescente que deveria ter acontecido aos 15, quando todo mundo ainda está autorizado a ser dramaticamente insuportável porque o cérebro nem terminou de cozinhar. Mas uma coisa é ser inexperiente; outra é transformar um homem que você conhece há menos de duas semanas em revelação divina, sinal espiritual, protagonista de fanfic e possível apresentação para a família conservadora.
Se eu me sentisse assim por alguém depois de menos de duas semanas de conversa, provavelmente chamaria uma ambulância, faria um exame toxicológico ou pediria para alguém conferir se eu não estava entrando em falência múltipla dos órgãos. Porque intensidade desse nível, nesse prazo, não é romance; é sintoma. Pode ser carência, fantasia, projeção, ansiedade, deslumbramento, desespero, qualquer coisa.
Mas amor?
Amor mesmo? Aquele amor que precisa de convivência, tempo, conflito, pequenas decepções, reconhecimento mútuo e a descoberta lenta de quem a pessoa é quando não está tentando te impressionar?

Não. Isso não era amor. Era uma campanha agressiva de aquisição emocional com orçamento alto e planejamento de retenção inexistente.
Então chegou o primeiro date.
Pessoalmente, a química não morreu. Pelo contrário. O encontro foi ótimo. Eles foram ao MASP12 ver uma exposição relacionada a um grupo de ativistas chilenos em torno da arte no período da ditadura de Pinochet13. Veja bem: isso, por si só, já é um encontro muito melhor do que 90% das propostas feitas por homens em aplicativos, que costumam oscilar entre “vem aqui em casa” e “vamos tomar uma cerveja em algum boteco sujo e barulhento onde eu possa falar de mim ou de algum jogador de futebol por três horas”. Fernando e Gabriela, amantes de história, se encontraram ali, entre obras, política, memória, arte, olhares, sorrisos e milhares de elogios apaixonados de Gabriela direcionados a um Fernando cujo ego, naquele momento, devia estar recebendo uma drenagem linfática espiritual.
Opa, espiritual não. Foi mal, Fernando. Esqueci que você é ateu. Prossigamos.
Como se o roteiro já não estivesse suficientemente carregado de sinais contraditórios, Fernando e Gabriela se beijaram14.
Pois bem, querido leitor. Aparentemente não bastava nossa (des)querida Gabi ter falado sobre química de outro mundo, próximos encontros no plural e sentimentos intensos demais para uma relação que ainda mal tinha CPF cadastrado; era preciso também selar a experiência com um beijo no museu, entre panfletos sobre a ditadura chilena, arte política e o tipo de tensão romântica que faz qualquer pessoa minimamente carente pensar: “hm, talvez exista algo aqui”. O que, convenhamos, é exatamente o tipo de pensamento que antecede boa parte das maiores humilhações documentadas pela civilização moderna.
Ah, que conexão linda. Que encontro promissor. Que narrativa aparentemente bem encaminhada. Que maravilhoso seria se esta coluna não existisse justamente para documentar o momento exato em que a realidade pega uma cadeira e arremessa na nossa cabeça.
Dias depois do encontro, Gabriela sumiu da vida de Fernando.
Eu sei o que você está pensando, caro leitor. Também senti o déjà-vu. Talvez porque a edição anterior desta coluna tenha sido justamente sobre ghosting15. Talvez porque lovebombing e ghosting frequentemente andem de mãos dadas, como um casal tóxico combinando fantasia de Halloween. Primeiro a pessoa te cobre de elogios, planos, intensidade e frases que parecem retiradas de um romance ruim traduzido por IA; depois, no primeiro contato com a concretude da vida real, desaparece como se tivesse sido abduzida por uma seita ou pelo próprio medo de sustentar as merdas que disse.
Gente insegura costuma ser intensa demais no começo e covarde demais no desenrolar. Intensidade, sozinha, é fácil. Difícil é consistência. Difícil é responsabilidade. Difícil é olhar para alguém que você inflamou emocionalmente e admitir que talvez tenha exagerado, que talvez tenha confundido carência com conexão, que talvez tenha vendido um produto que não tinha em estoque.
Mas o sumiço nem foi a parte mais impressionante.
Uma semana depois do date — e faço questão de escrever por extenso, para que todos possamos contemplar a arquitetura do absurdo: sete dias depois do date — Fernando abriu o Instagram e viu Gabriela postando foto de aliança.
E não, não era uma piada interna. Não era uma trend. Não era ela assumindo um relacionamento fictício com Fernando em delírio pós-MASP. Era Gabriela assumindo namoro sério com outro cara. Foto, declaração amorosa, emoji de aliança na bio, arroba do príncipe prometido, todo o pacote completo da heteronormatividade performática em modo anúncio oficial.
Sete dias.16
A mesma mulher que, há pouco tempo atrás, estava dizendo para Fernando que nunca tinha sentido aquilo por ninguém, que ele era diferente, que ele era incrível, que a química dos dois era coisa de outro mundo, agora estava de aliança com outro homem no Instagram.
Essa história tem uma beleza quase matemática em sua própria desgraça. Em algum ponto entre “ai, que droga, tô gostando de você” e “@fulano é o amor da minha vidaa <3 [emoji de aliança na bio]”, Gabriela conseguiu não apenas trocar de protagonista, mas também lançar uma nova temporada inteira da própria vida afetiva sem aviso prévio, sem transição narrativa e sem qualquer respeito pela inteligência do público.
Fernando, incrédulo — e imagino que com a expressão facial de quem acabou de ser atropelado por um caminhão de mudança emocional —, mandou uma mensagem no WhatsApp de Gabriela desejando parabéns pelo namoro. Depois, bloqueou a garota em absolutamente todas as redes sociais. Uma atitude correta, higiênica, espiritualmente necessária. Espero, inclusive, que tenha bloqueado o pai bolsonarista também, porque se tem uma coisa que ninguém merece é virar ex-quase-genro de uma família que você nem chegou a conhecer. Pelo menos agora o sogro que fiscaliza Instagram e provavelmente canta para pneu é problema de outro rapaz. Que Deus, os orixás e o algoritmo tenham piedade dele.
A cereja do bolo, porém, veio depois: mesmo semanas após a grande declaração amorosa pública, monogâmica, aliancística e cem por cento verdadeira ao seu novo príncipe prometido, o perfil de Gabriela continuava ativo no Hinge. O match dela ainda estava lá, intacto, encarando Fernando como uma prova material do crime afetivo.
Talvez isso seja o detalhe mais revelador de toda a história. Não estamos falando apenas de uma pessoa que se emocionou cedo demais, se assustou e fugiu. Também não estamos falando apenas de uma garota inexperiente que confundiu a primeira descarga de dopamina com destino. Estamos falando de alguém que parecia circular entre possibilidades românticas como quem deixa várias abas abertas no navegador: Fernando na guia um, namorado oficial na guia dois, Hinge rodando em segundo plano e o pai stalkeando possíveis candidatos como se fosse gerente de compliance da família tradicional brasileira.

And I couldn’t help but wonder…
Será que Gabriela vai casar com o príncipe prometido, ter dois filhos, um cachorro e uma bela casa nos Hamptons? Provavelmente não. Até porque estamos no Brasil e, com essa economia, mal dá para financiar um sofá sem vender um rim.
Será que ela realmente ama esse outro cara? Acho bem difícil. Talvez.
Será que amava Fernando? Com certeza não.
Será que amava a ideia de estar apaixonada, de ser desejada, de viver uma narrativa intensa, de finalmente habitar o papel de mulher escolhida, desejada, assumida, vista? Aí, sim, começamos a chegar em algum lugar.
Esse é o ponto mais perverso do lovebombing: muitas vezes, ele nem nasce de uma estratégia consciente de manipulação. Às vezes nasce de uma pessoa tão carente, tão confusa, tão desesperada por sentir alguma coisa que acaba usando o outro como tela de projeção. A pessoa não se apaixona por você; ela se apaixona pelo roteiro que escreveu com o seu rosto no elenco. Você vira suporte, símbolo, personagem, desculpa. E quando a realidade começa a exigir presença — um encontro, um corpo, uma continuidade, uma escolha — ela foge para a próxima fantasia disponível. O que era destino na terça vira constrangimento na sexta. O que era “nunca senti isso antes” vira “estou namorando outro” no domingo seguinte.
No fim, Fernandinho não caiu exatamente. Nosso camarada Fernandinho surfou. Surfou nos elogios, no encantamento, na química, o date no museu, na boca de Gabriela e na sensação deliciosa de ser visto por alguém aparentemente interessante.
Mas a onda quebrou rápido. E, quando quebrou, não deixou amor, não deixou promessa, não deixou nem uma conversa decente. Deixou apenas um match ativo no Hinge, um pai que acampa em porta de quartel que provavelmente já estava pronto para investigar o próximo candidato e uma pergunta incômoda: quantas pessoas estão por aí dizendo “nunca senti isso antes” quando, na verdade, o que nunca sentiram foi a obrigação de sustentar o que dizem?
Talvez Gabriela não fosse uma vilã. Talvez fosse só uma pessoa inexperiente, confusa, emocionalmente afobada e perigosamente encantada pela própria capacidade de fabricar intensidade. Mas, se existe uma coisa que esta coluna tem me ensinado, é que nem todo mundo precisa ser vilão para causar estrago. Às vezes basta ser covarde, carente e ter acesso à internet.

🧪 Status da Pesquisa
Hipótese atual: Não existe amor em São Paulo.
Evidências coletadas: Muitas — sustentadas por matches emocionados e declarações prematuras.
Evidências contrárias: A princesa que beijou Fernando no MASP e, aparentemente, encontrou seu príncipe encantado logo em seguida. Recomendo, inclusive, que as interessadas procurem Fernando: beijou, namorou. Não com ele, claro, mas namorou.
Nível de confiança da pesquisadora: Em recuperação. Depois do declínio vertiginoso da última edição, é revigorante lembrar que a desgraça afetiva também acontece na vida dos outros, o que torna a análise muito mais confortável, científica e espiritualmente menos humilhante.
Nível de acidez: Baixo. Eu poderia ter sido mais cruel, admito. Mas o que posso fazer se minha especialidade olímpica é falar mal de homem e, desta vez, quem cometeu o crime de guerra emocional foi uma mulher? Paciência. Nem todo experimento oferece as condições ideais de laboratório.
Risco de viés emocional: Baixo a moderado — a pesquisadora não foi vítima direta do ocorrido, mas demonstrou solidariedade seletiva ao ego massageado de Fernando e certa alegria indecorosa diante da fofoca.
Próximo passo da pesquisa: Chamar mais homens héteros de “migo” para que, em seu habitat natural, eles deixem de me enxergar como presa, baixem a guarda e se sintam confortáveis o suficiente para compartilhar suas experiências amorosas desastrosas. Tudo, claro, em nome da ciência, da literatura e da manutenção desta coluna.
🧪 Na próxima edição: Em que momento exatamente uma aliança deixou de ser um símbolo de compromisso e passou a funcionar, para algumas pessoas, como um acessório meramente decorativo? Bem, eu tenho uma pergunta melhor: se todo mundo sabe que “meu relacionamento já acabou faz tempo” costuma ser apenas o “oi, sumida” dos canalhas com contrato vigente, por que ainda existe gente disposta a assinar o termo de participação nessa palhaçada? Em outras palavras, o próximo experimento será um guia de campo: adultério para iniciantes.
Série britânica criada e protagonizada por Phoebe Waller-Bridge, também conhecida como uma das maiores obras já feitas sobre autossabotagem, desejo, luto, culpa, sarcasmo e mulheres que fingem estar lidando muito bem com a própria vida enquanto estão, na verdade, emocionalmente penduradas por um fio dental. É o tipo de série que faz você rir, querer morrer, se identificar e depois fingir que não se identificou tanto assim porque ainda tem um mínimo de orgulho.
Recurso do Spotify que cria uma playlist compartilhada entre duas pessoas com base no gosto musical de ambas. Também conhecido como aquele momento perigoso em que você permite que alguém tenha acesso simbólico demais à sua intimidade e, de repente, está analisando compatibilidade afetiva porque os dois ouviram a mesma música da Mitski.
Franquia de filmes, desenhos, brinquedos e delírios metálicos envolvendo robôs gigantes que viram carros, caminhões, aviões e, aparentemente, qualquer outra coisa que dê para vender em forma de boneco articulado. Nesta coluna, aparece como referência ao fato de que já existem tantos aplicativos de relacionamento que daqui a pouco vamos precisar de um guia de montagem da Hasbro para entender em qual plataforma exatamente estamos sendo humilhados.
Fenômeno religioso no qual a Virgem Maria supostamente aparece para alguém, geralmente trazendo mensagens espirituais, alertas ou revelações. Nesta coluna, porém, a expressão aparece num sentido muito menos sagrado e muito mais patético: para descrever um acontecimento tão raro, inesperado e improvável que quase dá vontade de acender uma vela — como encontrar alguém em aplicativo de relacionamento que sabe conversar.
Palestras curtas, geralmente apresentadas por pessoas que parecem extremamente convencidas de que descobriram alguma verdade revolucionária sobre produtividade, felicidade, liderança, vulnerabilidade, inovação ou qualquer outro substantivo abstrato capaz de virar slide com fundo branco e fonte sem serifa. No contexto desta coluna, “virar um TED Talk” significa transformar uma conversa que deveria ser minimamente normal numa palestra insuportável sobre si mesmo — fenômeno muito comum em dates com homens héteros que fizeram uma viagem para o Chile em 2018 e desde então acreditam ter algo a ensinar sobre geopolítica latino-americana. Na próxima edição, esse termo aparecerá novamente. E, como sou uma palhaça criativa, a nota de rodapé explicativa vai ser um texto completamente diferente,
Caso você viva numa caverna, tenha acabado de acordar de um coma ou tenha sido criado por cogumelos em uma floresta sem acesso à internet, bolsonarista é o nome dado ao apoiador de Jair Bolsonaro, ex-presidente brasileiro e fenômeno político responsável por fazer muita gente descobrir, da pior maneira possível, que alguns familiares talvez devessem ter continuado calados no churrasco. Em termos afetivos, um pai bolsonarista costuma representar uma combinação delicada de conservadorismo, fiscalização moral da vida alheia, defesa histérica da família tradicional e uma impressionante capacidade de passar vergonha com convicção.
Verbo contemporâneo derivado do inglês stalk, utilizado para descrever o ato de investigar a vida de alguém nas redes sociais com um nível de comprometimento que, em outras épocas, talvez exigisse um distintivo, um mandado judicial ou uma internação breve. Pode envolver olhar stories, fuçar curtidas antigas, descobrir ex, família, emprego, signo, cidade natal, inclinação política e, em casos mais graves, o nome da mãe da pessoa antes mesmo do primeiro date. Em tese, todo mundo condena. Na prática, todo mundo já fez. Quem diz que nunca fez tá mentindo ou é ruim de internet.
Apresentador brasileiro frequentemente associado, no imaginário popular, àquele arquétipo muito específico do homem com “cara de sapatênis”: meio coxinha, meio genro aprovado por tia, meio gerente de agência bancária que chama todo mundo de “meu querido” e provavelmente nunca atravessou fora da faixa de pedestre. Nesta coluna, a referência aparece menos sobre o Thiago Leifert em si e mais sobre uma estética: a do homem que não parece exatamente um perigo público, um membro da Yakuza ou um marginal de Osasco, mas sim alguém que, no máximo, poderia causar dano psicológico nos outros ao explicar por vinte minutos por que prefere cerveja artesanal.
Filme da Netflix conhecido por transformar sequestro, máfia, obsessão, abuso, erotismo duvidoso e diálogos que parecem escritos por um abacate podre em uma franquia de sucesso inexplicável. A obra romantiza um tipo de homem que, na vida real, não seria “intenso”, “dominante” ou “misterioso”, mas sim um abusador com abdômen definido e harmonização facial. Serve, nesta coluna, como referência cultural para aquele arquétipo masculino que acha que ser perigoso é sexy, quando muitas vezes só está a duas denúncias de virar matéria de portal.
Espécie urbana encontrada principalmente em regiões corporativas, bares caros, aplicativos de relacionamento e rodas de conversa onde alguém inevitavelmente vai mencionar investimento, mercado, equity, growth, crypto, M&A, valuation ou qualquer outra palavra capaz de fazer a alma de uma pessoa normal abandonar o corpo por alguns segundos. O faria limer costuma se comunicar por meio de anglicismos desnecessários, tem opiniões fortes sobre produtividade, chama cansaço de “burnout” quando é dele e de “falta de resiliência” quando é dos outros, e frequentemente acredita que estar de colete acolchoado e trabalhar no Itaim configura personalidade.
Aqui preciso abrir um parêntese porque, enquanto Fernando me contava essa história, algumas atitudes de Gabriela me lembraram muito certos casos de heterossexualidade compulsória que já vi de perto. Não estou afirmando nada sobre ela, até porque eu não conheço Gabriela, não ouvi a versão dela, não sei os detalhes da vida dela e tudo o que tenho é o relato de um terceiro que, convenhamos, também não a conhecia tão profundamente assim. Mas achei no mínimo curioso que uma garota de 24 anos, que nunca tinha namorado ninguém — mesmo sendo bonita e inteligente e, aparentemente, curiosa e disposta a se relacionar —, criada numa família extremamente conservadora e rígida, entrasse justamente nesse momento de descoberta da própria bissexualidade numa espiral tão desesperada de validação masculina.
E não digo isso como quem aponta o dedo para uma mulher dizendo “ah, então ela não gosta de homem de verdade”, porque, pelo amor de Deus, bissexualidade existe — porra, esta filha da puta que vos escreve é uma mulher bissexual — e esta coluna não é uma audiência pública fiscalizada por sáficas fiscais da Receita Federal do desejo. Digo apenas que existe uma diferença entre gostar de homens e precisar provar, para si mesma e para os outros, que gosta de homens. E, em alguns momentos, o comportamento de Gabriela parecia menos “estou interessada nesse cara” e mais “olha aqui, mundo, família, pai conservador e talvez alguma parte confusa de mim mesma: eu amo um homem, está vendo? Está todo mundo vendo?”.
Talvez seja projeção minha. Talvez seja só coincidência. Talvez Gabriela fosse apenas uma pessoa inexperiente, carente e emocionada com acesso ao Hinge. Mas não me surpreenderia se, daqui a dois ou três anos, ela ouvisse Good Luck, Babe! da Chappell Roan num domingo à noite e tivesse uma percepção ligeiramente desconfortável sobre si mesma.
Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, aquele prédio icônico da Avenida Paulista que fica suspenso por quatro pilares vermelhos e que, caso você não seja de São Paulo ou seja apenas um uncultured swine com internet, provavelmente já viu em alguma foto sem saber o nome. É um dos museus mais importantes do Brasil e também um ótimo cenário para dates que querem parecer intelectualmente promissores antes de desmoronarem como qualquer outra promessa afetiva feita em app de relacionamento.
Regime militar comandado por Augusto Pinochet no Chile entre 1973 e 1990, depois do golpe que derrubou o presidente Salvador Allende. Foi um período marcado por perseguição política, censura, tortura, desaparecimentos, assassinatos e por aquele tipo muito específico de horror histórico que certos liberais de sapatênis adoram fingir que foi apenas “um momento econômico complicado, mas necessário”. Não foi. Foi uma ditadura. E, nesta coluna, aparece porque Fernando e Gabriela escolheram como cenário do primeiro encontro uma exposição ligada à arte e ao ativismo chileno nesse período — o que é, convenhamos, muito mais interessante do que dividir batata frita com um homem chupando o pau do Neymar e explicando o que é um impedimento.
Uuuuiii, Fernando. Conseguiu o que queria, hein, garotão?
Do inglês ghost, fantasma; fenômeno afetivo no qual uma pessoa desaparece da sua vida sem aviso, explicação, despedida, responsabilidade emocional ou qualquer vestígio de vergonha na cara. É quando alguém que estava conversando, flertando, saindo, prometendo ou simplesmente ocupando espaço demais no seu cotidiano decide evaporar como se tivesse sido abduzido por uma força paranormal chamada “não sei lidar com consequências”. Esta coluna, inclusive, já dedicou uma edição inteira a essa desgraça: a edição passada foi praticamente uma autópsia do ghosting, com luvas, bisturi e uma quantidade preocupante de deboche.
Perdi a oportunidade de nomear essa personagem de Samara, né?




Hoje tentei anotar hahaha, mas como sempre é difícil o texto é muito bom.
- Adoro a foto "Rest Energy"
- Ela é uma serial-lover
- Como se fosse gerente de compliance da família tradicional brasileira (hahaha sensacional)
- O status dela "namorando" é como se trocasse aquele ator daquele personagem secundário da série achando que ninguém ia perceber
- Não concordo com o termo bolsonarismo,mesmo porque o sufixo ISMO pressupõe que é um tipo de movimento/ideologia/estilo de vida e afins, o que certamente esse pessoal nem deve saber o que é...o que esperar de alguém que reza pra pneu e bebe detergente?
Mais uma vez, texto foda!
Já dá pra fazer um TCC com todas as informações que você tem Kkkkk